Paulo Pimenta

Festival

O Milhões de Festa começou lá atrás com as bandas que abriram caminho para a cena de Barcelos

A chegar à marca das dez edições, oito delas em Barcelos, o festival é considerado a consolidação de um movimento iniciado por bandas que começaram a dar os primeiros passos ainda nos anos 1990. O evento teve e tem um papel fundamental na validação de projectos que até chegarem ao Milhões nunca tinham tocado num palco grande

Texto de André Vieira • 13/07/2017 - 16:16

Distribuir

Imprimir

//

A A

Na segunda metade dos anos 1990, os Weird Nox, de Barcelos, vão tocar a Rio Tinto. Os membros da banda que tinha como principal influência os Young Gods não queriam acreditar na oportunidade que iam ter. Têm o caminho aberto para tocar no Grande Porto e, mais importante do que tudo, pela primeira vez teriam um PA disponível e retorno de som no palco. “Um luxo. Na altura, nem nos passava pela cabeça tocar no Porto. Em Barcelos já era fixe, tocar em Braga era espectacular, em Rio Tinto era um mundo”, conta João Pimenta, vocalista e um dos fundadores da banda, a primeira de muitas que se seguiram.

 

Não foram sozinhos. De Barcelos chegaram a Rio Tinto à boleia dos Kafka. Como era habitual na altura, o concerto fazia parte de um concurso de música moderna. Tocavam três bandas. Além destas havia uma que era “da casa” — os Má Fama — “com membros da claque Super Dragões”. Era a final do concurso e estavam 400 pessoas para assistir, “300 eram da claque”.

 

Chegam ao recinto e o organizador diz-lhes que vão ficar em último lugar e os Kafka em segundo. “Então, mas ainda nem tocamos”, exclama o vocalista. “Não interessa, isto aqui tem uma hierarquia. Já foi fixe virem à final”, diz ter ouvido como resposta. “Ainda lhe agradecemos. Para nós já era bom ter um PA.”

 

À última da hora “deu uma luz ao organizador” que terá percebido que os Kafka “eram muito melhores”. Chama-os e diz-lhes: “Vão buscar os carros para aqui e liguem os quatro piscas”, recorda Pimenta. É comunicada a decisão e ouve-se uma assobiadela “monumental”. “De repente, há quem me venha perguntar se sei quem são os Kafka. Só consegui responder que é um escritor”. A cara com que ficam a olhar para o vocalista dos Weird Nox convenceu-o de que o melhor a fazer seria sair dali quanto antes. Escapam ilesos e com uma história para contar.  

 

Durante o percurso da primeira banda de João Pimenta foram gravadas duas maquetas, a primeira editada em cassete. “Não tinhamos dinheiro para mais. Agora quer tudo gravar em cassete outra vez, quem nos dera na altura ter gravado em CD”, diz em tom de brincadeira. Depois dos Weird Nox, fundou os Green Machine, Alto!, experimentou sonoridades mais extremas como o metal e, já no Porto, passou pelos Botswana e criou os 10 000 Russos, banda actual, onde, além de vocalista, é também baterista. Ao longo destes anos foi assistindo à progressão do underground nacional, que, com as falhas que ainda existem, está distante desta realidade que aqui conta, sobretudo na sua terra natal.

 

Da música de baile ao rock'n'roll

Manuel Melo, radialista, nascido na cidade minhota há 52 anos, recorda-se de uma altura em que em Barcelos as bandas que lá existiam ou tocavam música de baile ou versões de bandas pop rock. Foram bandas como Astonishing Urbana Fall, This Isn't Luxury, Kafka e Weird Nox, já numa fase final “da primeira vaga” de bandas de Barcelos, que abriram caminho para o que se seguiu, recorda Melo, que há 25 anos faz o programa Sinfonias de Aço numa rádio local.

 

Quando essas bandas começam, o caminho é trilhado por terreno quase virgem. Na cidade não há espaços específicos para tocar e os que esporadicamente organizavam concertos não garantiam as melhores condições. Com algumas das experiências falhadas de bandas anteriores aprenderam as que se seguiram.   

 

Tocar nos grandes palcos só acontece quando os Astonishing Urbana Fall tocam na 4.ª edição de Paredes de Coura ou no regresso de Vilar de Mouros, em 1996, ou quando os Kafka chegam à Zambujeira do Mar, ainda numa versão diferente do festival do Sudoeste.  

 

Paulatinamente, foram surgindo mais bandas na cidade. Os Green Machine, segunda banda de João Pimenta, é para Manuel Melo um elo de ligação importante entre a primeira vaga e a segunda, composta agora por bandas como Black Bombaim, Glockenwise ou Killimanjaro. Na viragem de século, os Green Machine começam a furar o underground nacional e a aventurar-se fora de portas com alguns concertos no estrangeiro. Com uma sonoridade próxima do blues rock, influenciam “outros miúdos” que começam a formar bandas no final da primeira década de 2000. Surge então a chamada “cena de Barcelos” — mas ali, diz Melo, há bandas de todos os género, “do hip-hop, passando pelo rock, até ao metal”, ao contrário do que acontece noutros sítios, como Sintra, conotado com o punk hardcore, ou Caldas da Rainha, mais ligado ao lo-fi.

