Joel Sartore

Biodiversidade

O “Noé da fotografia” já retratou 7000 animais, olhos nos olhos

O projecto "Photo Ark", de Joel Sartore, é a “maior arca fotográfica do mundo”. Pela primeira vez na Europa, o fotógrafo norte-americano e a "National Geographic" inauguram esta quarta-feira uma exposição no Galeria da Biodiversidade do Porto

Texto de Ana Maria Henriques • 16/10/2017 - 09:47

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Chega a jardins zoológicos ou santuários de animais e monta um verdadeiro estúdio de fotografia, com iluminação e cenários pretos ou brancos a preceito: um rato passa a ser do tamanho de um elefante, ambos têm a mesma importância documental. Joel Sartore, fotógrafo e colaborador regular da revista National Geographic, aponta a objectiva para os olhos dos animais e acrescenta mais um retrato à “arca fotográfica” que decidiu criar em 2006, qual Noé do século XXI. Nos últimos onze anos, o norte-americano já fotografou 7000 espécies animais sob o cuidado humano. O objectivo? Fazer um inventário de todas as espécies em cativeiro em todo o mundo e chamar a atenção, sobretudo, para todas as que estão em perigo de extinção. O projecto National Geographic Photo Ark chega agora a Portugal, numa exposição com inauguração marcada para esta quarta-feira, 18 de Outubro, na Galeria da Biodiversidade — Centro Ciência Viva do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto (UP).

 

Joel Sartore — que há mais de 20 anos colabora com aquela revista — começou por fotografar os animais do Jardim Zoológico de Lincoln, cidade do Nebraska onde nasceu e vive. Isto porque, em 2005, decidiu fazer uma pausa nas viagens de trabalho para poder estar ao lado da mulher, Kathy, a quem foi diagnosticado um cancro da mama nesse mesmo ano. Ficou em casa por largos meses, mas não abandonou a câmara fotográfica: um rato-toupeira-pelado foi o primeiro animal que retratou, contra um fundo branco, para uma série que acabaria por se chamar Photo Ark.

 

A partir daí, nunca mais parou de documentar animais em jardins zoológicos, aquários, centros de reabilitação de vida selvagem e, até, criadores particulares [vê a fotogaleria]. Estima que sejam entre 12.000 e 13.000 as espécies de animais nessas condições, em todo o mundo, e quer mostrar os seus rostos. Daí a abordagem “olhos nos olhos” que escolheu adoptar, com cenários simples e limpos para “eliminar distracções”, explica, em entrevista do P3. Quem vê as imagens pode “olhar profundamente os animais e apreciar a sua verdadeira beleza e o seu valor”, acredita. “Espero que esta ligação possa inspirar as pessoas a agir e a protegê-los, antes que seja tarde demais.”

 

Há um “grande interesse público na megafauna carismática”, como os ursos polares, os gorilas, os tigres e os elefantes. Mas e as criaturas mais pequenas, aquelas que passam despercebidas? “São muito mais importantes para o ecossistema do planeta Terra”, sublinha, razão pela qual se tem esforçado para as retratar. O “Noé da fotografia” — como é muitas vezes apelidado — já fotografou milhares de animais em cativeiro. Por “estarem habituados à presença humana”, lidam relativamente bem com o facto de terem uma objectiva apontada. “A maioria destes animais”, assegura, “não são domesticados nem treinados, mas vivem sob o cuidado humano há muitos anos e não entram em stress”. E há ainda aquelas espécies, presentes no Photo Ark, “que hoje estariam extintas se não fosse a existência de programas de criação em cativeiro”.

 

É o caso do rinoceronte-de-java, que Sartore ainda não conseguiu fotografar: “Só restam perto de uma dúzia, num parque nacional de Java, na Indonésia.” Desde o primeiro momento do projecto que imagina o modo como o fotografaria. “Colocaríamos uma armadilha com uma câmara fotográfica na ponta num poço de água e usaríamos a luz nocturna para criar o nosso fundo negro”, descreve. O animal número 7000 a ser retratado foi um pequeno marsupial: o Gymnobelideus leadbeateri vive na Austrália e é conhecido por “fada da floresta”. Estima-se que já só restem 50 espécimes vivos — e esta é uma oportunidade para contar a história da “fada da floresta” enquanto ainda “há tempo para o salvar e aos seus habitats”.

 

Neste momento, garante Joel Sartore, o projecto de documentação com o carimbo National Geographic vai a meio. Nos últimos dez anos, ele e a sua equipa percorreram os jardins zoológicos dos Estados Unidos da América. Agora, é tempo de explorar  a diversidade animal da Ásia e da Europa. “Como temos de viajar para cada vez mais longe para retratar as espécies que faltam, vão ser precisos 15 anos para completar o Photo Ark”, diz. Fotógrafo profissional há mais de duas décadas, Sartore não tem pudor em afirmar que a razão para a extinção de muitos animais é o “crescimento exponencial” da população humana. Sobra pouco espaço para que os animais selvagens possam continuar a viver nos seus habitats naturais. A qualquer altura, confirma, pode alargar o alcance dos holofotes para “as outras espécies com as quais partilhamos o planeta”.

 

As salas da Galeria da Biodiversidade — Centro Ciência Viva do Museu de História Natural e da Ciência, inaugurada em Junho último, vão agora ser ocupadas por cerca de 40 imagens da autoria de Joel Sartore, num total de 250 metros quadrados de área expositiva que inclui ainda infografias e vídeos de espécies em perigo. Para ver até 29 de Abril de 2018.

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