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Playlist do "line up" do Optimus Primavera Sound
Texto de P3 / Optimus Primavera Sound • 16/05/2012 - 22:24
Atlas Sound é o projecto pessoal de Bradford Cox (Deerhunter) que o coloca, mais uma vez, entre o rock espacial e a pop caseira, entre a distorção, os pianos esquivos e as melodias aquosas. E se "Halcyon Digest", o último trabalho de Deerhunter, exibia a faceta mais acessível dos Atlanta, "Parallax", a mais recente gravação de Cox enquanto Atlas Sound, continua o mesmo caminho e abraça uma sensibilidade (porém, nada simples) de onde beneficiam canções como "Mona Lisa" e "Terra Incógnita", nas quais o norte americano se coloca num qualquer ponto intermédio entre Thurston Moore e Cass McCombs.
Borja Laudó tornou-se conhecido com "That Sentimental Sandwich", disco que não só tornava público o seu novo projeto, Bigott, como também deixava a descoberto um talento fora do comum, capaz de ficar lado a lado com Will Oldham e Bill Callahan, para brincar com o rock, a psicodelia e o folk. Seis anos e quatro discos depois, o talento de Laudó não fez mais que crescer, modificar-se e expandir-se até chegar a "The Original Soundtrack", disco onde o artista continua a tomar as rédeas do humor para ampliar uma paleta estilística, onde abraça o folk radiante ao mesmo tempo que se passeia pelo tecno-pop ou pelas baladas de tom clássico. Confirma-se: um talento fora do comum.
A "maior banda de rock do mundo" é do Porto, formada por músicos do Porto e chama-se StopEstra!. O projecto surge em 2010, fruto de uma parceria entre o Serviço Educativo da Casa da Música e o Movimento de Músicos do STOP, reunindo cerca de 100 músicos, amadores e profissionais. Em palco, a diferença das estéticas individuais converge numa única linguagem original nascida destas múltiplas influências. Um espectáculo intenso do Porto, no Porto.
Quase uma década depois de baixar a persiana e deixar órfão o brit-pop dos anos noventa, Suede renascem das cinzas para demonstrar que, além de ser uma das mais eficazes e demolidoras fábricas de hits da música britânica, os londrinos também traçaram todo um caminho de originais dentro da música britânica colonizada naquela altura por Oasis e Blur. Enfrentando as disputas entre estes dois últimos, a banda de Brett Anderson propôs uma via alternativa ligada a The Smiths, David Bowie e o glam dos anos setenta, proposta que obteve um grande impacto com os seus dois primeiros trabalhos, os sensacionais "Suede" e "Dog Man Star". A saída do guitarrista Bernard Buttler não os impediu de continuar a abanar as tabelas de vendas com trabalhos como "Coming Up" e "Head Music", popularidade que foi reactivada pela reedição de todos os seus trabalhos e pelo regresso aos palcos.
O impacto de uma canção como "Let's Go Surfing", hit interplanetário com que os nova-iorquinos The Drums se deram a conhecer, poderia ter acabado por se converter num autêntica maldição. No entanto, a banda de Brooklyn soube reagir a tempo e, na hora de esboçar o seu segundo trabalho, optaram por dar um passo em frente em vez de repetir a fórmula. E, embora não renunciando totalmente à pop ensolarada, um ano depois do álbum de estreia, reforçaram alguns laços com The Smiths e incorporaram nas suas músicas umas pinceladas electrónicas, acabando por soar mais obscuros e melancólicos, mas nem por isso menos agradáveis. Se a actuação no Primavera Sound em 2010 resultou numa autêntica descoberta, o regresso a este festival será nada menos que uma confirmação de todas as regras.
Deram-se a conhecer no início da década passada com o seu arrebatador e irresistível cocktail de rock, funk e electrónica, mas muito já aconteceu desde de que os nova-iorquinos agitavam as pistas de dança com o seu imponente "House Of Jealous Lovers" e "Out Of The Races And Onto The Tracks". Desta forma, à saída de Mattie Safer e à viragem sintética de trabalhos como "Pieces Of The People We Love", há que somar agora o renascimento do soul, pop e, claro, funk, que encontramos em "In The Grace Of Your Love", grandioso trabalho no qual agitam os anos setenta e oitenta em temas de impacto imediato como "Miss You" ou o sensacional "How Deep Is Your Love?".
O incansável e inquieto Yann Tiersen editou, em Outubro de 2011, o seu novo álbum "Skyline" (Mute / Pias, 2011), exactamente um ano depois do seu antecessor "Dust Lane", que incorporava ao seu som característico uma dose generosa de contundência eléctrica e electrónica vintage. Convertido num dos grandes nomes do panorama europeu da música, o compositor e multi-instrumentista britânico tem preparada para 2012 uma nova tour, que promete ser ainda mais intensa e deslumbrante. "Skyline" é o seu sétimo álbum de estúdio, no qual Tiersen dá um passo em frente, aperfeiçoando o som do seu irmão obscuro "Dust Lane" (Mute, 2010), aclamado pela crítica e apresentado numa extensa tour internacional. Gravado entre Paris, San Francisco e Ouessant, e misturado por Ken Thomas (Sigur Rós, M83, David Bowie, Psychic TV,…), "Skyline" mostra-nos Tiersen e a sua banda a controlar o mundo que actualmente habita, um mundo de sintetizadores vintage e guitarras eléctricas, que se move ao ritmo da sua mestria como compositor e músico. Descoberto pelo grande público pela sua célebre banda sonora do filme Amélie (2001), Yann Tiersen não deixou nunca de recrear o seu próprio universo artístico e a sua música intemporal fascina desde sempre uma legião de fãs.
