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Podcasts: quem diria que um dia seriam um sucesso em Portugal?

Já não dependem das rádios e têm uma liberdade própria, característica que agrada a quem os faz e ouve. “Brandos Costumes”, “Até tenho amigos que são”, “Made of Things” e “Obrigado, Internet” são novos podcasts à procura do público português

Texto de Ana Maria Henriques • 31/08/2015 - 16:44

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As gargalhadas de Lena d’Água enchem-nos os auscultadores. Não dá para evitar o sorriso com as histórias da cantora portuguesa, convidada do sexto episódio de “Brandos Costumes”. Antes de “Robot” (1981), tocou e cantou em festas de finalistas e passagens de ano, tempo que recorda em entrevista a Pedro Paulos, criador do podcast sobre “música portuguesa menos conhecida”. Ainda a conversa de quase uma hora vai no início e já a ouvimos gritar “Invasão de palco!”, ao lembrar a passagem de ano de 1977-1978, no Bombarral. Para Lena d’Água, o concerto terminou com uma saída em lágrimas do palco, ao som de “Mamãe eu quero” — para acalmar os ânimos de uma assistência desconfiada. Mais uma risada contagiante.

 

O podcast de Pedro Paulos (ou PP, 28 anos) nasceu de “mixtapes” de música portuguesa que o jovem da zona de Lisboa criou e partilhou com os amigos, na Internet. Temas com 20, 30 ou 40 anos que PP gosta — mas que muitas pessoas nunca conheceram ou esqueceram com o passar do tempo — e que poderiam ter sido “hits”. O efeito “Há tanto tempo que eu não ouvia isto” parece ter atingido o “Brandos Costumes”: assim que foi lançado, a 15 de Abril, entrou imediatamente para o top do iTunes. Na primeira semana, PP estava no programa da RTP “5 Para a Meia-Noite”, a ser entrevistado por Nuno Markl.

 

Como este, outros podcasts portugueses lançados em 2015 foram conquistando um público que os seus autores nem sabiam que existia. O formato não é novo, mas em Portugal só recentemente ganhou visibilidade fora do âmbito da rádio. O podcast parece ser o modelo favorito de quem quer ter a liberdade para falar com quem e do que gosta. É isto que Rodrigo Nogueira faz em “Até tenho amigos que são”. Com 28 anos, olha para a lista de pessoas que conhece (ou com quem já se cruzou) e procura alguém disponível para entrevistar nessa semana. Depois de gravar a primeira conversa, com Sam the Kid, o jornalista de Lisboa achava realmente que só duas ou três pessoas (além dos dois intervenientes) iam achar interessante. Enganou-se e já lá vão 22 episódios, isto é, 22 “conversas e não entrevistas” com músicos, fotógrafos, actores, pessoas criativas.

 

Tal como Rodrigo, António Maria Correia faz entrevistas, profissionalmente, há vários anos. Os dois jornalistas partilham um problema: o limite de espaço que os meios para onde trabalham impõem. Poderem gravar conversas que, depois, são partilhadas sem edição é uma espécie de luxo. António, autor do “Made of Things”, encara este formato como uma ferramenta de trabalho, aliada “a um desejo um bocadinho egocêntrico de ter um podcast”. “Em última instância também me permite dizer umas parvoíces e dar algum ‘output’ criativo, no caso de uma comédia um bocado lírica que são as minhas introduções”, diz.

 

Os convidados do “Made of Things” são, quase sempre, músicos e bandas estrangeiros (Bonnie Prince Billy, Jonah Falco, Jim Black) e as entrevistas são feitas em inglês — pormenor que não o impediu de chegar, por várias vezes, a número quatro no top do iTunes Portugal. António, de 34 anos, define o podcast que criou há alguns meses como “um catalisador para conhecer coisas giras” e tem como desejo “entrevistar comediantes”. Isto porque os podcasts de comédia são, no geral, os seus favoritos: “Comedy Bang Bang”, “Spontaneanation”, “Superego”, “WTF”. Consome programas neste formato diariamente, enquanto faz outras coisas ou com a atenção 100% dedicada. Partilha o gosto por podcasts estrangeiros com Rodrigo, que à lista “sem fim” acrescenta “Bullseye”, “Nerdist”, “The Best Show”. “Gosto de me divertir a falar com as pessoas, de fazer perguntas estúpidas e de pô-las a pensar”, diz ao telefone António, enquanto passeia por Cascais, onde trabalha. “Gostava que o ‘Made of Things’ conseguisse tornar-se um bocadinho mais uma plataforma para eu apresentar coisas mais engraçadas, que as introduções se expandissem”. Mas isso, acredita, “tem espaço para crescer”.

 

O autor do “Brandos Costumes” acredita que os próprios podcasts têm espaço para crescer em Portugal. “Provavelmente, as agências [de publicidade] vão começar a reparar”, pensa. E isso permitirá uma profissionalização do formato, à semelhança do que acontece noutros países: investimento por parte de marcas pode significar mais condições no momento da gravação, melhor som final, uma produção com mais valor. Por cá, o melhor exemplo é “Maluco Beleza”, podcast do humorista Rui Unas que ocupa, destacado, o primeiro lugar no top nacional do iTunes, e é gravado no Lisboa Comedy Club. “Uma Nêspera no Cu”, de Nuno Markl, Bruno Nogueira e Filipe Melo, é outro caso de sucesso, visto pelos próprios como um exercício de liberdade.

