Feminismo cigano na vanguarda artística da Roménia

autoria Ana Marques Maia

// data 23/01/2018 - 11:47

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A palavra "feminismo" não existe na língua romani – pelo menos, não no dialecto balcânico utilizado pelos ciganos romenos — motivo por que o único grupo de teatro cigano da Roménia, que é composto exclusivamente por mulheres, decidiu inventar uma designação: giuvlipen. Além de significar feminismo, a palavra é também o nome de baptismo da companhia artística sediada em Cluj, na zona noroeste do país, que alberga mais de dois milhões de pessoas de etnia cigana. Gadjo Dildo — que significa “estranho louco” em romani — é o nome da peça que têm em cena, presentemente, e que é inspirada “em histórias reais sobre o sexismo e o racismo de que muitas mulheres ciganas são vítimas nos dias de hoje”.

 

Mihaela Dragan, mulher cigana, romena, actriz e co-fundadora de Giuvlipen, "não encontrou outra alternativa senão fundar a companhia de teatro". Não concorda com a forma como o povo cigano é representado no mundo artístico romeno. “Queremos que os artistas ciganos tenham voz. A arte cigana foi marginalizada, subvalorizada, sempre estereotipada”, disse à Reuters. “Acredito que o nosso papel é tornar a arte cigana num tipo de arte mainstream e vibrante, para que as pessoas tenham vontade de vir ver os nossos espectáculos e de falar sobre eles.” As performances abordam temas como a discriminação, o casamento infantil, a falta de acesso a educação pelos membros da comunidade, questões LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgénero) dentro da comunidade, entre outros. “As pessoas conhecem apenas o lado sensacionalista da cultura cigana que é apresentada nas televisões”, declara Zita Moldovan, actriz da Giuvlipen. “O teatro cigano pode contar histórias, o que é útil tanto para nós como para a população romena.”

 

Durante os meses de Outono, o grupo percorreu a Roménia sob o lema “O Teatro Cigano Não É Nómada”. O objectivo foi sensibilizar para a necessidade de o Estado romeno financiar o teatro cigano — à semelhança do que faz com outros grupos minoritários no país, como é o caso das comunidades judaica, húngara e alemã. Embora ainda não tenham submetido o pedido oficialmente, têm convidado continuamente vários membros do Governo para assistir aos espectáculos, na esperança de afectar positivamente a sua decisão.

 

Embora não exista uma contagem oficial, estima-se que existam entre dez a 12 milhões de ciganos em todo o mundo — e que mais de metade resida na Europa, em território comunitário. Apenas na Roménia, nove em cada dez ciganos vivem “em situação de privação material extrema”. O grupo infantil é o mais afectado, segundo o World Bank; as dificuldades no acesso aos sistemas de educação e saúde são justificadas por situações de exclusão social e preconceito racial. Apesar dos programas de inclusão e anti-discriminação que se encontram actualmente em vigor na Roménia, o racismo contra esta minoria étnica remota há vários séculos. Por exemplo, no século XIX os ciganos era mantidos como escravos em mosteiros e em casas senhoriais. Durante a Segunda Guerra Mundial, cerca de 25 mil ciganos foram expulsos de Roménia, então aliada da Alemanha nazi; aproximadamente metade desse grupo não resistiu e acabou por morrer.

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