Chegaram de Baltimore com o feitiço da pop sob os braços e ao fim de apenas quatro minutos e meio, o tempo que durava o primeiro single de "Teen Dream", já se convertiam nos favoritos dos amantes de canções sonhadoras, comoventes e infinitamente cálidas. Na realidade já se haviam dado a conhecer anos antes com dois trabalhos, "Beach House" e "Devotion", com idêntico silêncio emocional e intensos diálogos entre o folk e a pop de fantasia de Cocteau Twins, mas foi com "Teen Dream" que acabaram por se converter num dos favoritos de 2010. Dois anos depois de "Teen Dream", Victoria Legran e Alex Scally voltam à carga com um novo trabalho que será editado ainda em 2012.
Consagrados como dilapidados e ruidosos embaixadores do garage mais excluído, os Black Lips passaram boa parte dos últimos anos a tentar polir a gloriosa bagunça sonora dos seus três primeiros álbuns e criando canções capazes de controlar uma mescla selvagem de rock and rol, punk, psicodelia e garage palpitante. A primeira prova foi "Good Bad Not Evil", o álbum que colocou Cole Alexander e os seus na cabeça desse revivalismo com substância e contagiante poder. "200 Million Thousand" aprofundou o mesmo caminho mantendo o equilíbrio entre um pulsar vibrante e um som resistente, enquanto que "Arabian Mountain", o último trabalho, produzido por Mark Ronson, demonstra o esforço dos norte-americanos em aproximar-se um pouco mais da pop, sem porém renunciar à sua imprudência. Suspeitos do costume no San Miguel Primavera Sound, dão sempre que falar com as suas atuações repletas de força e energia, e seguramente que a sua passagem pelo OPS não será diferente.
Aaron Pfenning e Caroline Polachek começaram a dar forma a Chairlift na Universidade do Colorado, mas foi quando se mudaram para Williamsburg e Patrick Wimberley se juntou à banda que realmente estabeleceram as bases deste projecto electrónico e de synth-pop no mesmo espírito dos MGMT e La Roux. Depois de lançarem o primeiro álbum "Does You inspire You", impulsionado pelo tema "Bruises" que se converteu na banda sonora de um anúncio popular, Polachek e Wimberley levaram a banda, agora como um duo, para os paraísos sintéticos de "Something" .
Em câmara lenta, com a pauta em estado avançado entre paisagens tristes, guitarras calcinadas e ritmos picados, Stephen Immerwahr, John Engle e Chris Brokaw despediram-se dos anos oitenta rebaixando um pouco mais as revoluções do rock e dando-lhe uma nova reviravolta às visões narcóticas de Galaxie 500. Foi, de certa forma, o nascimento do slowcore e a irrupção de uma nova forma de gerir a tensão que se filtrou, gota a gota, em trabalhos como "Frigid Stars" e "The White Birch". A chama extinguiu-se rapidamente, pouco depois de Brokaw abandonar o grupo para se dedicar por completo a Come, mas a sua marca está bem presente, deixando a barra da emoção contida bem alta. Desaparecidos desde meados dos anos noventa, a banda foi recrutada por Mogwai para o festival "I'll Be Your Mirror", antes da sua reencarnação no festival.
Com a liberdade absoluta como fio condutor, Mau Boada salta dos Les Aus para Esperit! para apresentar um festim de folk alucinogénico e viajar por todos os lugares sem sair do estúdio de gravação. A galope entre a música dispersa e improvisada, as influências recolhidas das suas paragens exóticas e os hinos folk nascidos de orientações alucinogénicas, o catalão apresenta em "Endevant Continu", uma das credenciais mais difíceis de classificar.
André Henriques, Pedro Gerlades, Hélio Morais e Cláudia Guerreiro formaram os Linda Martini depois de tocarem noutras bandas punk e rock, e conseguiram em apenas três anos tornarem-se nos principais pilares da cena musical portuguesa. Depois de uma forte mistura de influências que vai de Yo La Tengo, Sonic Youth, Blood Brothers e Mogwai, Nirvana a Nick Cave, esta banda de Lisboa acabou por trazer uma revolução silenciosa a Portugal, tornando-se favorita dos críticos e transbordando com preocupação a aventura de tocar indie rock progressivo e math rock em álbuns como "Olhos de Mongol" ou a sua estreia "Linda Martini".
Depois de mais de uma década a experimentar o pop épico, ambiente e expansivo, o francês Anthony Gonzalez alcançou finalmente o que ele considera ser o seu ideal de beleza. "Hurry Up, We're Dreaming", álbum duplo que testemunha a mágica e sonhadora "Saturdays=Youth", reforçando essa faceta onírica e espacial, e com temas como "Midnight City" como pico de euforia pop sintetizada e épica que dá asas a um registro em que se pode ouvir a voz de Peter Gabriel, shoegaze e pop sinfónico. Um firme compromisso com a emoção electrónica que não deixa de crescer em palco.
Com apenas vinte anos, o Texano Alan Palomo entrou em grande nessa nova electrónica psicadélica e colorida que alguns vão baptizando de chillwave, com o álbum "Psychic Chasms", que deixou boquiabertos os mais curiosos pelas novas aventuras sonoras. Dois anos depois, Palomo e companhia voltam à carga com "Era Extraña", nova incursão na electrónica de fantasia e magia sintetizada que, além de trazer maravilhas como "Polish Girl", serve-se do synth-pop para procurar novas ligações com o rock, o glam e o italodisco.
