Adriano Miranda
João Gigante

Etnografia

Uma concertina contra o esquecimento

Mergulhou em arquivos caseiros, estudou as baladas e cantares da sua freguesia. E a partir desse trabalho etnográfico criou novas melodias — entre a tradição e a falta de amarras. Agora, o Phole de João Gigante quer chegar a todo o Alto Minho. Uma viagem a partir das notas de um “tocador” de concertina, a propósito da edição de aniversário do PÚBLICO que tem a memória como tema central

Texto de Mariana Correia Pinto • 03/03/2018 - 22:55

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Percebeu que 80 quilómetros podiam ser uma enorme distância quando trocou Viana do Castelo pelo Porto e a nostalgia se embrenhou, pouco a pouco, nos seus dias. João Gigante tinha 19 anos, acabava de entrar na Faculdade de Belas Artes e percebia que podia criar na academia a partir daquilo que tinha deixado em casa. Em pesquisas por armários e caixotes caseiros, deixou-se levar numa “viagem pela memória” e acabou a descobrir que as coisas mais insignificantes podiam, afinal, ser importantes: “Como aquele cesto”, conta João a apontar para uma prateleira da antiga cozinha de casa dos pais, agora transformada em estúdio. “É um cesto que a minha avó preservava e não tem interesse nenhum, o lugar onde guardava coisas que não tem sentido guardar.”

 

Um soutien branco feito à mão, tecidos vários, fechos por usar, botões e um terço arrumados numa caixa de Ferrero Rocher, carteiras, óculos com uma haste remediada com fita-cola, documentos, uma fotografia de João quando criança. O Phole, um projecto artístico que tem a concertina como epicentro, nasceu da necessidade de João se encontrar nestes objectos reunidos sem sentido aparente: “Tem a ver com uma ideia de etnoconsciência, uma consciência do que é o passado”. Para que dele possam nascer “novas histórias”.

 

João Gigante, 31 anos, tem dificuldade em explicar o que é o Phole (“é uma grande pergunta essa”, sorri). O que ele faz questão de esclarecer à partida é uma questão de nomenclatura: “Gosto de dizer que não sou músico, sou tocador”. Frase a frase, o vianense, natural da freguesia de Perre, vai explanando: o Phole — criado há cerca de sete anos mas só agora a ser alargado e divulgado — é um projecto contaminado pela memória: a familiar, a geográfica e a das melodias e cantos ligados a um instrumento tradicional que foi, outrora, “muito importante em algumas aldeias” — e que “continua ainda a fazer esse caminho”.

 

A música entrou na vida de João por culpa do Grupo de Danças e Cantares de Perre, conjuntos que são uma tradição bem minhota. Tocou ferrinhos, depois cavaquinho, a seguir bandolim. Teve aulas de guitarra clássica durante dois anos. E aulas de concertina: que eram, na verdade, mais “uma troca” do que outra coisa. “Há quem ensine concertina com pauta, mas não aprendi assim. Era mais ver como se fazia. Não me interessa muito perceber onde está o sol, nunca uso pauta. É um instrumento de intuição e construção”, acredita.

 

Foi isso que percebeu de forma ainda mais decisiva numa tarde em que treinava em casa. Dois quartos ao lado, ao ouvir o som saído da sua concertina, Laura, a avó paterna, começou a trautear uma música. João passou a ensaiar perto dela — e volta e meia vinham as apreciações: “Isso não é assim”, dizia-lhe. “Comecei a pensar naquilo, a repensar o que estava a fazer. Estava a pagar para ter aulas. Isso fazia sentido?”

 

Novas melodias

O que ele queria fazer era algo diferente. Pega no instrumento vermelho — que “está entre as duas mãos e junto a nós, uma ligação muito especial” — e começa a tocar. Num dos teclados uma melodia mais tradicional, no outro algo distinto. E o que sai faz lembrar a banda sonora do filme O Fabuloso Destino de Amélie, pelo talento de Yann Tiersen. “Este instrumento tem possibilidades imensas de sons”, diz, como se o abraçasse.

 

As criações de João Gigante, sonoplasta e fotógrafo, são uma mistura de sons cheia de harmonia. Sempre com ligação ao lugar. E nunca igual: “Consigo recriar uma melodia semelhante, mas não exactamente igual.” Quando há tempos fez um espectáculo no atelier de Iva Viana, gravou previamente os sons que a estucadora produzia ao trabalhar e depois usou-os no concerto: “Não é só um conjunto de músicas tocadas umas a seguir às outras. Às vezes é abstracto, outras romântico”. Sempre melódico. E sem amarras a regras: “Já perdi aqueles receios do que pode e do que não pode ser, pensar se as pessoas vão gostar ou não. Dantes via alguns músicos a fazer coisas que achava pouco interessantes e agora acho interessante mesmo não sendo o que me interessa”.

 

Para esses inventos, João Gigante vai fazendo crescer uma espécie de base de dados ou catálogo. De ideias e apontamentos sonoros, obras dele ou sons capturados. “Interessa-me ter coisas que depois, consoante o momento, podem ser lançadas”: podem ser samples, loops, barulhos da natureza. “Deambulo entre a paisagem e a melodia”, explica o sonoplasta que toca “muitas horas” por dia.

 

O quotidiano passa-o entre um atelier partilhado no centro de Viana (onde trabalha com fotografia) e Perre, a cinco quilómetros, que parecem poucos em cima da sua mota. Tudo acontece na antiga cozinha dos pais onde se conservam os armários de madeira e ainda é visível o espaço da máquina de lavar louça. Mas onde são os instrumentos que reinam: a concertina vermelha, um acordeão (a diferença entre um instrumento e o outro é sobretudo a do fole: na concertina, produz um movimento ao abrir e outro a fechar; no acordeão é o mesmo som), guitarras, uma bateria, fios por todo o lado, computador.

 

Para lá do mundo sonoro, João trabalha regularmente para a AO Norte (Associação de Produção e Animação Audiovisual) e faz, volta e meia, fotografia de produto: “Também tenho de fotografar pão, para ter o pão de cada dia”, graceja. Como se vive da arte no Minho? “Vive-se mal. Mas em qualquer lado, não só aqui”, lamenta.

 

Na calha, está um alargamento do Phole (o nome vem do fole e vai buscar o Ph à antiga grafia de farmácia) a outras geografias: “Gostava de fazer um levantamento de todo o Alto Minho em termos de melodias, cânticos e formas de estar nesta zona. E conhecer outras pessoas, gravá-las e depois usar num momento final, num concerto”.

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