Lisboa

E o humor, discute-se?

Ricardo Araújo Pereira e Bruno Nogueira dizem que sim. E para isso propõem-se levar políticos, líderes religiosos, actores e músicos para o palco do São Luiz e ver no que dá. Pode ter piada

Texto de Alexandra Prado Coelho • 09/01/2017 - 12:46

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O que é que nos faz rir? De que é que podemos rir? O que pode ser ofensivo no humor? Os humoristas andam sempre, desesperadamente, à procura de resposta para estas perguntas. Em vez de serem eles a responder, Ricardo Araújo Pereira e Bruno Nogueira decidiram desta vez sentar algumas pessoas em cadeiras à sua frente e pô-las a falar sobre o assunto. As conversas fazem parte do ciclo Tragédia + Tempo que começa esta segunda-feira, 9 de Janeiro, no Teatro Nacional São Luiz, em Lisboa, prolongando-se até ao Verão.

 

Este é um ciclo que nasce sobretudo da curiosidade de dois humoristas aqui transformados em comissários — e, claro, do convite da directora do São Luiz, Aida Tavares, para que Ricardo e Bruno propusessem uma programação em torno do tema, que incluirá debates, teatro, cinema, música, recitais e stand-up, espectáculos de e sobre comédia.

 

E ainda, de acordo com o material de divulgação, “experiências esquisitas”, o que, dizem Ricardo e Bruno, serve essencialmente para deixar em aberto espaço para ideias que venham a surgir como, por exemplo, uma sessão que decorra nas casas-de-banho do teatro sobre, quem sabe, “comédias escatológicas”, por exemplo.

 

O arranque do ciclo, marcado para esta segunda-feira às 19h, junta no palco os dois comissários com outros dois humoristas, Ana Bola e Nuno Markl, para uma primeira conversa mais assumidamente sobre e com quem faz humor, tanto no palco como na escrita. Só mais tarde, noutras datas, entrarão em cena convidados de áreas que Bruno Nogueira descreve como “mais improváveis”: a política, a religião, a música e a revista à portuguesa.

 

“São áreas improváveis mas em que o humor, de uma forma ou outra, está sempre presente”, explica. “Na política pode estar presente involuntariamente ou pode acontecer que a falta de humor provoque desencontros entre um político e a população em geral. O que queremos é que as pessoas que praticam a política regularmente falem sobre como isso as ajuda ou não em várias situações.”

 

Para um político, saber ser alvo do humor é “uma manifestação de força”, afirma Ricardo. “Não suportar a ideia de que alguém possa fazer comédia comigo é uma fragilidade.” Além disso, pode-se discutir se “foi ou não vantajoso para Donald Trump ter sido o candidato mais satirizado na campanha eleitoral americana”. O facto é que, defende, “toda a sátira tem uma componente de homenagem e por isso valoriza o objecto que é satirizado”. Essa sessão ainda não tem data marcada porque é preciso conciliar as agendas dos políticos convidados.

 

Aparentemente, a religião está mais disponível para o humor do que a política porque a segunda sessão, precisamente sobre O Humor na Religião, já tem data marcada. No dia 6 de Fevereiro, Bruno e Ricardo propõem-se juntar no Jardim de Inverno do São Luiz os representantes de várias religiões para tentar perceber quais são os limites que cada uma impõe, ou não, ao humor, e discutir ideias feitas como a de que os judeus têm uma relação mais aberta com o humor do que os fiéis de outras religiões. “Era uma coisa que me interessava estudar, mesmo que não houvesse este ciclo”, diz Bruno.

 

Ricardo está convencido de que “a tradição judaica de humor está relacionada com o facto de os judeus não terem uma noção clara da vida depois da morte”. Porque, justifica, “as coisas têm sempre mais graça quando sabemos que vamos morrer”. Será que isso explica que os animais não riam? Será porque não sabem que vão morrer? Bruno não acredita nisso, porque se os animais têm instinto de sobrevivência isso implica que tenham a noção da morte. E poderão estas questões ser discutidas no São Luiz? De certeza, porque o que se pretende é que neste ciclo não haja guiões fechados nem tabus.

 

Segue-se, a 14 de Março, O Humor na Música, em que o fado será um dos protagonistas. Porque o fado é trágico mas também pode ser humorístico, por vezes propositadamente, por vezes involuntariamente. A ideia é convidar fadistas e outros cantores para ver de que forma o humor surge da, e na, música. “É um pouco bizarro”, diz Ricardo, “porque a música é uma expressão não-verbal e mesmo nessa qualidade ela pode ter humor”.

 

Talvez uma composição musical não nos faça rir às gargalhadas, mas “pode-se também discutir se uma coisa que não nos faz rir é humorística ou não”. E isso leva-nos de volta ao papel do humorista que, em cima de um palco, acaba sempre por ser julgado pelas gargalhadas que consegue (ou não) arrancar à audiência. Essa é justamente uma das razões que levam Ricardo a querer ouvir o que têm para contar os artistas da revista à portuguesa (O Humor na Revista à Portuguesa será a quarta conferência, a 2 de Maio).

 

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