A jovem editora discográfica Numbers, uma das bússolas mais fiáveis e indispensáveis para se orientar na nova electrónica, desembarca no Optimus Primavera Sound disposta a continuar com o trabalho que fez de colonizar as listas britânicas com algumas das mais explosivas revelações da electrónica urbana. Desta forma, a editora escocesa apresenta-se em sociedade pela mão de alguns dos seus melhores resultados em formato DJ: Jackmaster, co-fundador da Numbers e provavelmente o melhor DJ do momento; Deadboy e a sua irresistível mistura de R&B, techno, dubstep e grime; Oneman e o seu retorno ao dub; e Spencer e a sua dupla condição de fundador da editora e talento precoce. Para finalizar esta lista, nada melhor que uma live session de Redinho, malabarista de talkbox e encarregado de injectar uma boa dose de humanidade no electrofunk.
O novo pop poderá ser retorcido e, Other Lives, com o gosto pelo folk e o pop entre orquestrações e instrumentais barrocos, cumprem, à risca, a máxima desta nova década. Porque como Grizzly Bear, os nativos de Oklahoma procuram caminhos alternativos para chegar a canções em que o feitiço de Fleet Foxes se encontra com o folk de câmara e as alucinações psicadélicas de Mercury Rev. Foi assim no seu álbum homónimo de estreia, publicado em 2009, e é assim agora que "Tamer Animals" nos fez ver que a tradição não é incompatível com o vanguardismo.
Melodiosa sem notas, rítmica sem batida, familiar mas estranha, meticulosa mas livre, Rafael Toral chama-lhe "música electrónica pós-free jazz", já descrita como "um tipo de música electrónica muito mais visceral e emotiva que a dos seus pares cerebrais". Com raízes no jazz mas um som extraterrestre, cheia de paradoxos mas também de espaço e clareza, é uma música arriscada, sem precedentes conhecidos e ainda hoje sem paralelo. Depois de já ter sido considerado pelo Chicago Reader um dos guitarristas "mais dotados e inovadores da década", de ter trabalhado com nomes como John Zorn, Thurston Moore, Christian Fennesz ou Jim O'Rourke e de ter percorrido meio mundo, Toral apresenta o Space Collective 3, formação que inclui Afonso Simões (bateria) e Riccardo Dillon Wanke (piano eléctrico), dois elementos assíduos no seu Space Program.
O Rufus Wainwright que conhecíamos, esse artista do romanticismo exagerado do pop barroco e dos sumptuosos arranjos, fez um "fade to black" com "All Days Are Nights: Songs For Lulu", solene e triste trabalho que publicou depois da morte da sua mãe. No entanto, o período de luto parece ter chegado ao fim, e Rufus volta assim a ser o autor de "Poses", disposto a coronar-se outra vez como "prima donna" do pop contemporâneo. Para o conseguir, Wainwright aliou-se nada mais nada menos que a Mark Ronson, junto do qual gravou "Out Of The Game", onde recupera a essência de trabalhos maiúsculos como "Want Two" ou "Release The Stars", aproximando-se um pouco mais do pop contemporâneo. Um novo passo na direcção desse artista de ambição inesgotável.
Por esta altura, o Primavera Sound não seria o mesmo sem Shellac, algo como um pulmão de ferro do festival. Steve Albini e companhia, incansáveis artesãos do rock mais seco, directo e contundente, converteram-se num dos nomes mais habituais e também esperados do festival. Uma das razões, a principal, é que os nativos de Chicago continuam a ser uma das bandas mais poderosas e demolidoras que se pode ver em palco, exprimindo ao máximo a equação guitarra-baixo-bateria e reduzindo o rock ao básico: nervos, fúria e tensão hardcore. Pouco importa que não passem pelo estúdio desde 2007: o palco encarrega-se de falar mais alto e mais claro que qualquer álbum que possam fazer.
Ainda que tenham começado a tocar juntos nos inícios dos anos noventa, Dave Miles e Aaran Mullen não activaram de forma mais ou menos oficial o seu projecto Tall Firs até que se reencontraram em Nova Iorque, no inicio da década passada, e começaram a misturar o que aprenderam de Sonic Youth (Muller trabalhou como técnico de guitarras dos nova-iorquinos) com um misto de folk urbano e underground. Depois de tocar com os Shellac e Celebration e publicar um par de trabalhos através da Ecstatic Peace, a editora de Thurston Moore, a banda acaba de publicar "Out Of It And Into It", o seu primeiro disco para a ATP e uma nova espécie de folk brumoso, simples e com sabor das grandes cidades.
O pop ou é solarengo ou não, dizem Patrick Riley e Alaina Moore, um casamento de Colorado que aproveitou um cruzeiro de oito meses pelo Atlântico para dar forma a umas canções de corte clássico e execução low-fi que lembra o melhor de The Beach Boys e faz boas misturas com bandas contemporâneas como Best Coast. Dessa experiência nasceu "Cape Dory", um impecável trabalho de um pop intemporal e encantador, ao qual dão agora continuidade com "Young & Old", trabalho para o qual recrutaram o baterista James Barone e com o qual mantêm intacto o espírito mágico de composições que parecem flutuar entre os anos cinquenta e sessenta.
Hiperactivos como há poucos, os americanos Thee Oh Sees galopam já há cinco anos pelos caminhos mais energéticos e luminosos do garage-pop, dando forma às vívidas alucinações sonoras de John Dwyer. A banda, que se converteu numa das maiores surpresas do San Miguel Primavera Sound 2010, apresenta-se desta feita no Porto para dar seguimento a esse novo garage americano, que partilha o protagonismo com os Sic Alps, Sonny & The Sunsets e Ty Segall, entre outros, e para dar um novo impulso a "Castlemania", impecável trabalho de pop ruidoso e veloz cujo eco envolve também "Carrion Crawler / The Dreamer", EP em que soam mais afinados e perigosos, se isso é possível.
