Livro

Bernardo disfarçou-se de turista e viajou infiltrado pelo país

Quis olhar para o sector do turismo em Portugal como estrangeiro e, para isso, disfarçou-se durante um mês e meio. Bernardo Gaivão foi "Turista infiltrado" à saída do aeroporto ou visitas guiadas. Há clichés que se confirmam, garante, mas também boas surpresas

Texto de Ana Maria Henriques • 07/11/2017 - 11:23

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“Disfarçado de polaco, argentino, inglês, espanhol e, volta não volta, de francês, decidi percorrer o nosso Portugal não só à caça das aldrabices, dos esquemas e das falcatruas, mas também dos casos de sucesso do nosso turismo.” Assim escreve Bernardo Gaivão no arranque do primeiro capítulo de Turista infiltrado, livro publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos no último mês de Setembro. O título da obra, da colecção Retratos da Fundação, não diz tudo — mas quase. O português de 29 anos viajou por Portugal durante cerca de um mês e meio, no Verão de 2016, e tentou vestir a pele de um turista estrangeiro. Falou em inglês ou em português macarrónico para não se denunciar, viajou em tuk tuks pelo centro de Lisboa, irritou-se com a falta de conhecimento dos guias no Porto e apaixonou-se pela zona de Tavira que, ao contrário do restante Algarve, “não vendeu tanto a alma ao turismo”.

 

Em entrevista ao P3 a partir de Washington D.C., nos Estados Unidos, o lisboeta admite que já perdeu a conta a quantos países visitou. Ser turista nas regiões portuguesas que já conhecia — e nas outras também — tornou-o num viajante mais atento aos pormenores. Mas houve alturas em que o disfarce caiu. Além destas histórias, Turista infiltrado reflecte um pouco do trabalho que Bernardo Gaivão leva a cabo na Academia Pordata, há já vários anos. O livro compila dados estatísticos sobre o turismo do sector em Portugal e levanta algumas questões, mais do que pertinentes por estes dias. "Para olhar para os dados tenho necessariamente que me lembrar outra vez que sou português."

 

Como te tornaste num Turista infiltrado?

Planeava uma viagem ao Egipto com um grupo de amigos quando surgiu a discussão habitual: quais as prioridades? As pessoas costumam dividir o tempo pelo dinheiro e o dinheiro pelo tempo. Começamos, inconscientemente, a fazer comparações e paralelismos com Portugal. Já tinha escrito crónicas de viagem e pensei que seria giro fazer algo semelhante para Portugal. A ideia foi crescendo e tornou-se numa análise mais detalhada do sector do turismo, mas sempre do ponto de vista de quem nos vê de fora e não conhece as dificuldades ou os obstáculos, só vê o produto final. Do ponto de vista do cliente, no fundo.

 

A viagem enquanto falso turista correspondeu às tuas expectativas?

Sim e não. Sim, porque, em algumas situações, os problemas que achei que ia encontrar foram exactamente aqueles que encontrei. Onde as histórias e os clichés vivem de acordo com as expectativas, como o taxista que engana alguém a voltar do aeroporto e o restaurante que cobra um bocadinho mais quando se é turista. Enquanto um português se senta à mesa, pede uma imperial e vem uma imperial de tamanho normal, se for um turista inglês, por exemplo, é-lhe trazido logo uma caneca. Também fiquei surpreendido, em algumas situações, com a falta de cuidado, de profissionalismo, de método e de brio no trabalho que algumas pessoas tinham. O Algarve foi tal e qual como eu estava à espera que fosse, mas fiquei surpreendido com a zona de Tavira. Apesar de ser algarvia, não vendeu tanto a alma ao turismo.

 

Achas que o rápido crescimento no turismo pode explicar a falta de profissionalismo no sector de que falas? 

