Hailey Kean/Unsplash

Crónica

Tema para um pequeno conto

Arte útil é arte que serve um propósito, ou vários propósitos, que pouco ou nada têm a ver, na minha opinião, verdadeiramente, com arte

Texto de Miguel Bonneville • 30/03/2017 - 12:40

Distribuir

Imprimir

//

A A

No dia 20 de Março o Cena - Sindicato dos Músicos, dos Profissionais do Espectáculo e do Audiovisual, a Plateia – Profissionais de Artes Cénicas, a Rede – Associação de Estruturas para a Dança Contemporânea e o Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos tornaram público um Comunicado Conjunto sobre os Pontos de Consenso relativamente a um Novo Modelo de Apoio às Artes (que pode ser lido aqui) “que alerta para a necessidade de um sistema que responda de forma mais eficaz, mais acessível e mais transparente aos desafios actuais da realidade artística e ao dever constitucional de assegurar condições para a criação e fruição cultural plural em todo o território.”

 

Para além de terem tornado público o comunicado, lançaram um repto para que outras pessoas pudessem exprimir-se relativamente a este assunto. É na sequência desse repto – e na expectativa de que possa incentivar a multiplicação de vozes sobre este assunto – que escrevi o texto que se segue.

 

Arte útil é arte que serve um propósito, ou vários propósitos, que pouco ou nada têm a ver, na minha opinião, verdadeiramente, com arte.

 

A persistência, por parte das instituições, para que os artistas se envolvam com a população local, com a dita “comunidade”, que incluam os “desfavorecidos” nos seus processos, que incluam “novos públicos” nas suas actividades, que as façam “para as famílias”, que cumpram as suas “agendas”, com os seus “temas” e os seus “contextos”, que demonstrem o sucesso das suas criações através dos números de visitantes, de espectadores, de leitores, de likes, de fãs, faz com que os artistas deixem de ser artistas e passem a ser agentes culturais. Ou seja, exige-se dos artistas (daqueles que, claro, são, querem e/ou pretendem ser financiados pelas instituições – os outros que sobrevivam como bem entenderem) que sejam criadores, gestores, investigadores, produtores, formadores, difusores, intérpretes - devem ser mediadores entre os cidadãos e as politicas culturais. Ou então que arranjem maneira de terem alguém que faça tudo isso por eles, que se organizem, que constituam estruturas, empresas, associações.

 

Então, será que podemos falar de artistas independentes? Ou será que alguma vez se pôde falar em artistas independentes?

 

(O que eu quero dizer é que a arte dificilmente vive – tal como a ciência, etc. – sem financiamento.)

 

Segundo os dicionários, um artista é:

- uma pessoa que pratica uma das belas artes, especialmente uma das artes plásticas ou dos seus prolongamentos actuais.

- uma pessoa que interpreta uma obra musical, teatral, cinematográfica, coreográfica.

- uma pessoa que, dedicando-se a uma arte, se liberta das pressões burguesas.

- alguém que tem ou exprime o sentimento da arte.

- alguém que ama as artes, que tem gosto artístico, sentimento do belo.

 

Parece-me então que o artista existe, desde que cumpra mil e uma outras funções para além das que estão associadas ao gosto, à libertação e ao “sentimento do belo”.

 

O artista independente é uma quimera. O artista, hoje, é uma empresa, uma associação, uma indústria. E se não é uma empresa, uma associação ou uma indústria, não sobrevive. Ou só sobrevive. De acordo com esta lógica, talvez não seja artista, talvez tenhamos que lhe dar outro nome.

 

O artista não só não se liberta das pressões burguesas, como está preso a elas, definha com elas, e está dependente delas para poder criar; vive dentro de uma lógica de apoios e de subsídios que (muito mal) dissimuladamente lhe dão toda a liberdade: a liberdade de criar segundo parâmetros ditos socialistas – um socialismo caviar, que acha que dar esmola é suficiente para satisfazer (e sobretudo calar) o (artista) pobrezinho; que se sente benemérito pela esmola que dá; e que ainda se sente inteligente por pôr o pobrezinho, com a sua esmola, a tomar conta dos mais pobrezinhos ainda. Quanto mais distante estiver o caviar do problema, melhor. É menor o transtorno de lidar com uma realidade que é incómoda, que dá trabalho e que é uma “grande maçada”.

