Priscilla Vilariño
Joana Reais

Concerto

Joana Reais quer “desmistificar preconceitos” — com muito samba, jazz e mornas

Foi para o Brasil mas, no meio do samba, a cantora portuguesa não se esquece do fado (nem das mornas e do jazz). Joana Reais regressa a Lisboa para um concerto solidário com produção da Fundação Salvador. A 1 de Fevereiro, no Teatro da Trindade

Texto de Renata Monteiro • 31/01/2018 - 19:04

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No Brasil, Joana Reais, 31 anos — cantora, actriz e performer —, percebeu como a “vida não é tanto a marcha de Carnaval” que achava que ia encontrar. O que não significa que tenha deixado de sambar. É feliz no país que a acolhe desde fins de 2014, mas foi em Lisboa que nasceu e é em Lisboa que ficam a família, os amigos e o início do percurso musical da cantora de sambas, jazz e mornas, que de vez em quando pisca um olho às músicas do mundo e não consegue desviar o olhar do fado. Por isso é que não houve dúvidas na escolha do nome do álbum de estreia, editado em 2015 e gravado nos estúdios da Antena 2 durante um concerto ao vivo. Chamou-lhe A Lisboa e agora, quando "finalmente" agendou uma data para o concerto solidário a favor da Associação Salvador, com quem mantém uma relação próxima, deu o mesmo nome à mini digressão. A estreia acontece esta quinta-feira, 1 de Fevereiro, no Teatro da Trindade, em Lisboa.

 

Com Joana, chega a Portugal o trio luso-brasileiro que a acompanha em concertos: a Miguel Menezes no contrabaixo, André Mota na bateria e Múcio Sá — músico baiano com quem também compõe — na guitarra juntam-se dois artistas convidados, a cantora de jazz portuguesa Maria João e, "para um momento ao piano", Carlos Garcia. 

 

“É sempre bom regressar, é uma relação de amor”, conta Joana Reais ao P3, por telefone, “e o nome A Lisboa tour é uma dedicatória à cidade que me viu nascer e me deixou sonhar”. Deixou-a porque estava “cansada de alguma instabilidade artística em Portugal” e partiu, primeiro para o Rio de Janeiro e depois para São Paulo. Quando chegou ao Brasil, achou curioso o que agora lhe parece óbvio. “Temos um oceano a separar-nos e, no entanto, parece que estamos mais em casa lá do que se estivéssemos em Berlim, que está muito mais perto.”

 

Por lá, no “meio de tanta dureza”, encontrou um público “brasileiro desejoso de conhecer o que se faz na Europa, mas principalmente em Portugal”. E de cada vez que actua nas salas de espectáculos brasileiras não foge ao rótulo de fadista, por muito que dele se esquive. “A imagem do fado lá é mais simplificada e, por isso, se eu canto um fado ou dois, sou fadista”, ri-se. “Mas isso não faz de mim fadista.” As mesmas coisas que cantava em Lisboa, canta-as no Brasil, e isso faz com que se torne, embora involuntariamente, “uma representante da cultura portuguesa”. “Acho que o público brasileiro gosta que eu leve uma certa actualização do que se faz por Portugal”, diz, salientando a “missão cultural que um artista também deve ter”.

 

Numa artista como Joana, há ainda outra missão — mesmo que a maior parte do seu público já “nem pense nisso” quando a vê cantar. Isto porque desde há dez anos que a cantora e actriz é amputada, daí a relação de longa data com a Fundação Salvador, com trabalho desenvolvido na área da deficiência motora. “Sendo uma pessoa com uma deficiência motora, este é um assunto que me toca bastante”, confessa. E se depois do acidente ferroviário que sofreu aos 21 anos sentiu a necessidade de “aceitar a prótese com a maior naturalidade possível” e de “não a esconder”, agora já não pensa “muito nisso”. E espera que quem a vê “também não”. 

 

Joana quer que o concerto de 1 de Fevereiro seja “um momento de diversidade e criatividade, que apele a uma comunidade capaz de construir um futuro mais justo e incite à mudança urgente de mentalidades”, tal como a artista faz por outros campos, em workshops com o tema “A Voz e o Movimento numa Performance Inclusiva”. "Só quem passa por uma situação deste tipo sabe o quanto a nossa vida (e a dos que estão à nossa volta) muda do preto para o branco em menos de um segundo”, conta. “E é essencial, não só para o indivíduo como para o colectivo, falar-se sobre o impacto da deficiência no dia-a-dia e desmistificar diferentes preconceitos.”

 

Com Salvador Mendes de Almeida — o fundador da associação que carrega o seu nome, criada depois de um acidente de mota o ter deixado tetraplégico — diz ter em comum “uma grande teimosia”. “E um forte arregaçar de mangas”, atira. O que se nota ao ouvi-la cantar, acrescentamos nós. 

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