Grande parte do problema está aí. Não sei os números de cor, mas tenho ideia de que o sector do turismo cresce à volta dos 3% ao ano, a nível mundial. Em Portugal, nos últimos anos, tem crescido à volta dos 10%. Isto é uma subida grande e nem sempre temos a infra-estrutura preparada para a acompanhar. Quando olhamos para os operadores e para o nível de qualificação destes vemos que a grande maioria não tem qualquer tipo de qualificação para trabalhar no sector, nem sequer outro tipo de qualificação. Se olharmos apenas para os operadores turísticos e considerarmos a formação técnico-profissional e o ensino superior, a percentagem anda à volta dos 20%. Já no sector do enoturismo exige-se uma preparação um bocadinho melhor, não se consegue improvisar tanto, a percentagem de qualificação é mais alta e chega aos 50%. Por isso é que digo no livro que o sector do enoturismo surpreende pela positiva: estava mais bem preparado, mais cuidado.

 

Consideras que conseguiste ter o tal olhar “de fora para dentro” face a Portugal?

Em grande parte das situações, sim. Houve duas ou três ocasiões em que tive de deixar cair o disfarce porque não aguentava mais, já estava a ser tudo demasiado abstracto. Embora ache que consegui ter a perspectiva de quem está de fora e vê as cidades e as principais regiões turísticas com uma luz diferente, este detalhe em que entrei — olhar para os dados e tentar observar as tendências e perceber onde estava o problema — é um detalhe até onde um turista normal não vai. Nesse aspecto peco um bocadinho, porque não consigo ser imparcial. Para olhar para os dados tenho necessariamente que me lembrar outra vez que sou português.

 

O que te custou mais nesse disfarce?

No princípio foi tentar disfarçar a língua. Por muito bem que fale inglês ou castelhano, qualquer pessoa com um bocadinho de atenção perceberia que eu não era nativo. Tentava mascarar-me de alguma outra nacionalidade e falava inglês como segunda língua. Tinha medo de ser “apanhado”. Numa fase mais avançada tornou-se um bocadinho cansativo ter que estar sempre com a guarda levantada, arranjar uma solução diferente, mais ou menos criativa, para fazer check in nos hotéis. Se chego a hotel e tenho que revelar, como acabei por fazer em Évora, o que estava a fazer, isso pode comprometer o resultado final.

 

Qual a situação mais caricata que viveste?

A mais absurda e revoltante foi a história das caves do vinho do Porto: é completamente transcendente que um guia do Porto nunca tenha entrado numas caves. Mas o mesmo se poderia dizer dos guias de Lisboa; os dos tuk tuks, então, não fazem a mínima ideia do que estão a falar, não têm a mínima preparação. Lembro-me que em Évora tive um dia complicado. O hotel onde ia ficar estava fechado, não consegui ninguém que me ajudasse, estava a querer interagir com alguém que ajudasse um turista e ninguém o fazia. Fiquei bloqueado. Mas é mesmo assim: ou vamos directamente do shuttle do aeroporto para o hotel ou então não há um acompanhamento tão grande dos turistas em Évora como há em Lisboa ou no Porto, por exemplo.

 

És ou vais ser um turista diferente depois desta experiência?

Sim. Para começar, sou bastante mais crítico. Quando visitei Washington D.C., fiz duas ou três visitas guiadas diferentes e fiquei surpreendido porque é exactamente igual a Lisboa: estes tipos também não fazem a mínima ideia do que estão a fazer. Não sabiam em que ano foi fundada a cidade, não explicavam nada. Não teria reparado nisto se não tivesse feito o exercício em Portugal.

 

Onde começa a linha que separa uma cidade preparada para o turista e uma cidade menos autêntica?

Pegando no caso do Porto, conheci um dono do restaurante que, com um ar indignado, me dizia que já chega, como se fosse um botão que se liga e desliga. E algumas pessoas dizem que abrimos a caixa de Pandora e agora é impossível voltar a fechá-la. Mas as coisas não são assim tão preto no branco. Sim, temos de manter um bocadinho do que nos torna autênticos e únicos e que é a nossa tradição, mas não nos podemos esquecer do que era Portugal há dez anos e o que eram as zonas nobres das cidades do Porto e de Lisboa — degradadas, abandonadas, vazias — e que, graças a este fluxo de capital, estão reabilitadas. Não vale a pena refilar e pedir que alguém — “eles”, como se costuma dizer — faça isto ou aquilo. Quem faz somos nós, cidadãos, individualmente. Não há nada que o Turismo de Portugal ou o Governo possam fazer. Ao final do dia, nós é que escolhemos se trabalhamos com turistas ou com portugueses.

