Humor

O humor "é algo que se pratica"

Paulo Oliveira criou em 2008 a Bang Produções, onde estão os únicos formadores em stand up comedy em Portugal. Desde então, tem trabalhado e ensinado a arte do humor e da comédia como um género de "psicanálise barata"

Texto de Ana Rita Carvalho • 22/06/2017 - 13:01

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Há quem diga que a vida dá voltas e, neste caso, não há maior verdade. Paulo Oliveira serviu o exército português durante 23 anos e foi apenas há quatro que se começou a dedicar, inteiramente, ao projecto dos seus sonhos. Sempre foi “guionista”, em 2003 trabalhou no Cabaret da Coxa com Rui Unas e foi aí que o “bichinho” do humor realmente despertou. “Comecei primeiro a escrever, depois a fazer stand up comedy e faço-o desde essa altura”. Paulo conta já com mais de mil actuações.

 

A paixão pelo stand up comedy deu origem, em 2008, à Bang Produções. Depois de cinco anos de experiência na área do humor, Paulo criou, um ano depois, o primeiro curso de stand up comedy em Portugal. Tudo se desenrolou e evoluiu a partir desse momento. “Em 2010 comecei a trabalhar com uma equipa, com espectáculos personalizados para empresas, com actores infiltrados, com formação de humor”, explica. A percepção da necessidade deste tipo de formação na seriedade das empresas foi o ponto de partida. “O humor deve ser usado como uma ferramenta de trabalho, como uma ferramenta do gestor”, afirma. Há quem fale em “manipulação”, Paulo prefere o termo “persuasão positiva”.

 

“O facto é que através do humor é possível gerir melhor as pessoas” e é esta a gestão que, segundo Paulo, as empresas precisam. “O uso do humor não é para quem nasça iluminado, com uma centelha divina. É algo que se pratica, que se aprende e que se pode pôr em prática”, explica. Para tal, é necessário derrubar barreiras, ter consciência – algo que pode ser trabalhado de forma individualizada. “É possível que toda a gente use o humor e tenha piada”, diz. Mas, incialmente, quando surgiram os primeiros cursos “99% das pessoas que nos procuravam queriam ser estrelas da comédia, o próximo Ricardo Araújo Pereira, e não é esse o objectivo”. O objectivo é que se trabalhem três ferramentas essenciais no mundo da comunicação: a escrita, a linguagem corporal e postura em palco e a gestão do público.

 

A Bang Produções começou por trabalhar com espectáculos personalizados para empresas, depois surgiram as formações de humor na comunicação, humor em liderança, teambuilding e humor no local de trabalho. Em 2011/2012 começaram a trabalhar na área da produção de conteúdos, “fazemos produção de publicidade, videoclips”. Dois exemplos, “relativamente recentes”, são o anúncio da Surf e o último videoclip do Agir.

 

Quatro tipos de humor

Este projecto de formação abrange também escolas e funciona como um género de palestra/espectáculo, intitulado “Humor na Juventude”. “Neste momento, temos uma vantagem: somos os únicos a trabalhar, a nível nacional e também internacional, esta temática desta forma. Normalmente, o humor nas empresas e escolas resume-se a discursos motivacionais, cómicos, não é algo de concreto. A nossa abordagem é diferente”, afirma Paulo. O humor na Bang Produções é encarado de forma séria mas descontraída, e existem quatro estilos principais: agregador/afiliativo, o autodepreciativo, o hiperoptimista e o agressivo.

 

O humor agregador é, resumidamente, um humor inocente, “é daquele tipo de piadas inofensivas, que têm como objectivo unir as pessoas”. O humor autodepreciativo é, como o próprio nome indica, “o humor que utilizámos para nos diminuir e é um instrumento para lidarmos com uma data de coisas”. O hiperoptimista é o tipo de humor usado “por aquelas pessoas super optimistas – nada está mal na vida – tipo a Cristina Ferreira”, explica Paulo entre risos. Por último, o humor agressivo refere-se “ao sarcasmo e ironia”.

 

As formações querem-se práticas, mas “isso acaba por depender sempre do tempo que temos e nos dão”. Em relação ao stand up comedy, “só se aprende fazendo”, não é algo que se possa ensinar, “só experimentando e evoluindo no terreno”. “Por isso é que nós damos sempre prioridade a tudo o que é prático nas nossas formações, o que faz com que tenhamos de convidar as pessoas a sairem da zona de conforto” – convite este, que no site da Bang Produções, figura de outra forma, “Quando se inscrever vai entrar na sua zona de desconforto” – “optámos por não mentir, assim poupa-se tempo e trabalho”, diz o formador.

 

“Por norma, as pessoas vão [às formações] e não sabem porque é que vão e nota-se o arrependimento latente até ao final”, brinca Paulo. “Quem faz as nossas formações são pessoas que procuram uma experiência diferente na área da comunicação”. Mas também há quem encontre as formações da Bang Produções através de conselho médico: “Tivemos dois ou três casos de pessoas que se tinham divorciado e procuraram o curso como forma de escape (...) é um género de psicanálise barata”.

 

A Bang Produções “tem uma grande vantagem”: a continuidade. “Normalmente, no fim destas formações fica um vazio, ‘O que é que eu vou fazer agora com esta informação?’” – para dar resposta a esta questão foram criados palcos de ensaio. São três os palcos – dois deles surgiram de uma colaboração com o Cinema City (às quintas na Avenida de Roma e ao sábado no Campo Pequeno) e o Rocket Bar na Expo (também às quintas) - funcionam como um género de “espaço público” e qualquer pessoa, mesmo que sem formação, pode ter esta experiência. “Neste momento, de todos os alunos, temos cerca de 40 a 50 que, com regularidade, nos contactam e vão a palco”.

 

As formações da Bang Produções têm, geralmente, a duração de um mês, já o curso de Verão tem uma duração de três dias (três sessões de três horas cada) – 26, 27 e 29 de Junho – e um custo de 100 euros e pretende que os aspirantes a comediantes escrevam um texto e depois o interpretem ao vivo perante um público de desconhecidos na gala de apresentação (dia 2 de Julho, pelas 22 horas, no Instituto Português do Desporto e Juventude”). As inscrições encontram-se abertas e podem ser feitas aqui.

 

A Bang Produções já passou, para além de Lisboa, por Torres Vedras, Leiria e Porto e, num período de oito anos, foram cerca de 800 os alunos e quase 50 formações. Cada formação tem um limite máximo de 12 alunos: “Se forem mais os alunos inscritos, dividimos a formação em duas ou três turmas”. A regra base é que os textos apresentados sejam originais, ainda que orientados e “melhorados” pelos formadores. “Mas, por norma, a primeira vez corre sempre mal. Acontece 99% das vezes, porque não estão suficientemente preparados ou porque as condições onde vão actuar não são as melhores”, explica Paulo.

 

“A vantagem da formação em stand up comedy é a preparação das pessoas, em termos de ferramentas e matérias, na entrada mais pacífica neste universo”. A melhor parte? “Ver um puto de 17 anos que tem problemas com a polícia de Chelas e trocar piadas com um empresário que ganha milhões – isto é impagável”, diz Paulo. Ao contrário do que se possa pensar, “no humor, a realidade funciona sempre melhor do que a ficção”.

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