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Crónica

Da cannabis e outros demónios

Há, como sabemos, uma geração mais conservadora que não acha graça nenhum à ideia de se liberalizar a cannabis. Pudera, têm o altar, e a moral, entre outros placebos. E o padre é gratuito, e a hóstia um purgado paliativo

Texto de Luís Coelho • 17/02/2017 - 12:39

Luís Coelho é fisioterapeuta e escritor

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Por esta altura vem-se falando da possível legalização do uso da cannabis para fins terapêuticos ou mesmo recreativos. Acho mal, muito mal. Isto é não querer reconhecer a importância de a ir buscar, com medo, ao Martim Moniz, aventura já por si terapêutica, insubstituível pela rotina farmacêutica. Na farmácia, gostaria sobretudo de (poder) aviar uma caixa de "liberdade": dizem, todavia, que é preciso receita, de resto, tem estado esgotada por falta de matéria prima. Já nas ruas, a liberdade passa precisamente por poder cometer um acto ilícito (ademais, o "proibido" desespera o presente e consola o porvir). É livre somente quem tem o poder de incumprir a lei. De resto, a droga, como a dependência, não tira a liberdade a seja quem for; porque ninguém é, de facto, livre, para além de que somos todos dependentes de algo (sem o qual não poderíamos ser livres).

 

Eu, por exemplo, sou viciado em mim mesmo. Cheguei a ser internado em clínicas de desintoxicação. Mas "internado" já eu ia, até me escondia no bolso das calças. À porta das clínicas, nunca me revistaram, e jamais me expulsaram, fosse na entrada, fosse na saída. Nunca me dividiram de mim, excepto na ressaca já prevista. Nessas clínicas, deram-me vigilância, mas vigiado já eu andava, por mim, pela alma que reclamava de/por mim, pelo "outro" em mim. As pessoas vêm todas sofrendo pelo excesso de "outro". Uma neurose é sempre uma forma de paranóia. A maior de todas as violências, cometidas pelo "outro", é a que cometemos contra o nosso próprio corpo-mente. Obviamente, quem tem sobejo de "outro", e, por conseguinte, de "eu", será igualmente o "outro" de outro "eu". Em terra de egos quem vê o outro é... superego.

 

E, assim, tenho dado cabo sucessivamente de muitas relações (até das que não me dizem respeito). As namoradas que tenho tido têm todas algo em comum: consumiram, consomem ou vão consumir algum psicofármaco. E é o que lhes vale. E é, aliás, o que lhes aconselho. Com ou sem cannabis a acompanhar. Tive uma "companheira" (é este o termo socialmente correcto, não é? Digam-me, que o respeitinho é bonito!) a quem dei conselho diferente (para a ansiedade de que sofria): visitar um psicanalista (aliás, uma psicanalista, melhor para a identificação homoafectiva - não fosse escassear-lhe a "mãe" como eu tenho em excesso, que, a bem ver, é mais ou menos a mesma coisa -, e para evitar o risco de certa "(contra)transferência", que é, a propósito, muito comum entre os fisioterapeutas, dos quais soçobram histórias de colegas a caírem por cima das pacientes, e vice-versa - não se preocupem que, no entanto, entre os "fisios" não se permitem outras quedas). Entrou meio desconfiada, saiu mais confiante... em me deixar. Eu já esperava uma coisa deste género. Mas tive preguiça de fazer melhor. Talvez até tenha sido propósito meu, subconsciente, claro...

 

Também eu tive um que, na primeira sessão, convidou-me a abandonar a namorada. E ainda existiam as interpretações eloquentes e os "actos falhados", mas quem falhava de vez era o homem, fazia mais terapia ele do que eu. Agora só aconselho as drogas, ao menos se cairmos caímos de vez. Em matéria de "poder", é bom saber com o que lidamos. Com as drogas também há delírio, mas o efeito é mais rápido, previsível e barato (fazendo com que, para variar, o fim compense o meio). Convinha resolvermo-nos antes de morrermos de velhos. Obviamente, se a droga é "dura", a coisa pode correr mal. Conheci quem tivesse uma relação problemática com as drogas. Levou-me a experimentar a cocaína. Fiquei desiludido, não senti qualquer efeito. Havia sentido mais com a efedrina, nos tempos de estudante (e da prática da musculação no ginásio, ponto de encontro de muitas substâncias ilícitas, destinadas ao "aperfeiçoamento pessoal" das máquinas humanas), que se vendia no Celeiro até ter sido ilegalizada (desculpar-me-ão ter tomado esta por motivos de estudo e aquela para compensar o efeito "letárgico" do anti-depressivo que tomo há anos?), ou com as drogas "legais", que me proporcionaram boas leituras. Já a pessoa "experiente" teve uma reacção fortíssima. Descobri, mais tarde, que a reacção era como um reflexo, ainda nem a droga tinha entrado na circulação e a rapariga já estava transformada, brincando com as "portas da percepção". Esta pessoa também consumia erva, psicofármacos, álcool, drogas "legais", heroína e vários "psicólogos". Aquilo era uma confusão "beat", digna de um Burroughs, autor, cujo "Alucinações de um drogado" foi confiscado no colégio onde "adolesci". Estas proibições têm um sabor único, e dão outro sentido aos "paraísos artificiais". Curiosamente, foram as antigas drogas "legais" que mandaram a amiga para o hospital uma ou duas vezes. Outro amigo limitou-se a desenvolver uma breve psicose com o consumo de erva, mas cheira-me que a psicose já lá estava grandemente antes das drogas. Conheci muitos outros consumidores de charros, poucos ficaram dependentes (no sentido "comum" do termo); quanto a mim, não fiquei de todo fã de uma droga que me pôs a pensar mais do que aquilo que já costumo pensar.

 

Há, como sabemos, uma geração mais conservadora que não acha graça nenhum à ideia de se liberalizar a cannabis. Pudera, têm o altar, e a moral, entre outros placebos. E o padre é gratuito, e a hóstia um purgado paliativo. São proibitivos e não aceitam que a proibição, a frustração, nutre o próprio consumo, psicanalítica e socialmente falando. Neles, a proibição é compensada com Deus, nos seus filhos com o Diabo. Consumindo andamos todos, mas há coisas que não passam no teste da assepsia do pensamento, e existem, claro, as representações sociais, que vão autorizando ou desautorizando certas facécias, reificando a actuação da polícia do "pensar". Também a havia nas clínicas. Por mim, a julgar pelo que usualmente se considera ser "normal", prefiro manter meu rótulo de alienado, louco e dependente. Com ou sem cannabis, é indiferente.

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