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Vitor Joaquim

Vitor Joaquim é professor de Som e Imagem da Universidade Católica do Porto

Tó Trips, um dos elementos dos Dead Combo Paulo Pimenta

Pedro Cunha

Maria Antónia Mendes, vocalista da Naifa

Crónica

O fado e o tubérculo

A cultura nacional enriquece quando as pessoas começarem a valorizar o que é nosso, acreditando e comprando

Texto de Vitor Joaquim • 28/11/2011 - 12:13

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Esta coisa do fado é como um tubérculo, não se sabe muito bem onde começa nem onde acaba. Toda a gente fala, toda a gente posta, toda a gente comenta e ninguém sabe ao certo o que está em causa. Desde logo a questão de pertencer ao Património Mundial. Para o caso, tanto faz ser material como imaterial, a malta quer é estar lá em cima. Seja lá porque for. Sabe bem, e pronto.

 

Mas além de parecer um tubérculo, a coisa também alastra como as ervas daninhas. Cresce por todo o lado e não há pedaço de terra ou "web" que lhe escape. E como é domingo e o tempo é elástico, pus-me a apreciar os comentários. Primeira questão: comentários há poucos, a malta quer é "posts" no Facebook. Que é como quem diz, dá-lhe com "copy/paste".

 

Todos querem ser os primeiros, portanto para quê comentar, é espetar e pronto. E depois? O que vem a seguir? Claro está, outro "post-it"! E outro e outro, até à saturação do terreno. A malta posta primeiro, e não critica depois. Por favor, passem por cima do meu aportuguesamento do termo “posta”. Se “homem” na nova versão de português se escreve com “h” (contra todas as regras do novo desacordo) então eu, que sou contra o acordo, também acho que tenho direito a expressar-me criativamente.

 

Segunda questão: numa sucessão de comentários no Facebook, coloquei uma outra questão que nos traz a esta questão (a repetição é mesmo assim, defeito). E a questão foi: quem conhece meia dúzia de outros patrimónios imateriais da humanidade? Pelos vistos ninguém se deu ao trabalho de responder. Ou porque não sabe, o mais provável, ou porque não sabe, quase certo. Portanto, por dedução, arrastamento ou comparação, é muito provável que fora de Portugal este fenómeno acabadinho de estrelar, tal como os ovos, acabe por passar despercebido.

 

Afinal de contas, se nós não conhecemos os outros patrimónios e se não nos importamos com isso, porque razão os outros hão-de ser diferentes? Serão os cantos tuva igualmente património? As percussões do Bali?... lol, não me façam rir! O povo é mesmo assim, gosta destas parangonas para se sentir feliz e eventualmente util. Ontem foi o Sporting-Benfica, hoje é o fado.

 

Terceira questão: e se em vez de "copy/paste" as pessoas começassem a pensar, tomassem a oportunidade em mãos, e por uma vez que fosse, mudassem os seus patéticos hábitos? Já que o fado hoje está nas bocas do mundo, vamos falar do além-fado. E já que amanhã ninguém se vai lembrar de nada, decidamo-nos hoje a falar da nossa visão do fado.

 

Hum... a minha visão do caso, diz-me que isto está muito mal montado... Primeiro porque não foi o fado, mas sim o fado de Lisboa que foi “elevado”. E depois, porque Coimbra navega (navegava?) com uma candidatura paralela e os coimbrões debatem-se agora sobre o que é ser um bom coimbrão: se um que distinga o fado de Coimbra do de Lisboa, ou o contrário. Que confusão, ainda agora o bezerro nasceu e já se lhe estão a descobrir patas a menos.

 

Adiante, ouçam e comprem música portuguesa, seja ela fado ou não. E porque o espaço é pouco, fico-me por 3 recomendações natalícias de outros grandes modos de fado que banham a nossa imensa alma latina (a comprar, nada de pirataria). Falo de a Naifa, Dead Combo, e de Lula Pena. E se há um ponto a sublinhar neste meu texto, algo confuso e caótico, é que (1) culturalmente andamos a dormir desde sempre, e (2) que por mais "post" que se coloquem no Facebook a dar a boa nova, não é por essa razão que o país progride culturalmente.

 

E de um ponto passei a dois. A cultura enriquece quando as pessoas passam dos "posts" às acções, se levantam para comprar discos e livros, e gastam dinheiro a ver artistas portugueses em vez de mamarem toda a estrangeirada que as agências lhes enfiam pela boca abaixo.

 

A cultura nacional enriquece quando as pessoas começarem a valorizar o que é nosso, acreditando e comprando. Acreditando, pagando "cachets" dignos aos artistas em vez de os chantagearem ameaçando não os convidar nunca mais se não aceitarem trabalhar a custo zero, como foi o recente caso dos Evols com uma "conceituada" promotora de espectáculos.

 

A cultura e o enriquecimento cultural faz-se continuadamente com acções, colaborando com os agentes, não com "post"s despersonalizados de "copy/paste" sem qualquer opinião ou envolvimento pessoal. A realidade já está aí há muito tempo. Já tínhamos Fátima e Futebol por todo o lado, agora chega-nos o Fado... Uma fadista da nossa praça diz que o fado se deveria ensinar na escola. Hum...Hino nacional cantado em versão fado, todas as manhãs ao despertar?... A trilogia do "outro" vai-se consumar e sublimar em quarteto com o 4º F. Fátima, Fado e Futebol no Facebook!... F até enjoar! ;)

 

Notas ainda mais caóticas: 1- O business já começou com um “CD de fado vendido em caixa de filigrana de ouro”, sendo que, segundo o texto do link apontado, "... a maior particularidade da colecção é o facto de integrar uma caixa de CD decorada com filigrana, ...". Lindo, digno da melhor antologia jornalística tuga.

 

A outra parte do mesmo “acontecimento” é que no "pack" de artists aparece por exemplo o Tony de Matos... 2 - Sobre como os espanhóis já acordaram para o flamenco há dezenas de anos integrando-o noutras formas artísticas, ver os casos de Triana (rock progressivo, 1974) e de Israel Galvan (dança contemporânea). 3 – Por fim, e não menos importante, uma nota de grande agradecimento à “jovem prostituta” Severa, que no dizer das palavras de Rui Vieira Nery (se a minha memória auditiva não me trai) foi o primeiro grande ícone do fado de Lisboa, um nome celebrado e lembrado “ever since then”.

Eu acho que

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