 

Digamos que eu sei por experiência própria que este caviar não sabe nada de arte, não faz ideia do que significa, ou do que pode significar, não sabe o que é ser artista, não sabe como pode viver um artista, não sabe o trabalho que dá ser artista – tem uma ideia romântica, idealista, ou nula. De qualquer das maneiras, para este caviar, o artista nunca precisa de comer, muito menos de pagar uma renda – o artista é um ser livre, que vagueia pelas ruas, errante, inspirado, boémio. E por causa dessa (ideia de) liberdade é extraordinário, e por ser extraordinário, tem de se resolver relativamente aos recibos verdes, tem de se resolver relativamente ao pouco que ganha e ao muito que contribui, porque a arte não é um trabalho sério – para ser sério, já vimos, o artista tem que deixar de ser artista, tem de ser instituição.

 

O artista para ter valor tem de ser útil; tem de contribuir, tem de ser assistente social, tem de ser professor, tem de gerar receitas, tem de ser famoso, tem de agradar a todos, tem de se fazer compreender por todos, tem de tornar básico o que é complexo, tem de nivelar por baixo, tem de entreter. E convém que tenha um nome. Não há nada que este caviar desgoste mais do que um artista sem nome.

 

O artista precisa de ter um parente – porque se não como é que se vai saber se tem ou não realmente qualidades? Quais são as referências? Como é que se vai saber que existe? A eterna questão do caviar: quem é?

 

Tenho vontade de perguntar: O que é “a comunidade”? Quantos artistas do seu país sabe nomear? Quantos vivem ainda em Portugal? O que é que fazem esses artistas? Quanto tempo demoram a fazer uma obra? Que condições têm para a fazer? Qual foi a última vez que viu algum trabalho realizado por esses artistas? E por outros? Costuma abrir as agendas culturais? Tem tempo para o fazer? Lê a parte cultural dos jornais? Lê? Mas lê mesmo? Quem são aqueles cujas actividades se realizam fora do circuito “clássico”? Quem são aqueles que dominam mais do que uma disciplina (ou deverei perguntar quem não são)? Quem são aqueles que não dispõem de uma estrutura formal e legal estabelecida?

 

Posso perguntar também: Sabe quanto é que custa criar uma associação cultural? Sabe quanto é que custa manter uma associação cultural? Sabe o que é que tudo isso implica?

 

Porque já perguntei: o que é arte? E já ouvi as respostas. E devo dizer que foram perturbadoras na sua ignorância.

 

Mas claro que são os artistas que são indolentes. Para além de insolentes, prepotentes e falsas vítimas de um sistema que até os quer ajudar. Um sistema que diz que quer ouvir os artistas, não é um sistema que ouve os artistas. Parece-me que se realmente se quer ouvir os artistas, deve-se dar-lhes o tempo e os meios necessários para que eles o possam ser, sem que lhes seja exigido um formato pré-definido: sejam dois minutos (exactos) de tempo de antena, sejam formulários rígidos cujas perguntas e opções de resposta são obsoletas.

 

Se é importante fazerem-se estudos para saber o que se deve mudar nas instituições que apoiam financeiramente os artistas – e neste caso específico numa instituição pública – façam-se estudos para saber como vivem esses (e outros) artistas. Que estratégias de sobrevivência têm? Como sobrevivem? Que condições de vida têm? Como é que trabalham? Qual é a sua qualidade de vida?

 

Parece-me preferível não fazer nada, assumir o verdadeiro desinteresse, às boas intenções por cortesia. Não precisamos de boas intenções. Precisamos de mudanças sérias. Precisamos de ser ouvidos a sério. Porque precisamos de existir a sério.

 

E, por favor, não culpem os artistas pela sua falta de destreza empreendedora, pela sua falta de meritocracia, pela sua falta de reconhecimento – o portuguese dream é uma distracção dos media, o exemplo de uma minoria, que dá, por sinal, imenso jeito ao caviar e aos seus amigos. Questionemo-nos sobre a falta de informação, a falta de cultura, e sobretudo a falta de educação – porque é aí que tudo começa.

 

Eu sou um artista. Não, não é isso... Eu sou um agente cultural. É isto! (Tchekov, lembram-se?) No entanto, aquilo que ganho (eu e muitos outros artistas... não, agentes culturais que conheço) não é digno nem de metade de um, nem de metade de outro.

 

Um caviar chegou por acaso, viu um artista e, por pura falta do que fazer, matou o artista. O tema para um pequeno conto.

Voltar ao topo

|

Corrige
Eu acho que