Quase três décadas depois do seu nascimento continua a não existir outra banda igual aos The Flaming Lips. Todos aqueles que os viram converter-se numa das bandas mais queridas do Primavera Sound, com actuações em que tudo é multicolor, confetis e manualidades alucinogénicas, sabem-no. E, não contentes com ter redefinido o pop independente dos anos oitenta e noventa com álbums como "In A Priest Driven Ambulance" ou "The Soft Bulletin", a banda de Wayne Coyne soma já alguns anos imaginando o pop do futuro, convertendo-o em deslumbrantes álbuns como "Yoshimi Battles The Pink Robots" ou atrevendo-se, inclusivamente, a desfigurar um clássico como "Dark Side Of The Moon" dos Pink Floyd. Sem notícias de trabalho de estúdio desde que publicaram "Embryonic", os nativos de Oklahoma preparam o seu regresso com "The Flaming Lips and Heady Fwends", trabalho em que colaboram com Chris Martin, Bon Iver e Yoko Ono, entre outros.
À espera que "Heaven" veja a luz do dia, o seu esperado novo trabalho, naquele em que a própria banda assegura que se trata de uma declaração "maior e mais generosa", os The Walkmen continuam cotados em alta no rock contemporâneo, manejando tudo com subtileza, expandindo o som com grandeza e inflamando os seus temas entre a obscuridade do rock dos anos oitenta e o vigor do indie dos noventa. Na verdade, o seu regresso não podia chegar em melhor momento, com dois trabalhos como "You & Me" e "Lisbon", demonstrando que os nova-iorquinos estão em alta, tanto que esperam perpetuar este sucesso com "Heaven", álbum produzido por Phil Ek e com colaborações de Robin Pecknold (Fleet Foxes).
Passaram apenas quatro anos desde que os The War On Drugs apresentaram "Wagonwheel Blues", tempo que, no entanto, foi mais do que suficiente para mudar por completo a banda. A saída de Kurt Vile, centrado na sua carreira a solo, tem sem dúvida muito a ver, ainda que agora seja Adam Granduciel a controlar as operações, os nativos de Philadelphia deram uma volta ao seu som e, mais do que um misto entre Sonic Youth e Bob Dylan que propunham no seu álbum de estreia, baixaram agora para paisagens atmosféricas e espaciais com laivos a Bruce Springsteen e Spiritualized. Tudo isto e umas quantas coisas mais em "Slave Ambient", o seu segundo trabalho.
We Trust é o projecto do jovem André Tentúgal, um realizador português que se estreou na música com "These New Countries", trabalho antecipado pelo single "Time (Better Not Stop)" e no qual o português se revela um compositor sensível e dotado para o pop mais imediato. O álbum, gravado nos tempos livres que a sua carreira como realizador lhe proporcionava, junta melodias clássicas com detalhes atmosféricos, influências anglo-saxónicas e cuidadas canções.
Numa altura em que se começava a falar de um decréscimo de criatividade depois dos dois últimos trabalhos, "Sky Blue Sky" e "Wilco (The Album)", nos quais os naturais de Chicago apostam por reforçar o seu lado mais clássico, eis que Jeff Tweedy e companhia voltam a maravilhar com o "The Whole Love", um álbum que acrescenta inquietude experimental e canções radiantes à perfeição. Assim, de novo no topo e com um concerto ao vivo que não deixa de surpreender e crescer, os autores de "A Ghost Is Born" regressam ao festival para celebrar esta segunda juventude na qual também se propuseram a criar uma discográfica própria, dBpm, e apresentar o seu oitavo trabalho, talvez aquele que melhor resume a sua ambição de refazer o rock americano misturando, como poucos, a euforia e melancolia.
O nome não engana e Wolves In The Throne Room soam exactamente ao que anunciam: uma manada de lobos famintos rasgando a tal sala do trono e suportando o peso do novo black metal americano. Com a neurose como principal catalizadora das suas obsessões e uma rica secção de complementos que vão desde o metal escandinavo, doom metal, o ambiente mais retorcido e o folk, a banda de Olympia propôs-se a refazer a fracção mais sinistra do metal, despindo-a de todos os seus artifícios estéticos e deixando-se ficar apenas com a pista sonora de um estilo que reformularam a partir de temas como a ecologia ou a perda de contacto da sociedade contemporanea com a natureza. "Celestial Lineage", publicado o ano passado, é o seu último trabalho.
Clássicos entre os clássicos e um nome cativo no San Miguel Primavera Sound, os Yo La Tengo podiam ter-se retirado há uns anos, disfrutando assim da sua condição de figura capital do indie e entreterem-se a coleccionar todos aqueles álbums nascidos sob a sua influência, mas os nativos de Hoboken são incapazes de estar quietos. Assim, não contentes com 25 anos a reivindicar um som com sentido e sensibilidade e oferecendo álbums como "President Yo La Tengo", "Electr-o-pura", continuam a fazer discos de peso como o desobediente e vibrante "Popular Song", reinventando-se em directo com concertos acústicos à carta ou exibindo um compromiso e participando num álbum de apoio ao movimento Occupy Wall Street. A sua nova visita ao festival deverá chegar acompanhada pela edição de um novo álbum que o trio tem previsto publicar em 2012.
