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Entrevista

A Criada Malcriada pode ser analfabeta, mas já tem um livro

Era, e continua a ser, uma página no Facebook com desenhos de um inspirado anónimo sobre uma patroa c-h-i-q-u-é-r-r-i-m-a e uma criada muito paciente. Agora chegou a livro

Texto de Amanda Ribeiro • 24/06/2013 - 00:19

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Malcriada ou Má Criada, o que é certo é que é o "fenómeno do ano no Facebook". Pelo menos é o que está na capa do livro, agora editado pela Objectiva — e, já se sabe, se está escrito é porque deve ser verdade. A Criada Malcriada começou por ser apenas uma página no Facebook, onde, no final de 2012, um tradutor, que se mantém anónimo, se atreveu a ilustrar (ok, a rabiscar) a relação/luta de classes entre uma criada, que até tem bem pouco de malcriada, e uma patroa (perdão, senhora!) c-h-i-q-u-é-r-r-i-m-a. No dia 27 de Junho, na Livraria Ler Devagar, na Lx Factory, os três estarão a dar autógrafos no lançamento do livro. Entretanto, fica a entrevista a seis mãos.

 

São "o fenómeno do ano no Facebook". Pelo menos, é o que está na capa do livro. É uma boa ou má notícia?

Autor: Não só é boa notícia, como dá um título fantástico para artigos de jornal. Gosto da frase. Acho bonita. Insisti que acrescentassem "em todo o Mundo", mas a editora não quis. Aliás, nem responderam a esse e-mail. Bom, confesso que era a quarta proposta que lhes fazia. A primeira era "O livro preferido da Oprah". A segunda, "Mais de dois milhões de exemplares vendidos". A terceira: "O livro que destronou Dan Brown do top do 'New York Times". A essas três a editora respondeu, simpática mas categoricamente, que não.

 

Um tradutor com uma página de tiras no Facebook que, agora, é editada em livro. Esta história está bem contada?

Autor: Parece estranho? Bom, então vou contar a verdade, mas não divulguem, por favor, porque acho que é crime. Há uns dois anos, encontrei numa feira em Nova Iorque um livro chamado "The Rude Maid", onde vinham estas tiras todas. Custou-me três dólares (no fundo, custou menos porque trazia uma senha que dava direito a um café). Há uns meses, lembrei-me de digitalizar os desenhos, traduzir as falas e publicar no Facebook. Na editora, não fazem ideia de nada disto. Aliás, para disfarçar, o título da página era para ser: "Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa no desenho que fizesse, nesse céu onde o olhar é uma asa que não voa, esmorece e cai no mar, que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração". Mas um amigo advogado (que por acaso agora está preso, coitado) avisou-me que era duplo plágio e que as probabilidades de ser apanhado eram muito maiores.

 

Os desenhos já lhe trouxeram a "fama mundial, rios de dinheiro e 'um telefone daqueles que dá para abrir as fotografias com os dedos"?

Autor: Curiosamente, apesar de anónimo, sou muito mais conhecido fora de Portugal do que cá. É um fenómeno estranhíssimo. Ou talvez não. Ainda outro dia, numa discoteca muito famosa em Londres onde tentava entrar de calções de banho e havaianas, e na altura em que estava a ser arrastado pelo porteiro para fora da fila, um tipo inglês, com ar de grande conhecedor destas coisas gritou-lhe, "Hey, man! This guy is like the Portuguese Banksy!". O que em português quer dizer qualquer coisa como, "Olha lá, não estejas a bater neste gajo, ele é o fenómeno do ano no Facebook". Mas soa melhor em inglês. Quanto aos rios de dinheiro e ao telefone, ainda nada. Mas ouvi dizer que estas coisas levam tempo…

 

Como comenta a acusação que a criada da editora lhe endereça no prefácio? Cito: "(...) Mas diz que o livro é só bonecos. Olha, e bem bonitos. A minha mais nova, que vai fazer dois anos, faz uns iguaizinhos, Deus me perdoe. Dei assim uma vista de olhos e quer dizer... haja dinheiro."

Autor: Acho que revela alguma falta de visão. Os desenhos ficaram um bocado mais pequenos no livro que no Facebook e é capaz de não ter visto tão bem. Mas uma observação atenta permite perceber que são mais elaborados do que parecem a um primeiro olhar. É verdade que nenhuma das personagens aparece duas vezes igual seja em que desenho for. É verdade que, quando estão sentadas, de lado ou a andar, lhes faltam muitas vezes um braço, uma perna, dois braços, duas pernas, o pescoço, os ombros, as orelhas, a boca, o nariz, as mãos e, às vezes, isso tudo. Mas também, acho que acaba por dar um ar muito mais moderno à coisa. (Quanto a isso de os desenhos serem feitos por uma criança de dois anos, a verdade é que o tal livro que comprei em Nova Iorque estava na secção infantil, dos dois aos cinco anos). Eu sei, também me perguntei a mesma coisa. Se estava na secção infantil, porque é que trazia uma senha para um café?

 

Porquê o anonimato? Tem receio de represálias?

