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Francisco Noronha vive no Porto e estuda Direito

Francisco Noronha vive no Porto e estuda Direito. É dos que acreditam que ainda há quem queira ler textos longos na Internet

“Jazz Thing”, Gangstarr

Harald Walker/Flickr

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Crónica

Jazz de cima para baixo, Hip-Hop de baixo para cima

O jazz e o rap, similares na origem, buscam, hoje, processos de democratização de sentido oposto: o jazz, de cima (elites) para baixo (classe média e baixa); o hip-hop, de baixo para cima

Texto de Francisco Noronha • 17/01/2012 - 10:47

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O jazz nasceu, na América, no início do século XX, no interior das populações mais pobres, sobretudo os africanos que para aí haviam emigrado e que haveriam de formar a hoje icónica comunidade “afro”. Hoje, mais de um século depois, nas sociedades capitalistas ocidentais, o jazz é, predominantemente, música erudita para eruditos, ouvido e praticado por uma certa elite cultural.

 


O rap (e depois, com ele, o hip-hop) nasceu nessa mesma América, nos anos 60/70 desse mesmo século, e também entre as comunidades mais desfavorecidas da "east side" nova iorquina, as dos negros aquartelados em guetos urbanos (Bronx, Brooklyn, Queens), para quem as vitórias do movimento dos "civil rights" ainda pouco ou nada se faziam sentir. Do ponto de vista social, tanto o jazz como o hip-hop funcionaram como escapes e, mais do que isso, como agentes de emancipação social dos artistas negros, circunstância que, no hip-hop, atingiu níveis extremados, o que é visível na opulência, obscena e nova-riquista, que alguns (avatares de) "rappers" passeiam.

 


Actualmente, passados quase 50 anos, o rap, não obstante ser ouvido e praticado um pouco por todas as camadas sociais (até pela massificação e descerebração de que foi vítima pela MTV, pela indústria discográfica e, reconheça-se, pelos próprios artistas), numa expansão que só é de louvar, a verdade é que ainda é associado a franjas da sociedade mais excluídas, economicamente débeis e iletradas. É o suficiente para continuar a ser relacionado com a violência e a marginalidade, como se fosse um adereço simbólico do crime urbano. É degradante, mas não é exclusivo dos menos instruídos; ainda há coisa de um ano, um cronista do "Diário de Notícias", o sociólogo Alberto Gonçalves, escreveu, a propósito de uma notícia avulsa (a morte, a tiro, numa operação stop, de um "rapper" português por um agente da PSP, entretanto dado como culpado nos tribunais), que o rap era música de delinquentes.

 

Nos dias de hoje, creio estarmos a assistir a um processo em que os dois géneros, o jazz e o rap, similares na origem, buscam processos de legitimação/democratização de sentido oposto: o jazz, de cima (elites) para baixo (classe média e baixa e, de um modo geral, a população menos letrada); o hip-hop, de baixo para cima. Note-se que me refiro ao panorama português, já que, nos EUA, há muito que o rap é consumido avidamente tanto pelos jovens do Bronx como por intelectuais e músicos de formação. Se virmos as coisas mais de perto, nota-se que enquanto o jazz, no movimento de cima para baixo, está em claro processo de democratização, o hip-hop, no seu trajecto "bottom-up", conhece um processo que é, fundamentalmente, de legitimação. Os dois processos entroncam num problema central: o da democratização do acesso à cultura e, no caso do rap, o da resistência (ignorante) de um certo snobismo intelectual.

 


Talvez um dia ambos os géneros estejam de tal forma disseminados (democratizados) que possamos ver os The Roots a actuar, numa Casa da Música, para o Zé e para o… Prof. Doutor José. Enquanto isso não acontece, uma sugestão: oiçam os Gangstarr, “Jazz Thing”.

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