Deu-se a conhecer em 2002 com "Len Parrot's Memorial Lift" e depressa deixou de ser simplesmente o filho de Ian Dury para se converter numa das mais prometedoras vozes do indie inquieto e do art-pop. Seguindo o caminho de grandes nomes como Lou Reed, David Bowie e Brian Eno, ao mesmo tempo que regenerou, com cuidado, uma nova psicodelia de autor, Dury editou, em 2005, "Floor Show" e, depois de um parêntesis de quase seis anos, acaba de publicar "Happy Soup", um trabalho que se afasta do romanticismo obscuro dos seus primeiros trabalhos para afirmar uma dezena de canções tensas e nervosas onde se intui o peso de Joy Division e do pós-punk dos anos oitenta. Recentemente, foi o espectáculo de abertura de Pulp durante a sua tour britânica.
Quase quinze anos depois da edição do álbum de estreia, "Something About Airplanes", e de começar a perder a timidez entre hinos pop manufacturados ao estilo de Built to Spill, reinterpretações melancólicas do rock universitário norte-americano e inesperadas mudanças, como a que protagonizaram com o mágico "Transatlanticism", os Death Cab For Cutie recuperaram o sorriso. Não que o tivessem perdido por completo, mas "Codes And Keys", o seu último trabalho, chega novamente com uma romântica introspecção e esplêndidos coros dos seus primeiros trabalhos, recuperando assim o espírito que tinha desaparecido em "Narrow Stairs" e "Plans". Seguindo o despertar de "Transatlanticism", os Death Cab For Cutie regressam aos arranjos requintados e às canções desarmantes, o meio onde melhor se defendem.
Demdike Stare é a história de uma obsessão, concretamente aquela que Sean Canty e Miles Whitaker partilham pelo misterioso e esotérico, os sons turvos e, especialmente, a estética dos filmes de terror dos anos 60 e 70. Por tudo isto, encomendam-se aos britânicos as composições naquelas em que o industrial se cruzam com o aterrador e o hipnótico partilha plano com o doentio. Drones, baixos e sons altamente doentios ao serviço de álbuns que, como "Symbiosis", "Liberation Through Hearing" e "Voices of Dust", abrem uma profunda racha na electrónica britânica e relacionam o techno, o dub e o ambiente de uma pesada bola de presidiário que se retorce às margens da música contemporânea.
O inquieto e agudo violino de Warren Ellis continua a ser o coração que palpita nesse animal de três cabeças chamado Dirty Three, banda que Mick Turner, Jim White e o próprio Ellis formaram em Melbourne há duas décadas e que permite aos três músicos conversar um espaço de expressão à margem das suas aventuras com os Bad Seeds e Grinderman, no caso de Ellis, das numerosas colaborações de White como músico de Bill Callahan, Cat Power ou PJ Harvey e das bandas sonoras de Turner. Fiéis à sua ideia original de se aproximarem ao rock através de uma perspectiva estritamente instrumental e com o violino, a guitarra e a bateria como único armamento, os The Dirty Three forjaram um som cuja essência é perfeitamente retratada em trabalhos como "Horse Stories", "Praise!" e "Ocean Songs". Desta vez, o trio reaparece em directo para apresentar "Toward The Low Sun", a estreia discográfica da Drag City e o primeiro trabalho que gravam nos últimos seis anos.
Com uma agenda cada vez mais apertada e com as recentes colaborações com Justice, Boys Noize e Jarvis Cocker, entre outros, o britânico Erol Alkan arranjou tempo para saltar para a cabine do Optimus Primavera Sound e voltar a demonstrar porque é que se converteu num dos DJ mais reputados e eficientes. Reconhecido como residente do lendário Trash Club na capital britânica e um nome habitual nas sessões do Nitsa Club, Alkan é também a alma de Phantasy, editora de onde já sairam inclassificáveis artistas como Connan Mockasin.
À espera da continuação de "Dagger Paths", alucinada viagem através do post-rock com a qual Matthew Barnes rompeu no panorama, o britânico continua a encaminhar-se até aquilo que alguém decidiu baptizar de pop hipnagógico e que não é mais do que essa música alucinada que não se sabe muito bem a que dimensão pertence. No caso de Barnes, a suas alucinações sonoras bem podiam passar por leituras actualizadas dos clássicos de Ennio Morricone, um dos nomes que qualquer dia também se cruzam no caminho deste enigmático génio capaz de transcender rótulos e criar do nada um inquietante universo sonoro.
Surgidos do cada vez mais conhecido panorama lisboeta, os Gala Drop passaram de auto editar o seu primeiro trabalho para se juntar a Sonic Youth, Panda Bear ou, mais recentemente, Ben Chasny (Six Organs Of Admittance). Tudo isto graças à concepção de música em que cabe desde o psicadélico aos ritmos africanos, passando pelo kraut-rock, a electrónica ou dub. Tudo isto foi bem concretizado em EP's como "Overcoat Heat" ou "Broda", mini LP que gravaram com Chasny.
É uma das lendas mais curiosas da música contemporânea (segundo dizem, Maria Lindén e Frederick Balckse conheceram-se num fórum para hipocondríacos), mas se se destacaram por alguma razão, não é pelas suas origens bizarras, mas pela facilidade com que agregaram o romanticismo e a sensibilidade num álbum, "Hearts", que traz humanidade e credibilidade ao revivalismo do dream pop e do shoegaze. Sem deixar de se focar em bandas como My Bloody Valentine, Ride ou Cocteau Twins, os nativos de Estocolmo inventam formas para manter viva a chama da emoção, graças a canções que vão mais além do exercício de estilo.
Fogueado numa infinidade de projectos e com múltiplas canções dispersas por CD-Rs, cassetes e edições de tiragem mais do que limitadas, o nova-iorquino James Ferraro continua a percorrer o caminho que vai do pop ao sintético, deixando um rasto de sintetizadores antigos, psicadelismo próprio e ritmos caseiros. Assim, depois de produzir trabalhos com ritmos urbanos, sons de séries e desenhos animados e brilhos sintéticos como em "On Air" e "Far Side Virtual", o americano continua a traçar o panorama do pop do futuro em "Rapture Adrenaline", um filme com um enredo impossível na qual se consolida como uma das novas coqueluches do pop hipnagógico.