Autor: Não devia estar a responder a isto à noite… Agora, estou cheio de medo que esteja alguém escondido cá em casa para me matar, tipo "Twin Peaks"… A verdade é que tenho um nome muito estranho, sou meio malaio, meio irlandês, meio argentino, meio neozelandês e o melhor é poupar as pessoas à vergonha de tentarem sequer pronunciá-lo. Também é muito útil para poder dizer tudo o que me apetecer. Além disso, estou a começar a gostar desta coisa do anonimato e até a ficar um bocado viciado. Já comecei a pedir aos meus amigos que finjam que não me conhecem, que apaguem todos os meus contactos e que atravessem para o outro lado da rua quando me encontrarem. Ontem, ao pequeno-almoço, a menina da pastelaria viu-me e disse, com aquele sorriso dela, "É o costume?". Comecei logo a gritar muito alto e a esbracejar, "O costume? Qual costume? Eu nunca aqui tinha entrado! Você nunca me viu!". Nem sempre é fácil.

 

Não queremos dar ideias, mas é possível acontecer um encontro entre a Needy Chicken & The Dog (NC&TD), a sua banda desenhada anterior, e A Criada Malcriada?

Autor: Curiosamente, isso já aconteceu. A Criada apareceu numa tira do NC&TD e a Chicken e o Dog fazem às vezes "cameos" nas tiras da Criada. A Chicken costuma fazer de galinha e o Dog de cão. São actores muito versáteis.

 

É realmente Malcriada ou é uma descrição injusta?

Criada: Ah! É MALCRIADA? Sempre pensei que fosse MÁ CRIADA. Porque é verdade, às vezes esquece-me de aspirar debaixo dos sofás todos, ou de tirar as molduras com as fotografias antes de limpar o pó das prateleiras dos livros… E também já me aconteceu fazer assim vista grossa a qualquer coisa que tenha caído ao chão. Mas nem é por mal, é que sofro mesmo das costas, sabe menina?

 

Tem folgas? O que costuma fazer nas folgas?

Criada: Tenho o último domingo de cada mês, a menos que esteja bom tempo e então, a senhora troca por um domingo em que esteja a chover. Em calhando, vou mais as minhas amigas laurear a pevide. As mais das vezes, vamos a um centro comercial, ver assim uma roupinha jeitosa e olhe, ver gente a passar. Também fazemos assim coisas mais de cultura, ir ao cinema ou assim. Mas só gosto de filmes de amor. Não gosto nada de filmes de porrada nem daqueles para meter medo. Vemos aqui na Junta, que o bilhete nem chega a dois euros e de seis em seis meses têm um filme novo. O último que vi lá foi aquele do barco muito grande que vai tudo borda fora, tudo aos gritos, e as senhoras todas muito bem vestidas, muito bem penteadas, a entrar prós barquinhos mais pequenos, e depois ele morre no fim, todo geladinho, coitado, e ela lá se safa em cima de uma porta. Ai, choro sempre tanto, menina…

 

É a Criada que dá nome à página e ao livro. O que vai fazer com o que receber pelos direitos de autor?

Criada: Ai, não me falaram de nada disso, menina. Deve de ser engano. Bom, se me calhar alguma coisa, gostava de realizar assim um sonho, que era passar um fim de semana num daqueles hotéis em que a gente nem tem que fazer nada. Ficamos assim quietinhas, e eles é que trazem as coisas. E diz que se pode comer o que se quiser. Assim à fartazana. Olhe, ainda deve de dar para trazer para casa, numa "taparuére". [risos]. Mas, como só tenho férias de Verão no Inverno, tem é que ser num sítio onde esteja assim bom tempo o ano todo.

 

Qual foi o país que gostou mais na Volta ao Mundo? Porquê?

Criada: Ai, nem me fale disso! A gente não damos valor ao que temos cá em Portugal. Aquilo lá fora não vale nada. Não se percebe nada do que as pessoas dizem. Come-se muito mal. E vim muito desconsolada da China. A menina acredita que eles lá não têm lojas dos chineses? Verdade! Que me caia já agora aqui um piano na cabeça. Ou uma bigorna. Ou um cofre. Sabe, menina? Como naqueles bonecos animados daquele bicho que parece um lobo mal-amanhado e que anda sempre atrás daquele pássaro?

 

O que acha do prefácio de Constança Homem Aranha?

Senhora: A Constança é minha amiga de toda a vida, desde os tempos do Le Rosey. O prefácio deve estar óptimo, porque ela é óptima. Assino por baixo, mesmo sem ler. A Constança também não deve ter lido, que a última vez que pegou num livro foi com certeza na véspera do dia em que os livros de cheques saíram de moda, nos anos oitenta. [risos]. Mas é amorosa.

 

Como está o seu marido? Aparece pouco.

Senhora: Ainda ontem estava a pensar nisso. Não faço ideia. Ele tem uma vida a-t-a-r-e-f-a-d-í-s-s-i-m-a, e pouquíssimo tempo para estar em casa e assim. Mas costumamos passar uma semana juntos num lugar diferente todos os anos. Quer dizer, não é a semana toda juntos, que pesadelo! Mas encontramo-nos sempre ao jantar. É o segredo para um casamento feliz.

 

Qual foi o país que gostou mais na Volta ao Mundo?

Senhora: Confesso que não ligo muito. Adorei voltar à Ásia. Fumam umas coisas óptimas que nos deixam super relaxadas, super pra cima. Compensa completamente a comida, que é sinistra, são baratas e escaravelhos e assim, tudo frito. Vim de lá com a cabeça super arejada, pareço outra. Faz lembrar o que a Avó costumava contar, de umas casas que havia em Xangai, nos anos vinte. Um e-s-t-o-i-r-o.

Eu acho que

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