Quando três bandas explodem juntas dá-se uma Super Nova

autoria Renata Monteiro

// data 08/04/2018 - 19:41

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Maus Hábitos, “somos loucos”. Estava profetizado, a meio da primeira noite da digressão Super Nova, que arrancou este sábado, o que aí viria com Stone Dead — e, no meio de tanta dança africana, começava a renovar-se o suor deixado momentos antes pelos Sunflowers. Maus Hábitos, Porto, agora no relógio dos Scúru Fitchádu, um ponteiro no punk e outro no funaná. São horas de “lançar o caos”. As facas e os ferros estão no chão (a polícia que lhes dê paz que eles usam-nos para fazer música) e, a julgar pelo tamanho do círculo no meio da sala, são poucos os que procuram salvar-se. “Estamos aqui porque em Janeiro encostamos uma faca ao pescoço do Salgado”, diz Marcus Veiga, voz pausada entre os gritos num crioulo raivoso de quem quer engolir o microfone e ecoar para sempre.

 

Luís Salgado, programador do espaço onde nasceu a Super Nova, tem outra justificação para a escolha. Para a terceira edição do festival itinerante voltaram a “juntar novas bandas portuguesas” em quem querem “apostar”, sem tentarem fazer match. Pelo contrário: “Há uma preocupação de [as três bandas] serem bolacha sortido”. Entre Sunflowers e Stone Dead, actuam os Scúru Fitchádu, o recheio que destoa no alinhamento do circuito que leva “a nova música portuguesa” a seis salas do país — Marcus Veiga chamava-lhe a “tour serpente”, em alusão à sonoridade sibilante dos nomes das bandas participantes.

 

Até Junho, em dois sábados de cada mês, vão em debandada por Évora (SHE), Coimbra (Salão Brazil), Leiria (Stereogun), Barcelos (CCOB) e Aveiro (GrETUA). “Um dos objectivos principais da Super Nova é construir uma rede de Norte a Sul do país que vai também passar pelas ilhas” e, no próximo ciclo, que arranca em Setembro, “provavelmente” também por Vigo. Neste momento, fazem parte da rede 11 salas, com grande enfoque em áreas no interior do país, número que Salgado quer arredondar para 15. A ideia é rodar as bandas por um conjunto de salas e, em simultâneo, pôr estes espaços em contacto uns com outros e dinamizar a sua programação. “É isto que queremos fazer: que as salas cresçam, que os públicos cresçam, o que, ao oferecer isto com uma periodicidade regular, acaba por acontecer. Acabas por criar o gosto de ir a concertos, estás na tua vila onde não acontece nada e de repente começam a acontecer coisas.”

 

Para as bandas, a Super Nova é uma oportunidade “sustentável” de ir em tour. Uma banda pequena pode "perfeitamente" tocar nestas salas, mas esta digressão permite ter mais condições, como "um cachet, hotel, jantar", o que “não aconteceria se fossem em nome próprio”, assegura Salgado. Na conversa que antecedeu os concertos, que durante a tarde juntou jornalistas e programadores, falava-se desta geração de músicos “que faz das tripas coração para continuar a subir ao palco”. A Carolina Brandão e Carlos de Jesus, os Sunflowers, com novo álbum saído em Fevereiro (Castle Spell), entusiasma-os a “certeza das salas cheias” e a “liberdade de fazerem o que quiserem”. “Mesmo que haja quem nos tenha de aturar para ver os outros, e vice-versa, com mais bandas chegamos a um público que de outra forma não chegávamos”, acredita a baterista. Eles próprios iam ver Scúru Fitchádu pela primeira vez. Já com Stone Dead não foi preciso “quebrar o gelo” — o guitarrista da banda de Alcobaça organizou-lhes o primeiro concerto fora do Porto, em 2014. Volvida a primeira noite, ainda não sabem se faz diferença partir em digressão a solo ou com companhia. Isso fica para responder no final, a 2 de Junho. Até lá, vão esforçar-se por trazer “histórias”. Porque essa “é sempre a parte mais gira de ir em tour”.

Eu acho que