Num abrir e fechar de olhos, o barcelonês John Talabot passou de ser uma das mais surpreendentes e enigmáticas promessas da electrónica catalã a uma figura internacionalmente reconhecida, graças à sua habilidade em misturar house de Chicago, disco e northern soul. Esta produção, que tem animado as pistas de dança, também o cataloga como o melhor do ano para a Pitchfork. Desta forma, é natural que o seu álbum de estreia, "Fin", tenha sido um dos trabalhos mais esperados da temporada e também um dos mais surpreendentes. É neste álbum que este artista, pouco adepto de mostrar a sua cara, abandona o frenesim das pistas de dança para se entregar à procura de ritmos, texturas e atmosferas que não faz nada mais que confirmar o seu imenso talento.
O silêncio é a nova moda, diziam os noruegueses Kings Of Convenience no início da década passada. "Quiet is the new loud" confirmou uma estreia que resgatou o prazer do folk, melodias clássicas e o prazer de ouvir Simon & Garfunkel sem levantar a voz. Mais de dez anos depois da dupla de Bergen se ter juntado, Erlend Øye e Eirik Glambek procuraram novas melodias e lançaram dois novos trabalhos que balançam ao som do folk-pop caloroso e melancólico. O último, "Declaration Of Dependence", abriu-lhes as portas de ilustres locais como o Palau de la Música de Barcelona e levou-os, uma vez mais, para aquelas melodias aparentemente despreocupadas e extremamente reconfortantes.
À espera de saber o que se vai passar com os Sonic Youth, depois do anúncio da separação de Kim Gordon e Thurston Moore, os membros da banda nova-iorquina continuam a desenhar caminhos paralelos e entretendo-se durante a espera, ampliando o seu repertório a solo. Assim, se há pouco tempo era Moore que se juntava aos seus "Demolished Thoughts", agora é a vez de Lee Ranaldo, inconfundível guitarrista que, depois de um sem-fim de projectos associados à improvisação, apresenta agora "Between The Times & The Tides", um trabalho para o qual recrutou Nels Cline (Wilco), os seus colegas Steve Shelley e Bob Bert (ex-baterista dos Sonic Youth), Jim O'Rourke, Alan Licht e John Medeski, e o qual se aproxima mais do que nunca ao formato canção para continuar a tomar as rédias sem deixar de as soltar na sua vertente mais experimental.
A espera acabou por valer a pena e, quase quatro anos depois de publicar o seu álbum de estreia, os barceloneses Mujeres voltaram a romper o panorama punk e garage dos anos sessenta com "Soft Gems", trabalho com o qual obtiveram comparações com os Black Lips, com um misto de pop batalhador, humor desengordurado e melodias elásticas que se entretêm a desfigurar um pouco os The Velvet Underground. Mais rápido, com os acentos surf ainda mais marcados e com melhores canções, "Soft Gems" era o disco que faltava ao quarteto catalão para converter-se numa das bandas mais destacadas do novo garage revival.
Já passaram duas décadas desde o lançamento de "Foxbase Alpha", incrível álbum com que Bob Stanley, Peter Wiggs e Sarah Crackwell se estrearam, fundindo o pop dos anos 70 com a electrónica dos anos 90. O trio londrino volta agora com um novo álbum que será o primeiro em seis anos. Elegantes artesãos do pop electrónico, a banda britânica volta a reactivar o seu legado com um álbum que salta directamente para as pistas de dança, deixando-se deslumbrar uma vez mais pela bola de espelhos, continuando a produzir hinos contagiosos e eufóricos.
O charmoso e levemente orgânico som de Grate Lake Swimmers torna-se estranho e espectral nas mãos de Colin Huerbert, ex-membro da banda canadiense que, aliado a Erik Arnesen, idealizou Sisikiyou como veículo para dar rédia solta à sua visão do folk, mais espartano e sofrido, ainda que igualmente belo. O seu álbum de estreia homónimo, gravado entre casas de banho, quartos de hotel e telhados, já previa a tristeza do pop-folk entre as dobras de uma produção solarenga e melancólica, e essa melancolia é precisamente a que parece capitalizar "Keep Away The Dead", nebulosa continuação com a qual os de Vancouver se confundem aos Litte Wings e Ben Weaver.
Seria fácil colocar-lhes o rótulo de stoner-rock, por exemplo, e deixá-los no seu canto enquanto trituram o rock e o pop, mas o californianos Sleepy Sun são muito mais complexos do que isso. Gastam "riffs" duros e rochosos, sim, mas não descuram o soul espacial ou o pop mais luminoso. E tudo isto dentro de temas como "Fever" e "Embrace", que são perfeitos exemplares de imprevisíveis mutações do rock desbocado e ancestral. O seu último trabalho, "Spine Hits", mantém essa procura permanente e confirma a sua vocação de soar a cem bandas encerradas numa só.
Quatro anos depois de se mostrar com "Songs In A&E" e de trazer uma nova parábola entre o rock galáctico e o gospel mais ardente, Jason Pierce reactiva a cápsula espacial de Spiritualized para publicar "Sweet Heart Sweet Light", um trabalho que, segundo o próprio Pierce, pretende mostrar "todo o amor pelo rock'n'roll". Desta forma, o britânico continua a aproveitar esse fio condutor que o levou do êxtase de Spacemen 3 a esse grandíssimo rompe-cabeças do soul, rock psicadélico, pop barro e garage que tem vindo a orquestrar através de álbuns como "Ladies And Gentlemen… We Are Floating On Space", "Let It Come Down" e "Amazing Grace" com um novo álbum que, assegura, tem de tudo, desde Brötzmann e Berry até Dennis e Brian Wilson.
