Marta Santos

Noite

Groove Ball, uma festa “crazy” que quer ser um movimento “queer”

Há concursos de "voguing". Há performances de "drag queens". Há música para todos os gostos. Há pessoas que, por uma noite, são outras. É difícil dizer o que esperar de uma Groove Ball — e isso é uma óptima notícia

Texto de Amanda Ribeiro • 13/07/2017 - 13:20

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É uma festa, mas não é apenas uma festa. “É uma casa que abraça a diversidade e faz união e casamentos”, prega Igor Ribeiro. “É uma festa, é”, concorda Inês Pando, “mas pretende ser mais do que isso — tem a ver com libertação, com o quebrar barreiras, com o ser queer”. “No fundo”, conclui Simone  Francisco, “é um sítio onde podes curtir música, dançar e estás bem, não te interessa o que as pessoas que te rodeiam são ou não são”.

 

Apresentar a Groove Ball tem muito que se lhe diga. Mesmo para os seus criadores. Nascida no Porto há seis anos, a festa começa por ser uma recriação dos ballrooms nova-iorquinos de finais da década de 80/inícios de 90, muito frequentados por jovens negros e latinos LGBT que entre si competiam em diferentes categorias — da dança (o incontornável voguing) ao transformismo. Mas vai para além disso. Há um concurso de voguing, sim, com prémios à mistura, mas também há DJ, com música que vai “de um extremo ao outro”, performances de drag queenslive acts e muitos transformismos à mistura.

 

“Nós sempre fomos muito queer”, diz Igor, Ghetthoven no mundo da música, como quem lança uma justificação. Em miúdo, depois de se ter cruzado com o documentário Paris is Burning (1990), apaixonou-se por todo este fenómeno cultural e desatou a praticar passos de vogue em frente ao espelho; mal sabia ele quão preciosos seriam estes conhecimentos aos 28 anos. Inês, por seu turno, também tinha as suas influências. Licenciada em Comunicação Audiovisual pela ESMAE (gere hoje com a irmã o restaurante Mafalda’s, no Mercado de Matosinhos), era, e é, viciada em todo o cinema transgressivo de John Waters e, noutra esfera, no universo dos Club Kids nova-iorquinos, narrado em Party Monster (2003). Todas estas referências foram alimentado uma amizade que dura há pelo menos dez anos e que se espelham, de alguma forma, na génese da primeira Groove Ball, realizada em 2011 no Plano B. No projecto original, estava Jackie, uma das criadoras da Thug Unicorn; Simone, amiga e apoiante do conceito, juntou-se oficialmente à organização a partir da segunda edição, que se realizou apenas em 2014, depois de concluídos os estudos. O trio forma hoje o colectivo Grooveland, cuja menina dos olhos é a festa Groove Ball, agora residente no Maus Hábitos com periodicidade bimestral e, desde o mês passado, presente também em Lisboa, no Rive-Rouge.

 

Portanto, eles sempre foram muito queer. “Sempre fomos muito familiarizados com essas influências e, além de querermos aprender, absovemos essa aprendizagem de uma forma consciente”, continua Igor. “E quisemos implementar no Porto algo que estivesse associado a todo esse movimento.” Para mudar a cidade? “Nós só víamos essa abertura nos bares gay e não nos identificávamos, pela música, pelo engate”, recorda Inês. “Quisemos criar uma coisa mista em que toda a gente pudesse estar divertida independentemente do género, da orientação”, sublinha Simone Francisco, que entretanto deixou em espera a carreira em Filosofia. Correu bem, a avaliar pelas palavras de Inês: “Hoje temos gays, temos heteros, temos gunas — o Expeão dos Dealema até já gravou um vídeo numa festa e estava tudo bem". E Igor ressalva: “É esse o casamento que queremos.”

 

Que festa é esta, então?

“Libertação” e “liberdade de expressão”; “quebra de barreiras” e “do padrão heteronormativo” — palavras que vão sendo repetidas para explicar o que se passa numa Groove Ball. Mas o que significa isto na prática? Que festa é esta, então?

 

“É muito difícil dizer o que as pessoas podem esperar”, admite Simone. “A festa é sempre muito divertida, é bué crazy”, enfatiza Igor. E “bonita”. Quem quiser pode procurar saber a resposta este sábado, 15 de Julho, no Maus Hábitos, no Porto, a partir das 23h30. Lessa, um dos braços da Monster Jinx, e Simone são os DJ de serviço. Pelas 2h, há o concurso de voguing (as inscrições estão abertas, online e on-life). E, sim, há quem “arrase” na pista — basta espreitar o vídeo à esquerda. Depois, pela noite dentro, temos as performances. Aurora Pinho, artista em processo de transição, apresenta o seu projecto musical APOCALYPSE ao lado do transformista Symone De Lá Dragma. Já de Londres chega a muito pouco católica Virgin Xtravaganzahdrag queenperformer, cantora, artista de cabaret, uma autêntica superstar que transforma as letras de hits para fazer pequenos hinos politizados e interventivos. Quem não puder ir pode esperar por Outubro: a Groove vai ser a festa de encerramento do festival Queer Porto.

 

Um dos objectivos é, precisamente, que a Groove Ball se torne numa “casa” para artistas, portugueses e estrangeiros, se afirmarem. Que comece a ser um “movimento”, uma “escola”, enfatiza Igor, onde novos performers e criativos se podem expressar, sempre sob o amplo guarda-chuva do queer, educando novos públicos. E, agora que a “cena drag está no auge”, também graças à popularidade do programa RuPaul's Drag Race, mostrar que o transformismo é realmente uma “arte”, que não se cinge apenas à mutação de um homem numa mulher. Antes na “criação de uma personagem”: há que referir que é normal ver na pista pessoas caracterizadas de cima a baixo, investindo em figurinos só porque sim. “É como aquela mítica frase do RuPaul”, remata Simone: “We’re all born naked and the rest is drag”.

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