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Em West London, a riqueza e a pobreza coabitam sem se tocarem John Gallo

Músicos de rua sobrevivem de dia para dia, sem possibilidade de evolução John Gallo

West London é a zona mais cara da cidade de Londres, a zona onde as marcas de luxo se instalam John Gallo

Ana Marques Maia

Entrevista

John Gallo fotografou o outro lado da pobreza: o luxo

John Gallo desenvolveu o projecto "West London Tales" para revelar e evidenciar a coexistência do luxo e miséria extremos numa das áreas comerciais mais caras do mundo

Texto de Ana Marques Maia • 11/04/2017 - 16:57

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O fotógrafo português John Gallo realizou, em 2015, o projecto "West London Tales" para revelar uma realidade particular: a da convivência entre pessoas extremamente pobres e extremamente ricas no maior distrito de negócios no Reino Unido, denominado West London. A série fotográfica estará em exposição no Fujifilm Festival Internacional de Fotografia de Viseu ao abrigo do tema "Piles of Trash", que remete para um estudo realizado pela Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, que conclui que pessoas de classe alta tendem a reagir quimicamente a imagens de pessoas manifestamente pobres como "se se tratassem de pilhas de lixo".

 

A vida em West London

"A pobreza nos países ricos é um tema pouco trabalhado pela imprensa mundial", disse John Gallo ao P3. Por esse motivo sentiu necessidade de o abordar e de o desenvolver fotograficamente no Reino Unido, numa zona onde estão implantadas lojas de marcas de luxo cujos artigos e serviços são inacessíveis à esmagadora maioria da população.

 

A desigualdade, que diz chocá-lo continuamente, está mais patente nesta zona da cidade. "West London foi, até 2015, a zona mais cara do planeta — a área onde alugar ou comprar uma casa ou uma loja tinha o preço mais elevado por metro quadrado de todo o mundo. West London é o local onde estão condensadas as lojas das marcas mais caras do mundo, onde é proibido fotografar uma montra de uma loja por questões de segurança. Aqui cruzas-te com Bentleys, Rolls-Royce, pessoas muito ricas e celebridades multimilionárias que lá se dirigem para consumir; cruzas-te também com performers de rua que aguardam no exterior por uma esmola."

 

A mendicidade é considerada uma infracção legal, em Londres, "motivo por que o espectáculo de rua é tido como uma alternativa de subsistência". Esta obrigatoriedade, na opinião de Gallo, serve como uma "máscara da pobreza". "Na perspectiva de um londrino, estas pessoas estão a prestar um serviço à comunidade e passam, por isso, automaticamente a serem percepcionadas como trabalhadores e não como mendigos", explica. "A condição financeira e social é, em tudo, semelhante à de um mendigo, mas não lhe é permitido esse rótulo." Trafalgar Square é a zona mais crítica e também uma das mais visitadas por turistas. Nessa praça, John contactou com muitos dos artistas de rua e garante que "todos vivem de esmolas na zona mais cara do mundo". "É, no mínimo, paradoxal", comenta.

 

Piles of Trash é "um grito de Ipiranga"

O estudo realizado em 2014 pela Universidade de Princeton estabeleceu uma ligação entre a neurociência e a cultura dentro do espectro da desigualdade económica e social. Com recurso a equipamento de imagem por ressonância magnética, foi gravada a resposta do cérebro de estudantes a imagens de pessoas sem-abrigo e toxicodependentes. O estudo concluiu que os estudantes de background económico mais favorável demonstravam menor empatia face às imagens. O The Guardian citou o estudo, referindo que [os estudantes] reagiram "como se tivessem tropeçado em pilhas de lixo".

 

Foi como reacção à conclusão desse estudo que John Gallo decidiu criar uma secção destinada ao tema das assimetrias sociais e económicas dentro do Fujifilm FIF Viseu, que co-organiza com a agência Chappa e a Fujifilm. A convite do festival, três fotógrafos foram convidados a explorar o tema em diferentes cidades europeias: o espanhol Adrián Dominguez (cujo trabalho já conheceu publicação no P3) irá explorar o tema em Madrid, Daniel Seiffert (Alemanha) fá-lo-á em Berlim, Gunta Podina em Estocolmo. Existirá também um retrato portuense, desenvolvido por Gallo, que se encontra ainda em preparação.

 

"Existe uma série de problemas sociais que nós não estamos a conseguir resolver no mundo ocidental", constatou o fotógrafo. "Dentro da União Europeia, por exemplo, não foi feito o suficiente para esbater as diferenças entre ricos e pobres. Aquilo que observamos diariamente é o aumento da pobreza e da precariedade para uma maioria da população e, paralelamente, o enriquecimento exacerbado de uma minoria." Não impele John Gallo uma ideologia política. "A pobreza não é de esquerda nem de direita: é pobreza, pura e simples, e é necessário adereçá-la como tal, sem um filtro ideológico."

 

O Fujifilm FIF Viseu irá arrancar a 5 de Maio. 

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