Se existir um lugar no qual o ardor do rock e a fogosidade do soul se fundem numa junção imbatível, esse lugar é sem dúvida a garganta de Greg Dulli, veículo expressivo dos renascidos The Afghan Whigs. Era essa a voz que se lançou sobre o ouvinte desde os fundos de "Congregation" e "Gentlemen" e a que, quase uma década depois da separação da banda, volta a ter vida para lançar em directo as suas actuações poderosas cheias de soul crú e rock visceral. Assim, fechado esse parênteses no qual Dulli se foi obscurecendo um pouco mais junto aos The Twilight Singers, os de Cincinati regressam e com eles vem também essa lenda de ser a primeira banda fora de Seattle que assinou com a Sub Pop e não tardou em distanciar-se do grunge vestindo elegantes trajes quando o que estava na moda era o ar desleixado e evolucionando do garage combativo de "Big Top Halloween" à elegância obscura de "1965". Um pedaço de história, outro mais, para completar o puzzle do Primavera Sound.
Com uma energia que transborda os seus álbums e se materializa, com toda a sua intensidade, nos palcos, os galegos The Right Ons conseguiram posicionar-se no topo de uma nova geração de bandas espanholas que surgem no rock mais cru e imediato para dar forma a um discurso apaixonado e atómico. Assim, com T-Rex, The Cult, Steppenwolf ou Blue Oyster Cult no retrovisor, os naturais da Coruña gravaram as suas credenciais em três álbums que, além de os converter numa das bandas mais imediatas e directas do rock & roll, também lhes abriu as portas para o Japão e EUA. "Get Out", o seu último álbum, é a prova quase definitiva do poder desta banda de riffs rochosos e ritmos contagiosos.
Com apenas uma mixtape de cinquenta minutos de música que pegou fogo à internet, foi tudo o que o canadiense Abel Tesfaye precisou para criar uma revolução no R&B e posicionar o seu nome no topo de um género pouco dado a alegrias. E a esse seu primeiro trabalho, um frenético e descomplexado tratado sobre sexo, drogas e noites longas, choveram comparações com The XX e James Blake, o principal responsável para que o canadiense se tenha convertido no novo Messias da música negra. Para confirmar estão "Thursday" e "Echoes Of Silence", referências que acabaram por elevar Tesfaye à condição de fenómeno da temporada.
Se há dois anos se estrearam no San Miguel Primavera Sound fazendo com que o palco atribuído fosse pequeno, os The xx, jovens obscuros e herméticos que acabaram por acender o rastilho do new wave em 2009, actuam agora no Optimus Primavera Sound para continuar com a sua característica mistura entre o indie e o pop sonolento. Uma revalidação que, a julgar por "Open Eyes", demo adiantada que ofereceram aos seus fãs durante a última época natalícia, incorpora as constantes vitais do narcótico som de Low. A banda britânica, refundada como trio depois da saída de Baria Qureshi, finaliza assim o trabalho que deve fazê-los passar de promessa do pop detalhado e com ritmos lentos importados dos anos 80, a confirmação da música britânica.
Conta a lenda que se conheceram num concerto de Comet Gain e, desde então, os londrinos Veronica Falls não fizeram outra coisa que correr atrás do pop de língua de fora, absorvendo a poluição ambiental do garage e do surf-pop. O seu primeiro single, "Found Love In A Graveyard", já adiantava as virtudes de uma banda com um arco narrativo capaz de ligar os anos cinquenta aos anos oitenta, e é precisamente isso que confirma o seu álbum homónimo de estreia, um trabalho que aglomera alguns dos singles que a banda lançou durante os últimos dois anos e naquele em que as melodias estão entre guitarradas dilapidadas, deliciosas vozes roucas, hinos new wave e versões de Rocky Erickson.
O último grito do chillwave e o ponto definitivo no género chegou pelas mãos dos Washed Out, projecto pelo qual o jovem Americano Ernest Greene deixou tudo o resto para refazer, numa nuvem de felicidade, o pop interligado ao house e ao techno e alimentado-o à base de melodias evasivas e galácticas. Tudo isto graças a "Within And Without", álbum de estreia que não tem problemas em pôr-se na fila dos melhores do ano graças à sua habilidade para moldar a euforia e o romanticismo e fabricar-lhes um vistoso e colorido traje à medida.
Quase cinco anos depois de "So Bored" se converter num dos anti-hinos mais ruidosos e empapados da temporada, Nathan Williams continua a investigar as possibilidades do noise e low-fi, capitaneando um projecto que, depois de passar pelo San Miguel Primavera Sound com uma das actuações mais caóticas e grotescas, vem agora até ao Porto com o novíssimo "King Of The Beach". Gravado com a banda do falecido Jay Reatard, o último trabalho de Williams vem pôr um pouco de ordem no ruído desbocado de Wavves e apontar directamente ao punk e ao hardcore dos anos oitenta, a partir desse gigante ícone que é Hüsker Dü.
Best Youth, o duo formado por Ed Rocha Gonçalves e Catarina Salinas, ficaram conhecidos depois de participarem nos Novos Talentos FNAC de 2011 e em pouco mais de um ano posicionaram-se como uma das novas bandas mais emergentes da cena portuguesa. A sua mistura de rock electrónico e pop elegante e a sua habilidade na hora de manusear um arsenal de teclados, caixas de ritos e guitarras coloca-os entre o indie nervoso e uma versão menos sintética de Lana del Rey. Depois de publicar um EP de apresentação, a banda prepara a gravação do primeiro álbum.