 

João Paulo Meneses, ex-editor da TSF, é o autor do programa “Radio.com” onde, entre 2005 e 2006, divulgava podcasts “que não pertenciam a rádios”. De lá para cá foi perdendo o contacto com o mercado, mas continua a não compreender como é que a publicidade ainda não se voltou para este produto — sobretudo no que aos podcasts de rádios diz respeito. “Estamos a falar de conteúdos com uma penetração enorme. Quem ouve o podcast vai ouvir o spot, nomeadamente se tiver 10 ou 15 segundos e for antes do programa. Seria uma penetração de quase 100%, valor que a publicidade genericamente não tem”, acredita. A “montante de tudo” está, para o jornalista, “o espírito de quem faz”. “Tentar não custa. Mas para ser mais do que uma tentativa é preciso algumas características do produtor: perseverança e capacidade de sofrimento e, depois, o empurrão que as marcas poderiam dar e que, infelizmente, até hoje não se percebe por que é que não dão.”

 

Liberdade de escolha, a bandeira da Internet

Fernando Alvim voltou-se, há poucas semanas, para os programas feitos especificamente para este formato online. “Obrigado, Internet” é o nome do podcast que criou, juntamente com o mesmo Pedro Paulos e Nuno Dias — e que está em segunda posição na mesma lista. “Percebi que os podcasts são uma tendência. Nunca como agora existiram tantos que não estejam ligados à rádio, independentes. É a evolução natural das coisas”, crê. “Há muitas pessoas que não se identificam com uma rádio, não a ouvem, mas ouvem um programa específico da mesma em podcast”, sublinha o radialista.

 

Governo Sombra” (TSF) — ciclicamente no top nacional —, “Prova Oral” (Antena 3), “O homem que mordeu o cão” (Comercial), “Álbum de família” (Radar) são apenas alguns exemplos de programas de rádio disponibilizados neste formato. Não se esgotam na emissão convencional. A liberdade e o não ter de prestar contas sobre o conteúdo de um podcast é o que mais atrai Fernando Alvim que, com os dois co-apresentadores, escolheu falar sobre a Internet. “Destacamos o que aconteceu na semana, o que foi mais comentado, as polémicas. (…) Tudo o que acontece hoje passa pela Internet, é incontornável.” A conta de Instagram de António Costa, o gerador de cartazes online, o mundo sem Facebook: tudo assuntos de que se fala no “Obrigado, Internet”.

 

Em 2006, Luís Bonixe conduziu o primeiro inquérito a “podcasters” portugueses, concluindo que o fenómeno, no país, “era uma coisa muito incipiente”: existia "menos oferta e de menor qualidade”. “Hoje é tudo diferente, há mais amadores, praticamente todas as rádios têm podcasts e muitas emissoras locais também”, diz. Há nove anos, 73% dos autores de programas eram homens e 76,19% tinham menos de 30 anos. O “gosto pelas novas tecnologias” era o motivo predominante (76,47%) para a criação de um podcast. O professor de Jornalismo da Escola Superior de Educação de Portalegre não voltou a estudar aprofundadamente o formato, ainda que mantenha o interesse pelo tema.

 

Além da liberdade e da autonomia inerentes a um produto como este, Bonixe acrescenta a oferta alternativa de conteúdos como fundamental. No campo da música, continua, “há muita oferta”, evocando “um espaço alternativo que o podcast representa. “As pessoas sentem necessidade de divulgarem o que não entra nas ‘playlists’ convencionais da rádio.” Já no que concerne a informação, o docente aponta uma ausência de programas que partam do cidadão, do “amador que quer criar um espaço online”, à semelhança do que aconteceu com os blogues.

 

A recente vaga de popularidade dos podcasts em Portugal enquadra-se, para António, numa lista de “fenómenos esquisitos”. “Acho que é um bocadinho tácito entre nós todos o que aconteceu. São coisas de ‘zeitgeist’, no fundo”, pensa. “O que é que na minha vida me impede de ter um podcast?”, questionou-se ainda em 2014. Nada, na verdade, daí ter tomado a decisão de o fazer. Qualquer pessoa pode gravar um: de poucos minutos a várias horas, não há limites. “Como é uma coisa tão ‘faz tu mesmo’, felizmente vão acabar por aparecer pessoas com talento a subirem ao top”, acredita PP. Rodrigo é avesso à interpretação de fenómenos, mas aponta o sucesso de “Serial” — que conta a história verídica de um crime, capítulo a capítulo — como importante para o “boom”. “Isso e quase toda a gente ter um ‘smartphone’: a aplicação de podcasts do iOS é nativa, há várias para Android.” É cada vez mais fácil “sacar e consumir” estes programas.

 

“Teremos de esperar para perceber se é uma moda ou se realmente veio para ficar. Quando isto começou também havia muitos podcasters portugueses, é uma coisa muito flutuante”, reflecte João Paulo Meneses. “Os mais fortes vão acabar por ficar e os outros vão morrer”, acredita. “É uma espécie de darwinismo social.” 

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