Paulo Santos

Fotografia

O fascínio de Paulo por edifícios abandonados deu um livro

Antropólogo apaixonado por fotografia tem milhares de imagens de lugares abandonados, entre Portugal e outros países. Agora, o seu "Proj3ct Urbex" está num livro

Texto de Mariana Correia Pinto • 16/11/2017 - 19:09

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São ruínas de casas, algumas de antigos solares, muitas isoladas na paisagem. São fábricas desvalidas, hospitais fechados, edifícios com história por desvendar. Paulo Santos começou a aventura por este universo há coisa de três anos. Por conhecer a sua paixão pela fotografia, um amigo adicionou-o ao grupo de Facebook Lugares Abandonados e desafiou-o a viajar em busca desses espaços.

 

Desde 2002 que Paulo Santos se tinha entregue à fotografia — ou às viagens que o conduziram à fotografia. Antropólogo de formação, e em vias de concluir um doutoramento em Antropologia e Imagem, fazia das passagens por outras geografias (já esteve em 50 países) uma oportunidade para apurar o registo fotográfico. Começou, até, a eleger os seus destinos com esse requisito: “Tinham de ser fotograficamente interessantes”. A relação com a máquina foi-se apurando por esforço solitário: comprava revistas e livros, aprendia a técnica, treinava. Aos poucos foi-se sentindo em casa.

 

Quando o amigo o convidou para integrar aquele grupo em busca de lugares perdidos, Paulo não hesitou. E o passatempo foi-se tornando um vício. Com mais quatro ou cinco amantes da imagem, faz-se à estrada pelo menos duas vezes por mês. “Fui-me interessando por aquilo, às vezes ia sozinho”, contou ao P3 numa entrevista por telefone.

 

A viver em Lisboa, Paulo e o restante grupo não se limitaram à capital e cidades próximas. Faziam pesquisa prévia, partiam para o terreno com coordenadas GPS, e percorriam quilómetros até ao Norte do país: “Do Porto para cima, sobretudo, há muitas casas abandonadas. Imagino que de emigrantes que saíram e as deixaram para trás.” E vezes houve também em que Paulo Santos se arriscou além fronteiras: a Marrocos (várias vezes, sempre que pode), à Bélgica, ao Luxemburgo, à Ucrânia (Chernobyl).

 

Fá-lo pela fotografia, mais do que por qualquer análise apetecível a um antropólogo. “São espaços interessantes”, diz, e quase sempre um “desafio” do ponto de vista técnico. “Muitas vezes as casas estão entaipadas ou têm pouca luz”, explica, e para Paulo Santos, 42 anos, o flash é coisa a evitar: usa apenas luz natural, faz longas exposições com tripé, no limite usa uma lanterna para iluminar ligeiramente o lugar. A segurança é também tema em cima da mesa: abandonados, alguns espaços têm os alicerces comprometidos; noutros encontram gente dentro.

 

Paulo, desenhador de Autocad num gabinete de engenharia, não tem os números exactos, mas aponta para uns 350 espaços em Portugal e mais uma centena no estrangeiro quando lhe perguntámos por quantos já passou de máquina na mão.

 

No Verão do ano passado, a editora Alma Lusa convidou-o para reunir algumas destas imagens num livro. E o antropólogo aceitou: selecionou 81 fotografias, distribuídas em 104 páginas, e optou por um registo quase se texto. Neste Proj3ct Urbex (à venda online por 30 euros) preferiu ocultar a localização exacta dos lugares (“apesar de abandonados, muitos têm dono e podiam ser assaltados depois”) e dar primazia à imagem.

 

Por detrás de cada fotografia, haverá certamente uma história, ainda que esteja por escrever. Como a de um casa com um sótão onde Paulo se deparou com um lugar cheio de pó, uma luz suave, um triciclo perdido [imagem em destaque]. Conseguem imaginar uma narrativa?

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