Fogueado numa infinidade de projectos e com múltiplas canções dispersas por CD-Rs, cassetes e edições de tiragem mais do que limitadas, o nova-iorquino James Ferraro continua a percorrer o caminho que vai do pop ao sintético, deixando um rasto de sintetizadores antigos, psicadelismo próprio e ritmos caseiros. Assim, depois de produzir trabalhos com ritmos urbanos, sons de séries e desenhos animados e brilhos sintéticos como em "On Air" e "Far Side Virtual", o americano continua a traçar o panorama do pop do futuro em "Rapture Adrenaline", um filme com um enredo impossível na qual se consolida como uma das novas coqueluches do pop hipnagógico.
A cada ano que passa, uma hipotética ressurreição dos Neutral Milk Hotel parece algo cada vez mais improvável, mas para preencher esse vazio e superar a ausência dos autores de "In The Aeroplane Over The Sea", nada melhor que seguir o cérebro da banda, o esquivo Jeff Mangum, por esse caminho pantanoso do folk, pop ultrajante e canções que despertam os mais sonolentos. Em paradeiro praticamente desconhecido desde que disse adeus à banda pouco depois de publicar e fazer a tour do seu celebrado último trabalho, Magnum entreteu-se durante estes anos a fazer colagens musicais, colaborando em gravações de colegas como Apples In Stereo e Olivia Tremor Control e mimando o seu misterioso retiro voluntário. No entanto, nos últimos tempos, o nativo de Lousiana parece estar a regressar pouco a pouco ao mundo com actuações nas que cada vez mais estão presentes canções de Neutral Milk Hotel, a última grande banda de culto dos anos noventa.
Ouve "Parasol", a estreia da banda liderada por músicos de jazz Bruno Pernadas e João Correia, e a primeira coisa que vem à mente é a inteligência sofisticada de Beck na procura de refúgio no quente e convidativo pop brasileiro. Esta banda soa a elegante e vibrante, que cabalga entre o pop, folk e bossa, traçam deliciocas melodias como de "Mr. Williams" ou "Wait For The Telephone" e sacrifica o virtuosismo passado do jazz com músicas simples, quentes e emocionantes.
Adam Bainbridge era esperado com entusiasmo desde que começou a ser comparado com o Prince e Arthur Russell e anunciou que a sua estreia, "World, You Need A Change Of Mind", seria uma reflexão brilhante e sugestiva do hedonismo. E, embora as comparações possam ter sido um pouco exageradas, a verdade é que a estreia deste artista britânico recupera a confluência de pop e funk com paixão e elegância e pavimenta o caminho de e para a pista de dança com mais romantismo do que revoluções.
Há álbuns que são amaldiçoados, no entanto, venerados por um culto quase oficial - por exemplo, "Smile" pelos Beach Boys e outros, que mantiveram o seu halo de mistério e encanto sombrio. Este é o caso de "The Nightmare Of JB Stanislas", álbum lançado pelo lendário artista britânico Nick Garrie em 1969 e modelo pop barroco estranho que oscila entre o folk britânico interpretado por uma orquestra de 56 músicos e do pop pastoral dos Kinks. Agora, mais de quatro décadas depois de seu lançamento, Garrie recuperou este álbum muito procurado e valorizado para sublinhar a sua importância na história da música britânica.
Em pleno renascimento do colectivo Elephant 6, com Apples In The Stereo a reivindicar o movimento e Jeff Magnum a reencontrar-se com as canções de Neutral Milk Hotel, os The Olivia Tremor Control não podiam faltar à festa. A banda de Will Hart e Bill Doss, um dos principais artifices da doce invasão psicadelica e alucinogénica que começou a dar frutos no início dos anos noventa, voltou em 2005, mas foi agora, quando se fizeram novas canções nas quais trabalhavam desde 2008, que se fez notar. A primeira dessas canções é um monumental single chamado "The Game You Play Is In Your Head, parts 1, 2 & 3", e não é mais do que um avanço no retorno deste conjunto em 2012; um retorno que, depois de uma década em seco, dará continuidade a trabalhos como "Music from the Unrealized Film Script, Dusk at Cubist Castle" e "Black Foliage: Animation Music Volume One".
Conta a lenda que se conheceram num concerto de Comet Gain e, desde então, os londrinos Veronica Falls não fizeram outra coisa que correr atrás do pop de língua de fora, absorvendo a poluição ambiental do garage e do surf-pop. O seu primeiro single, "Found Love In A Graveyard", já adiantava as virtudes de uma banda com um arco narrativo capaz de ligar os anos cinquenta aos anos oitenta, e é precisamente isso que confirma o seu álbum homónimo de estreia, um trabalho que aglomera alguns dos singles que a banda lançou durante os últimos dois anos e naquele em que as melodias estão entre guitarradas dilapidadas, deliciosas vozes roucas, hinos new wave e versões de Rocky Erickson.
Reflexo da cada vez mais excitante e borbulhante cena musical portuguesa, You Can't Win, Charlie Brown é um sexteto de Lisboa que conseguiu surpreender estranhos com o seu primeiro trabalho, "Chromatic", um trabalho de pop caleidoscópico e deslumbrante que avança em linha recta desde o folk hipersensível de Nick Drake e Simon & Garfunkel ao pop espelhado, futurista e rico em arranjos de Animal Collective, Grizzly Bear e Sujfan Stevens. Um caminho em que os portugueses dão a mão a deliciosos e viciantes hinos como "Over The Sun, Under The Water" e "I've Been Lost".
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