Pedro Moutinho

Crónica

Portugalzinho burguês do bem parecer

Isto é o Salvador e esta é a sua forma genuína de ser. Característica que falta ao povo português

Texto de Estefânia Barroso • 27/06/2017 - 15:34

Estefânia Barroso é professora de Português e de Educação Especial

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No dia 27 de Junho, num momento nunca visto em Portugal, reuniram-se num espetáculo memorável, vários artistas (Penso que 25) num concerto destinado a angariar fundos para apoiar as vítimas de Pedrógão. A estes artistas juntaram-se várias rádios do país. E todos nos juntámos em frente à televisão, como nos tempos antigos, a ver um programa que durou horas. O dinheiro angariado, entre pessoas que compraram o bilhete, mais as pessoas que compraram o bilhete solidário (15 euros para ajudar, tendo o “direito” de assistir ao concerto via TV ou rádio) mais as chamadas telefónicas permitiram angariar mais de um milhão de euros para as vítimas deste flagelo.

 

Eu fui uma das que assistiu ao concerto via televisão. E gostei do que vi. Artistas emocionados mas nada de discursos bacocos a apelar ao sentimento. Bons artistas, procuraram cantar temas mais conhecidos ou até temas bem-dispostos da sua lista de sucessos, pretendendo criar um concerto de qualidade, que prendesse o espetador em frente à televisão durante algumas horas e o levasse a contribuir para essa causa. A entrada dos artistas também foi interessante. Para que se não dissesse que se enchia o tempo com os menos famosos, relegando os mais famosos e importantes para o final, decidiu-se que os artistas fariam a sua entrada por ordem alfabética. O que levou a que tudo se iniciasse com “Os Agir” (a forma como José Rodrigues dos Santos mostrou desconhecer o menino Bernardo), passasse pelos Amor Eletro, Ana Moura, Camané, Dama, entre tantos outros. Quis o destino, e o nome do jovem, que fosse o novo herói nacional, Salvador Sobral, a fechar este grandioso concerto. E é aí, perto da uma da manhã, que se dá o grande momento, que terá roubado o sono a mais de um português. Entre uma excelente versão da Joni Mitchell e o maravilhoso “Amar pelos dois”, Salvador referiu “Eu sempre que faço qualquer coisa, vocês aplaudem. Vou mandar um peido para saber o que acontece”. Caiu um balde de água fria no Meo Arena. Ouviram-se risos, algo nervosos, e mais palmas. É claro que o incidente não poderia passar em claro nas redes sociais!

 

Vamos todos falar com o Salvador, usando para isso a melhor arma que temos neste momento: as redes sociais!!! Vamos criticá-lo! Chamá-lo à razão porque todos nós somos arautos da verdade!!! Porque todos nós nos sabemos comportar em público!!

 

“Salvador, esse não é o local, nem é a ocasião! Que comentário mais despropositado!”;

 

“Sabes, Salvador, essas palmas não são para ti! São aplausos de apoio dos presentes às vítimas dos incêndios e aos bombeiros! Este é o nosso contributo e este momento deve ser vivido com muita seriedade!”;

 

“Salvador, estragaste um momento solene!!! Por que raio foste tu a fechar o concerto???”(Dos presentes era o teu nome o último por ordem alfabética mas a verdade é que não podias fechar um concerto tão importante!)

 

“Não te sabes comportar, Salvador!!!”

 

O facto é que adoramos andar de dedo em riste. Adoramos passar pessoas de bestiais a bestas. O Salvador passou de um jovem que pouca gente conhecia para um dos artistas portugueses que mais vende em Portugal. Passou de concertos onde tinha, como público, pouco mais de 200 pessoas, para concertos esgotados. Passou a ser bestial gostar deste Salvador da Pátria.

 

Querem fazer-me acreditar que Portugal descobriu e adora a música do Salvador? Duvido. É o novo herói nacional, levou o nosso nome além-fronteiras e agora é “chique a valer”, como dizia a personagem do Eça, gostar do Salvador. E o Salvador, que provou e mostrou ser muitíssimo inteligente, percebeu isso. Sabe que o sucesso é efémero. Sabe que as pessoas passaram a gostar dele mais do que, propriamente, da sua música. Reagem, sobretudo, ao “Amar pelos dois” e à sua imagem, ligeiramente desmazelada, ligeiramente “fora da caixa”. Ora, para quem gosta de cantar como ele provou, para quem venera a música da forma que ele a venera, isso não deixa de ser complicado de aceitar. Coloca-se, de certeza, a dúvida: “gostam da minha música ou gostam apenas de mim?” Daí ter colocado a questão da sua possível flatulência. Bateriam palmas a um peido dado em sintonia com a música? Sim, foi um comentário um pouco despropositado. É a sua imagem de marca. Em entrevistas já disse várias vezes que ele tem essa tendência para dizer o menos adequado nestas ocasiões. Isto é o Salvador e esta é a sua forma genuína de ser. Característica que falta ao povo português. O Salvador já mostrou ser essa personagem. Nem sempre conveniente nas suas palavras. Obviamente um miúdo que fala antes de pensar. No fundo mais não vejo que alguém que tem dificuldade em lidar com uma fama enorme que lhe chegou demasiado depressa. O jovem já se veio retratar. Assumiu que foi um pouco exagerado. Quanto a mim…um desabafo, que nada de tem de importante. Viremos as nossas foices e as nossas iras contra o que realmente é importante. Viremos as nossas vozes para exigir respostas e tentar compreender o que realmente aconteceu em Pedrógão! Deixemo-nos de iras e raivas vazias que apenas são ouvidas porque existem redes sociais. Demos todos uma gargalhada… não é uma besta… sigamos em frente!...

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