Viana do Castelo

Neopop: uma história escrita com tinta electrónica

É o maior festival nacional de música electrónica. Cresceu de ano para ano, e em 2017 tem os Kraftwerk como cabeça de cartaz. Eis a história do Neopop, de acordo com os testemunhos dos seus organizadores

Texto de Luís Filipe Rodrigues • 30/07/2017 - 08:11

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Começa a dança

Três amigos conversavam pela noite dentro. “Estava com o Phil [Filipe Rodrigues] e o Raul Duro no carro a falar sobre os nossos sonhos e projectos e tudo se direcionou apenas num sentido: um festival de música”, lembra o programador e fundador Gustavo Pereira. “Depois foi só apresentar o projecto ao Paulo Nery, que também ficou bastante interessado, tamanho era o nosso entusiasmo.” Estavam lançadas as bases para o Anti-pop, que uns anos mais tarde, após a saída de Paulo Nery da organização, seria rebaptizado Neopop. É o festival de música electrónica de referência em Portugal, e este ano decorre entre 3 e 5 de Agosto.

 

Gustavo não é o único a falar em (e com) entusiasmo. A palavra repete-se à medida que discutimos a génese do festival com os seus ideólogos e os membros da equipa que os acompanham desde a primeira edição. Como Pedro Rebelo, project manager e DJ. “O surgimento do festival foi motivo de grande entusiasmo por parte de todos os apreciadores de música electrónica”, diz. Passado um bocado volta a bater na mesma tecla: “Encaro [a sua evolução] com muito entusiasmo.” Nuno Branco, que também trabalha na produção do festival, lembra o “entusiasmo de quem faz algo com aquela dimensão pela primeira vez.” E por aí adiante.

 

Antes do entusiasmo, porém, houve uma oportunidade que foi aproveitada. “Quando começámos a estruturar o festival, em 2005, havia uma lacuna grande”, recorda Raul Duro, outro dos sócios-fundadores. “Não existia em Portugal um único festival grande de electrónica underground como existia no resto do mundo, e nós éramos pioneiros na promoção de artistas de electrónica mais alternativa.” Entre os clubes com os quais colaboravam na altura contavam-se o Indústria, no Porto, e o LuxFrágil, em Lisboa. Passemos a palavra a Nuno Branco: “Havia uma aposta corajosa nas novas tendências que então despontavam na música de dança. Senti que estava a participar em algo pioneiro.”

 

Viana do Castelo surge nesta história meio por acaso. Nenhum dos organizadores era de lá, mas Raul Duro tinha vivido durante 20 anos a poucos quilómetros de distância, em Vila Nova de Cerveira. “Era a cidade da minha vila. Sempre que ia comprar umas calças de ganga lá ia eu [a Viana]”. Gustavo Pereira sublinha que “na altura o Raul tinha boas relações com o Turismo de Viana e a Câmara municipal”. E Duro desenvolve: “A minha mãe trabalhava na antiga região de turismo do Alto Minho, e a dada altura fizemos um evento no Forte de Santiago da Barra. Chamou-se Vi a Ana no Castelo, uma espécie de ano zero, só com artistas nacionais, e correu muito bem. No ano seguinte fomos convidados pela Câmara para fazer algo maior.”

 

Primeiro estranha-se, depois entranha-se

Não obstante o apoio do executivo camarário, a população começou por olhar o festival com desconfiança. Como (quase) sempre acontece. “No início as pessoas estranhavam”, reconhece Paulo Amaral,o terceiro sócio. “Estávamos a fazer um festival de electrónica com uma licença inédita, sem problemas de horários até às nove da manhã, no centro da cidade. A aceitação foi gradual. Lembro-me da primeira vez que chegou a PSP, a pedir para mostrarmos a licença. Ele teve de olhar três vezes para o papel para ver que era mesmo até às nove. Não queria acreditar.”

 

“Mas cidade foi abraçando cada vez mais o festival”, assume Raul Duro. “As pessoas foram-se habituando e ganhando vontade de, ano após ano, ir recebendo os festivaleiros. Até porque o nosso público vai para Viana e gasta dinheiro – o comércio ganha, os restaurantes ganham, os hotéis ganham.” Gustavo vai mais longe e diz que “é um evento que atrai milhares de pessoas a Viana do Castelo, pessoas que têm poder de compra. A época alta nos alugueres de casas de férias é na semana do Festival Neopop. Há também uma preocupação em associar o máximo de pessoas da cidade ao nosso evento e tentar de ano para ano abrir o festival à cidade. Nós temos orgulho em Viana do Castelo e também queremos que Viana tenha orgulho no Neopop.” Nuno Branco é incisivo: “De algum tempo a esta parte a sintonia tem sido perfeita.”

