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Patrícia Pereira

Cultura

Os Bichos do Mato levam música a casas de São João da Madeira

Em São João da Madeira, uma vez por mês, há Bichos do Mato em casa de alguém. A ideia é apresentar propostas culturais em espaços improváveis. A edição de Fevereiro aconteceu em casa de Paula Alves e a música esteve a cargo da concertina de Patrícia Pereira

Texto de Ana Jorge Teixeira • 28/02/2018 - 17:58

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"Só quando vir toda a gente sentada é que vou acreditar. Achava que só cabiam 10 pessoas." O desabafo é de Paula Alves, a anfitriã de mais uma edição do Bichos do Mato. Enquanto ninguém ouve, confessa-se preocupada com o tamanho da sala de estar: será pequena para acolher toda a gente? Afinal, as 24 pessoas que se inscreveram — sem contar com o gato Chico, que foi proibido de assistir — estarão, não tarda, a tocar à campainha. A razão? Um concerto surpresa de Patrícia Pereira, no último sábado de Fevereiro.

 

Receber desconhecidos em casa pode ser desconfortável, mas a ideia dos Bichos do Mato é, precisamente, abrir as portas da casa de alguém para uma hora e meia de propostas culturais. O desafio é lançado, uma vez por mês, pela Ecos Urbanos, em São João da Madeira. O novo projecto junta-se a outras iniciativas desenvolvidas pela associação de jovens, como oficinas de teatro, percussão ou dança criativa. Os lugares são limitados e a casa é cedida por quem estiver disposto a receber conhecidos (e desconhecidos). A morada só é revelada 24 horas antes.

 

O jogo é simples. Quem desejar ser anfitrião pode inscrever-se através da página de Facebook ou do site. A equipa dos Ecos Urbanos entra em contacto para conhecer a casa e tentar adequar a proposta cultural às pessoas que lá moram. A cada mês é lançado o cartaz com a proposta, assim como informações sobre o que se pode esperar do espectáculo. Os interessados em assistir enviam um email para bichosdomato@ecosurbanos.pt e esperam que lhes enviem a morada.

 

Foi isso que Paula Alves fez — e agora está à porta de casa, a dar as boas-vindas ao público do concerto particular. Um chapéu, pousado num móvel do hall de entrada, não está lá por acaso. Destina-se a receber um "donativo consciente" entregue ao artista no final da noite. Não é obrigatório e cada um dá o que quer — ou o que pode. Lá dentro, a sala de estar de Paula sofreu uma remodelação: o móvel que costumava ter a televisão transformou-se num banco improvisado e a mesa de jantar desapareceu para dar lugar a mais espaço livre. Há um sofá, bancos e almofadas e até o chão se torna um bom assento. Um letreiro pendurado na cortina tem escrito o nome do projecto. A concertina — uma das protagonistas da noite — repousa numa cadeira. E, para que nada falte, Paula pousa alguns aperitivos numa mesa, aos quais se juntam as contribuições de quem chega para assistir ao concerto.

 

"Como qualquer pessoa que recebe em casa, os anfitriões sentem alguma responsabilidade em ter algumas coisinhas para oferecer aos convidados. E nós também propomos isto aos convidados", conta Margarida Oliveira, uma das impulsionadoras do Bichos do Mato. A ideia é que levem algo, "como quem vai visitar um amigo". Há quem tome chá, beba um copo de vinho ou, vencido pela timidez, aguarde pelo início do concerto.

 

"Boa noite a todos. Sou a Patrícia Pereira. Sou música a toda a hora e [esta] é a única coisa que sei fazer. E cozinhar." As palavras, em jeito de apresentação, são da artista são-joanense, de 31 anos. Concertista desde os 19, revela que se dedica a ser "música todo-o-terreno". "Agora vou-me calar." E, durante os minutos seguintes, o único som que se ouve é o da sua concertina. Patrícia mostra-se envolvida pela música que toca — mas não é a única. Há os mais compenetrados, que balançam e acompanham o ritmo. E outros que, de olhos fechados, esboçam sorrisos ao longo de cada momento musical.

 

Unir pessoas que não se conhecem

Carla Barata marca presença nos Bichos do Mato pela terceira vez, com a filha, e tenta inscrever-se "sempre que possível". "[São] projectos novos, de gente nova, com muito talento. Acho fantástico o ambiente, com pessoas diferentes. Tenho 46 anos e adoro estar com gente mais nova."

 

Para Gizela Ferreira também já não é uma novidade. É a segunda vez que participa — ao contrário dos seus filhos, que já vieram três vezes. "Tenho dois filhos e é mais fácil eu sair do conforto de minha casa para vir para outra casa e saber que os posso trazer. Ir para um bar torna-se mais complicado (…) Eles aprendem a interagir mais com pessoas, não são bichinhos do mato", diz, em tom de brincadeira. Sérgio Gil, o marido, acompanha-a: "É apelativo. As pessoas entram com o pé atrás e saem maravilhadas, como hoje”.

 

Mas há quem se estreie nos Bichos do Mato com o som da concertina de Patrícia. É o caso de Vânia Silva, uma das espectadoras e amiga da anfitriã: "Tem sido muito agradável o convívio e esta partilha com as pessoas que eu não conhecia de lado nenhum".

 

A cada nova música, a concertista sorri e enfrenta a plateia nos olhos, sem receios. Este não é o primeiro concerto que dá, está habituada a tocar na rua e adora fazê-lo. "Principalmente quando está sol", brinca. É provável que quem passeia a pé pela Baixa do Porto já a tenha ouvido, nas ruas das Flores, de Santa Catarina ou de Cedofeita.

 

Concertos, workshops de culinária, espectáculos de dança, exposições de fotografia: a ideia dos Bichos do Mato é que este possa ser um projecto para unir pessoas que não se conhecem. Margarida gostava que, no final de cada espectáculo, a audiência estivesse "em amena cavaqueira". "Como se fossem amigos e se conhecessem há imenso tempo."

 

No fim do concerto, a sala de estar de Paula volta a ficar vazia e os casacos começam a abandonar o cabide. A promessa que fica é a de que havemos de nos voltar a encontrar no próximo Bichos do Mato. Em casa de alguém. A data já está marcada: 17 de Março.

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