 

Na sequência da primeira vaga e a acompanhar o surgimento da segunda, surgem também os primeiros promotores. “Sem a primeira vaga se calhar não tínhamos um Fua ou outros promotores como o Ilídio Marques”, diz. Fua é Joaquim Durães, fundador da promotora Lovers & Lollypops e do Milhões de Festa. Não que Melo ache que não teria eventualmente seguido um caminho semelhante, mas mais porque entende ter sido a experiência vivida em Barcelos que o terá feito seguir a linha que escolheu para a promotora que organiza o festival. Será também por isso, e tendo em conta a diversidade de géneros das bandas que lá existem, que o Milhões de Festa é também um festival que não se prende a um estilo específico? Melo acredita que esse possa ser o motivo.

 

De alguma forma acredita que o festival foi importante na consolidação de algo que “já vinha de trás”. Um festival onde, à excepção do ano passado por motivos de força maior, volta todos os anos para se surpreender com algumas bandas das quais nunca ouviu falar. “Talvez o Milhões tenha ocupado o vazio deixado pelo Paredes de Coura que era também um sítio onde se ia para conhecer novas propostas”, diz. Contribuiu também o festival para validar estilos de vida alternativos na cidade: “Na minha altura bastava ter cabelo comprido para sermos olhados de forma diferente. Hoje ninguém liga a isso”.

 

Joaquim Durães, também de Barcelos, arranca com a Lovers & Lollypops, no Porto, em 2005. Depois de ter estado em Barcelona, sentiu a necessidade de emular o espírito que lá se vivia a nível musical. Começa o promover concertos de bandas que gostava de as ver por cá. Complementarmente à organização de concertos aventura-se no campo da edição discográfica. A primeira banda a assinar pela editora foi um grupo de Barcelos, os Green Machine, de João Pimenta, que também fez parte da génese da Lovers, embora tenha saído, conta-nos o próprio, por perceber que Joaquim Durães tinha já uma visão muito bem definida do que queria fazer. “Não queria atrapalhar um projecto que não era o meu”, conta.

 

O Milhões de Festa também se inicia no Porto, passa por Braga e chega a Barcelos há oito anos. O motivo para levar o evento para Barcelos prende-se, diz-nos, com a necessidade de criar no sítio onde nasceu um festival para os barcelenses, ainda que considere ser um evento feito para todos. Não é fácil para o organizador fazer um balanço da influência que o festival terá tido na cidade. Fua, que no discurso não transparece qualquer pretensiosismo, diz apenas esperar estar a contribuir com algo de válido que possa fazer a diferença para o público e bandas locais. Ao fim de dez anos, está longe de achar que a missão está cumprida, “se assim fosse não valia a pena continuar”. Quer no futuro ter um festival que cada vez mais ultrapasse as “quatro paredes” onde decorre e se estenda ainda mais ao resto da cidade.

 

Terá sido o festival o motor para a criação de uma cena musical ou a cena musical o ponto de partida para o festival? Estão as duas coisas estreitamente relacionadas, afirma Durães.

 

A rampa de lançamento do Milhões

Foi no Milhões, no entanto, que muitas das bandas de Barcelos tocaram pela primeira vez num palco grande, diz Pedro Oliveira, ou Sonic como é conhecido, que tocou bateria em bandas como Weird Nox, Kafka, Green Machine e actualmente está com Old Jerusalem, peixe:avião, Projecto OZO e de vez em quando dá uma perninha nos La La La Ressonance, banda que nasce das cinzas dos Astonishing Urbana Fall. “Foi ali que bandas como Black Bombaim, Glockenwise ou Killimanjaro (da segunda vaga) se estrearam num palco grande”, conta.

 

Apesar de antes do Milhões já ter “rebentado o segundo boom de bandas”, acredita ter sido o festival fulcral para a materialização de uma estrutura maior. “Se há uns anos as condições para tocar não eram as melhores, hoje há um festival que permite às bandas poderem tocar a outro nível”.

 

De acordo com Sonic, o festival terá incentivado mais gente a formar uma banda numa cidade onde “não há muito para fazer”. Será esse o segredo, diz, para o número de bandas que foram surgindo ao longo dos anos. Durante algum tempo foram aparecendo alguns espaços para tocar, como é exemplo a Casa Azul e o Xispes, que entretanto fecharam. “Continua a ser uma lacuna. Não existe actualmente um bar de concertos”, algo que gostaria de ver ser alterado num futuro próximo, por acreditar existir público em número suficiente para isso. “Se for a Braga ou ao Porto ver um concerto vejo sempre caras daqui. Se vão a essas cidades é porque há interesse. Ao contrário, pode também o público de outros sítios vir cá, como acontece com o festival”, sublinha.

 

Acima de tudo acredita que o festival se transformou no que é hoje porque foi feito “com pés e cabeça”. Foi isso que terá também ajudado a validar o evento junto da população de Barcelos que já “aceitou” o festival. Ao fim de dez anos de Milhões, oito deles em Barcelos, tem a certeza que o evento “já deixou pegada cultural”.  

Voltar ao topo

|

Corrige
Eu acho que