 

O facto de o festival ter crescido e melhorado as condições com o passar dos anos também terá contribuído para esta sintonia. “No ano passado, nas reuniões de follow-up com [a Câmara municipal] acharam estranho porque não tinham tido uma única queixa do ruído. E este ano contamos com o mesmo. Melhor qualidade para quem está no recinto, e menos chatices para quem está fora”, assume Paulo Amaral, que apesar de estar com o Anti-pop desde o início só é um dos sócios desde que o festival passou a chamar-se Neopop.

 

Uma nova era

O nome mudou em 2009. Um processo que Gustavo Pereira recorda e evoca com naturalidade. “Foi uma ligeira mudança de rumo e uma arrumação na casa. Tivemos de repensar a estrutura e o conceito e por respeito aos nossos antigos parceiros decidimos alterar ligeiramente o nome. E, como era uma nova era, Neopop ficou.” Raul Duro desenvolve: “Também quisemos dar uma volta ao festival. Por isso pusemos um nome diferente, mais futurista, mais amigo das marcas. E ficou muito bem.” Foi uma mudança “consensual”.

 

O festival tem crescido de um modo sustentado e sustentável. “O público cresce 10% [de edição para edição]. Todos anos confirmamos mais e melhores nomes. Os artistas gostam de vir ao Neopop. Sabem que vão ter bom som, boa comunicação, um bom palco”, explica Raul Duro. Nuno Branco, por sua vez, fala nos melhoramentos logísticos, “como por exemplo a criação de uma área de restauração com uma oferta variada e de qualidade, um recinto para camping ou shuttles gratuitos do Porto e Vigo para o festival.”

 

Este crescimento tem trazido consigo uma maior diversidade. Inclusivamente a nível musical. “Foi essa diversidade que fez surgir um novo conceito dentro do festival, o Antistage”, assume Pedro Rebelo. “Com a criação do Antistage alcançamos um público que se direcciona para uma vertente mais underground da música de dança e que prefere espaços de menor dimensão”, atira Nuno Branco. Bem vistas as coisas, o segundo palco introduzido por ocasião do décimo aniversário do Neopop, em 2015, é uma espécie de ponte entre o passado – patente no nome – e o futuro – as apostas arriscadas de hoje são, muitas vezes, os nomes seguros de amanhã.

 

Um futuro que passa também por chegar a cada vez mais estrangeiros – espanhóis, mas não só. “A nossa visão é que o festival pode crescer em Portugal mas também deve crescer no estrangeiro e atrair esse mesmo público para Viana do Castelo, Minho Litoral e norte de Portugal. Hoje contamos com umas dezenas de nacionalidades diferentes”, assume Gustavo. Isto apesar de os portugueses continuarem a ser a maioria. Afinal, “há gente que vem desde o início e se tem mantido”, como Paulo Amaral refere com orgulho.

 

Onde é que estão os cabos eléctricos?

12 anos de história trazem consigo “imensas” histórias para contar, nas palavras de Gustavo Pereira. Raul Duro concorda, e dá exemplos: “Conheço caras e conheço gente que vem todos os anos porque lhes resolvi problemas quando o festival era mais pequeno – arranjar um sitio onde dormir, arranjar um mecânico para o carro que se avariou, encontrar algo que se perdeu no festival.” Paulo Amaral é ainda mais específico. “No primeiro ano do Anti-pop nem toda a equipa tinha tanta experiência de produção como hoje. E três dias antes do ínicio percebemos que ninguém tinha tratado dos cabos de electricidade. Depois andámos uma noite inteira a fazer telefonemas para a tentar arranjar uma solução.”

 

Pedro Rebelo, por sua vez, recorda os últimos momentos do Neopop do ano passado... “Ambos os palcos estavam encerrados, mas um dos organizadores do festival decidiu surpreender o público restante e veio chamar-me para tocar com ele. Foi muito estranho para mim deixar por momentos o papel da produção do festival e vestir a camisola de DJ. Toda a minha atenção estava direcionada para a desmontagem do festival, e de repente vi-me munido de headphones em vez do rádio intercomunicador.”

 

No entanto, nenhuma história bate a de Raul Duro, em 2009. “O meu filho Tomás nasceu no primeiro ano do Neopop, em 2009, às nove da manhã do último dia. Só não vi a ultima actuação, porque o meu filho estava mesmo a nascer e tinha de estar com a minha mulher. Às 9.20 recebo uma chamada da Câmara, da Dra. Flora [Silva, vereadora e cúmplice de longa data], a dizer que ainda não tinha acabado o festival e já passava da hora. Eu disse que estava no hospital, porque o meu filho tinha nascido, e ela nem me disse mais nada. Nesse ano a música durou até às dez.”

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