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Entrar na casa daquelas pessoas foi uma experiência “incomensurável”

Entrar na casa daquelas pessoas foi uma experiência “incomensurável” Vera Marmelo

O projecto já cumpriu a sua missão

O projecto já cumpriu a sua missão Vera Marmelo

Vera Marmelo

Música

Um disco de comer à colher, para matar a fome em Rabo de Peixe

“Tudo É Vaidade”, de Jónatas Pires, queria contribuir para que todos os alunos do 1.º ciclo de Rabo de Peixe tivessem refeições até ao final do ano lectivo. Missão cumprida. Agora o disco vai ter uma edição com duas faixas extra e um DVD

Texto de Inês Nadais • 11/01/2012 - 11:50

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Quando Jónatas Pires chegou, no Verão passado, ao Acampamento Baptista de Água de Madeiros – um ritual anual do músico da Flor Caveira e vocalista da banda Os Pontos Negros –, não sabia que ia sair de lá com uma missão transatlântica. “Foi um passo de cada vez”, conta ao P3 agora que “Tudo É Vaidade”, o disco que gravou na sequência do acampamento, já cumpriu a sua missão (mas a luta continua): “Neste momento, já várias crianças de Rabo de Peixe têm refeições garantidas até ao final do ano lectivo: ao todo, o projecto está a apoiar 25 miúdos, nove dos quais do 2.º ciclo. O disco fez de facto diferença”.

 

Antes de “Tudo É Vaidade”, Jónatas nunca tinha estado em Rabo de Peixe, uma comunidade piscatória açoriana de 7.500 habitantes que regularmente tem os seus 15 minutos de (má) fama associada à fome, à pobreza e ao analfabetismo (16,6 por cento da população, de acordo com os Censos de 2001). No Verão passado, também foi notícia em Água de Madeiros, por causa de um casal de professores de Viseu que, chegado a Rabo de Peixe, se deparou com “carências gravíssimas” – “miúdos que passavam fome, que no Inverno iam para a escola sem casaco” – e montou um esquema para financiar, inicialmente com os seus próprios rendimentos, senhas de refeição para os alunos necessitados de ajuda alimentar.

 

Ainda em Água de Madeiros, Jónatas montou um esquema paralelo e decidiu gravar um disco cujos lucros revertessem, na totalidade, para a ajuda alimentar. “Os cento e tal jovens do acampamento compraram o disco de antemão e tornaram-se co-financiadores do projecto. Com isso gravámos o disco e pudemos fazer 1001 cópias físicas, que vendemos em menos de dois meses. Entretanto, já fizemos outros 400 discos. Tudo colado e embalado à mão ”, explica o músico.

 

Meses depois, Jónatas estava num avião em direcção a São Miguel com a fotógrafa Vera Marmelo, o videasta Ben Monteiro, outro rapaz Flor Caveira (é baterista d’Os Lacraus), e a missão de registar, para memória futura, o impacto de “Tudo é Vaidade” em Rabo de Peixe. Entrar na casa daquelas pessoas foi uma experiência “incomensurável”, diz a fotógrafa ao P3: “De repente tens uma pessoa à tua frente e a agradecer-te por tudo. E os professores a dizerem-te que os miúdos estão mais concentrados na escola, portam-se melhor, adoecem menos…”.

 

Parte da memória desses encontros está nas fotografias, outra parte nunca sairá da cabeça dela. “Não me vou esquecer da dureza na cara dos miúdos, das cicatrizes das brincadeiras, dos olhos tristes. Não me vou esquecer das mães, que choram que se desunham. Não me vou esquecer daquele ambiente de gueto rodeado de uma beleza natural incrível. Nem da miséria: quando chegámos os pescadores estavam há cinco dias sem ir para o mar, não havia dinheiro nenhum a entrar”, explica.

 

O material registado nessa viagem vai agora dar um documentário que será incluído numa versão actualizada do disco, com duas faixas extra, a lançar em breve (os detalhes irão sendo postados no Facebook do “Tudo É Vaidade”). Entretanto, a primeira versão continua à venda no “site” da Flor Caveira – cada disco custa cinco euros, cada semana de refeição na escola não chega a um euro e meio, é fazer as contas. E Jónatas continua a despachar remessas ao cuidado do casal de professores que quer ajudar a matar a fome em Rabo de Peixe.

 

Notícia corrigida a 14/01/2012

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