 

Logo no primeiro capítulo descreves o taxista que te transportou do aeroporto de Lisboa para o centro da cidade como “uma figura típica portuguesa, representação fiel do tradicional Zé Povinho”. Não tens receio de ter caído no cliché?

Quando estava a escrever o livro pensei exactamente nisso. Mas é mesmo verdade, os clichés nasceram de algum lado. Apanhei não sei quantos taxistas em Lisboa e não eram todos iguais. E, a bem dizer, hoje em dia, sendo turista num aeroporto, nem me enfiava num táxi, apanhava logo um Uber ou o metro. Há clichés, mas também há situações em que o cliché não é bem aquilo que eu procurava e o exemplo do Algarve é óptimo. Termino o livro a dizer que a região de que gostei menos foi o Algarve, porque vendeu a alma, mas a mais gira também foi o Algarve. É um paraíso no meio daqueles néons e da confusão da Estrada Nacional 125, há um espaço para respirar.

 

A diferença nos preços praticados e o cross selling não se associam muito ao turismo em Portugal, mas tu encontraste alguns exemplos. Surpreendeu-te?

Já estava à espera, mas, para ser honesto, só me aconteceu em Lisboa e em menor escala no Porto. Também tem a ver com a estrutura da viagem que fiz, pois quis experimentar pacotes organizados onde não há tanta abertura para outras coisas. No Alentejo levaram-nos a uma loja de cortiça, nitidamente uma acção de cross selling, mas foi a única. Não é muito comum em Portugal como é, por exemplo, no Egipto. Mas existe e é das piores coisas que me podem fazer em viagem.

 

Com que imagem de Portugal ficaram os turistas com quem te cruzaste?

Vou cair no cliché outra vez: todos dizem que a simpatia e a maneira como são recebidos são fundamentais. Só por isso queriam voltar. Depois falam do bom tempo e do vinho, mas, surpreendentemente, ouvi mais críticas à comida do que estava à espera. Dizem que comemos muitas batatas fritas e muito arroz, faltam legumes, o que será também uma característica dos restaurantes turísticos, mais presentes nas zonas históricas, e que não são os melhores (como sabemos). Esse foi o mito que quebrei. Realisticamente, duvido que a grande maioria volte, especialmente os da Europa do Norte. Na próxima vez vão procurar um destino diferente porque querem ver uma coisa nova. Apontam ainda o facto de sermos um povo carregado de histórias, muito orgulhoso.

 

Alguma vez te fartaste de turistas e de ser turista?

Quando cheguei ao Alentejo, encontrei uma pasmaceira tão grande em Arraiolos que, deitado numa rede, à sombra, só me apetecia ficar ali e descansar, sem me preocupar mais com camionetas, comboios, aviões, idas e chegadas, guias. Já estava farto de tudo. As conversas são sempre as mesmas, de circunstância; ao fim de uma ou duas semanas tornam-se cansativas. Muito.

 

Apostaste muito nos números e nas estatísticas. É um defeito profissional ou um interesse?

Ambos. Trabalhando na Pordata desde o início do projecto, claro que já tive de criar um amor pelos números. Caso contrário, estava tramado. O que acontece é que, infelizmente, grande parte dos números que existem sobre o turismo não estão disponíveis facilmente e não são rigorosos. É preciso uma Pordata só para o turismo, quase. Este foi logo o meu primeiro problema. Quando comecei a pensar na ideia do livro, por curiosidade fui à Pordata ver quantos turistas escolhem Portugal. Não existe um número e isso faz sentido. Se eu for passear à Madeira, sou um turista nacional, mas não vou ligar para o Instituto Nacional de Estatística a informar que vou. Como é que o Governo sabe que eu lá fui? Se calhar, pelos aviões — e o tipo de dados que temos é este. Conseguimos saber os números de hóspedes em hotéis, as visitas registadas pelos operadores e as receitas dos aparelhos turísticos. Se queremos melhorar a qualidade do nosso turismo, temos que apostar em dois factores: a transparência e os dados e análise. É um trabalho difícil, mas tem de ser feito. O turismo em Portugal continua a crescer, em geral também na Europa, e nós estamos na ponta da lança. Temos que dar o exemplo aos outros.

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