DR

Igualdade de Género

Desarrumem as gavetas: o monstro deste livro infantil é o estereótipo

“As Gavetas do Mundo – um livro para desarrumar ideias” é o resultado de um projecto que quer promover a igualdade de género. O livro dá voz a Isabel Isopia, a rapariga que se vai aventurar com um novo amigo por estas questões. "Crowdfunding" está a decorrer

Texto de Tiago Ramalho • 27/11/2017 - 17:38

Distribuir

Imprimir

//

A A

Isabel Isopia é uma menina muito curiosa e muito atenta, que muda de escola. Aí encontra um amigo (cujo nome não pode ainda ser revelado) com quem parte em três aventuras, a que chamam “investigações”, onde vão descobrir “o que é isto de ser rapaz ou rapariga”.

 

A premissa de As Gavetas do Mundo – um livro para desarrumar ideias é oferecer um conto infantil diferente às crianças. Aqui não há heróis, nem princesas. Não se vão encontrar dragões para enfrentar, bruxas más ou príncipes que saem em resgate a galope no seu cavalo. A personagem principal é uma rapariga (que acumula o papel de aventureira com o de narradora) que navega através de uma narrativa que nasce das inquietações de Ana Luísa Abreu, 27 anos, formada em Psicologia, e Mafalda Araújo, 24 anos, da área da Sociologia, duas amigas que se juntaram para escrever um livro infantil que nasceu para desconstruir. Este é o verbo que sai recorrentemente da boca das autoras ao falarem das "gavetas" que encerram estereótipos limitadores no que toca a "brinquedos infantis, profissões ou divisão de tarefas".

 

“Mais do que a nossa formação, o mais importante foram as nossas inquietações”, explica Mafalda, que se junta à conversa a partir de Barcelona, onde está a fazer Erasmus. Já se conheciam antes de lançarem o projecto Isopia, com o qual concorreram ao programa Mundar (promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Torke CC). O processo, que ambas explicam alternadamente, parece mais fácil do que foi. Houve um período de preparação antes de se avançar para a escrita e é exactamente nesta fase que surge o nome da personagem principal. A Escola do Sol, no Porto, serviu de palco de experiências com as crianças e foram elas que baptizaram a protagonista. “Estávamos todos em rodinha, para podermos [em conjunto] criar uma história 'anti-princesas' comum. Mas nessa história surgiu o problema: 'Qual será o nome da nossa ‘anti-princesa’? E ficou Isabel”, conta Mafalda Araújo. A este juntou-se o apelido Isopia, que, como explicam, significa ver de forma igual com os dois olhos — precisamente o que procuram alcançar.

 

Contudo, a obra, que conta com ilustrações da brasileira Fran Junqueira, não procura destruir a combinação “rapariga-rosa, rapaz-azul”, bem pelo contrário. Ana Luísa e Mafalda sabem que o “o mundo é agrupado em gavetas”, como descreve a primeira, “muitas delas necessárias e positivas”. “O que precisamos é de quebrar as gavetas que nos limitam”, diz. Daí que este seja “um livro para desarrumar ideias”.

 

Regresso à história. Além das inquietações e das “memórias de meninice” — que levam Mafalda a recuar no tempo para as suas visitas à secção de roupa para rapaz, numa outra narrativa repleta de risos —, este projecto nasce da pesquisa que fizeram no mercado. “Fomos ver o que havia e o que não havia”, esclarece Ana Luísa. A conclusão é que os livros infantis estão recheados de figuras que representam a “fragilidade da mulher” e a necessidade de “virilidade do homem”. “Ainda se espalha a mensagem do ‘homem que não chora’”, acrescenta.

 

Como a infância não se faz só de Hércules, Cinderelas, Brancas de Neve e Homens de Ferro, era preciso criar a Isabel e o amigo para tirarem o “manto de invisibilidade” que recai sobre alternativas às figuras femininas e masculinas geralmente representadas nos contos infantis. Porque, como apontam, além da desigualdade, os estereótipos também pressionam os rapazes a serem fortes, sem medo (como o João da narrativa de José Gomes Ferreira).

 

Ao longo da sua caminhada pelos três capítulos da história, há também espaço para Isabel “perceber o papel histórico da mulher”, dando todo o contexto necessário para ela partir para as suas "investigações". Como é lembrado ao longo da conversa com o P3, as estatísticas ainda mostram que as mulheres são as maiores vítimas de violência doméstica — 18 mulheres assassinadas este ano —, continuam longe de cargos de chefia e de salários mais atractivos apesar de serem mais qualificadas, e têm menos oportunidades em várias áreas, desde a educação à saúde. “Por isso, é que tínhamos de ter uma rapariga como personagem principal”, explica Mafalda.

 

Pais, educadores: isto também é para vocês

A vida é agitada, em correria, o espaço para lazer é cada vez menor e, consequentemente, o tempo passado com os filhos também. O livro quer funcionar como “veículo de aprendizagem” não só para as crianças, mas também para os pais e educadores, juntando um anexo onde se propõe uma série de actividades e reflexões que podem “construir conversas onde se abordem estas questões”, indica Ana Luísa.

 

A consciência de que, além da falta de tempo, o dinheiro não abunda em todas as famílias, levou as duas raparigas a quererem preparar um livro que custe o menos possível ao consumidor final — “para não termos um livro classista”, diz Mafalda. Na senda da “igualdade de direitos e oportunidades”, apelam, por isso, a um crowdfunding que quer angariar, até 22 de Dezembro, 3.500 euros para suportar o design, a ilustração e os custos de impressão. Até agora, o financiamento já ultrapassou a fasquia dos 500 euros e existem várias recompensas à escolha. A partir de 25 euros, o livro é enviado para casa.

 

O Isopia não acaba no livro. O objectivo das autoras do projecto é também, depois da publicação, aproximarem-se do público, recorrendo a sessões de leitura, quer para educadores, quer para crianças. Para “dar liberdade para conhecer e abrir as gavetas onde estão arrumados todos os estereótipos de género”, como diz Ana Luísa. Prontos para embarcar nas “investigações” de Isabel Isopia?

Voltar ao topo

|

Corrige
Eu acho que