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Crónica

É uma família portuguesa, com certeza

Os cidadãos LGBT têm algo contra a família, dita tradicional, representada na publicidade do meu banco? O mais provável é que não. Mas o modelo exemplar de família não nos serve porque, ora aí está, é um modelo.

Texto de Claudio Castro Filho • 21/05/2016 - 12:08

Claudio Castro Filho
Claudio Castro Filho é investigador integrado no Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra

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Acostumamo-nos rápido a não ligar muito aos modelos sociais veiculados nos meios publicitários, cansados que estamos de constatar que não cabemos nas calças XS, de que a margarina não faz o pequeno-almoço mais feliz e de que pouco importa que o roaming nos saia grátis em Paris (não vamos a Paris para falar ao telemóvel). Talvez por tudo isto o e-mail que os clientes do meu banco receberam na manhã do último 18 de maio pudesse passar despercebido: “Maio é o mês da família” e aqui temos “uma oferta de produtos e serviços concebidos a pensar nas famílias portuguesas”. Ilustrava a mensagem uma pouco surpreendente fotografia de um casal heterossexual, branco e jovem a ostentar nos braços um encantador e loiro bebé, os três igual vestidos, com tons padronizados de t-shirts brancas e camisas de ganga. Talvez o e-mail do banco passasse despercebido se no dia anterior a questão dos modelos de família não tivesse ocupado uma parte considerável dos meios de comunicação e redes sociais.

 

Antes do e-mail do banco, já circulava nas redes o cartaz do braço português da ILGA a perguntar-nos “como é a tua família?” e a apontar uma vasta pluralidade de respostas possíveis. 17 de maio é o dia internacional contra a homofobia e algumas câmaras municipais da Península (como a de Lisboa ou, do outro lado do Guadiana, a de Granada) foram notícia por alçarem, pela primeira vez, a bandeira do Arco-Íris, num claro aceno dos poderes locais à necessidade de dar visibilidade a coletivos que, apesar das avançadas legislações de Portugal e Espanha em matéria civil, continuam vulneráveis à exclusão social. Ora bem, no caso granadino, a bandeira de imediato suscitou a polémica, já que a oposição conservadora reivindicou que se celebrassem, na mesma medida, as insígnias de maio como mês da família: a bandeira a alçar devia ter sido a da comissão da ONU para as famílias.

 

A contraposição faz sentido? Os cidadãos LGBT têm algo contra a família, dita tradicional, representada na publicidade do meu banco ou na bandeira da comissão pró-familiar da ONU? O mais provável é que não. Estarão contra, sim, o facto de que a família da foto do banco seja apresentada como modelo “a pensar nas famílias portuguesas” ou que a bandeira da ONU seja, no caso espanhol, erroneamente instrumentalizada como contrarresposta à causa LGBT. O modelo exemplar de família não nos serve porque, ora aí está, é um modelo.

 

Portugal e Espanha ocupam neste momento os últimos postos da União Europeia em taxas de natalidade e crescimento demográfico. Coincidência ou não, são países abaixo da média europeia no que se refere à proteção social da maternidade (daí que as mulheres ibéricas adiem a questão materna até ao limite do relógio biológico) e onde os índices de desemprego e precariedade laboral entre os jovens (a famosa geração à rasca) alcançam cifras alarmantes se comparados com os números gerais (os que incluem todas as faixas etárias) dos mesmos indicadores. A esse ritmo, os institutos nacionais de estatística dos dois maiores países da Península dão-nos poucas décadas para corrigir o rumo, sob pena de uma não reposição populacional que acarretará a quebra da segurança social. Já não nos reformaremos. Ou seja, os modelos exemplares de família não servem aos LGBT como não servem aos que, potencial e teoricamente, se enquadrariam no público-alvo da mensagem publicitária do banco. Com a ilusão de que o modelo é hegemónico, ou pelo menos verosímil, sofremos todos, os que nos modelos não se encaixam pela cor da pele ou orientação sexual e os que, com a Península à rasca, universalizaram (heterossexuais incluídos) a resposta que Harvey Milk deu a Anita Bryant quando esta salientava a pecaminosidade daquele com o argumento de que os gays não procriam: “é verdade que não, mas olha que tentamos”. 

 

Texto escrito segundo o novo Acordo Ortográfico

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