Lado Bê, de Aline Lemos

LGBTI

“Fanzines” de mulheres e pessoas não-binárias: é a Sapata Press

A Sapata Press é um novo projecto editorial sem fins lucrativos que publica bandas desenhadas de autoras de língua portuguesa. Nestas páginas, nada (nem ninguém) é tabu

Texto de Renata Monteiro • 27/09/2017 - 14:10

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Cecília Silveira queria publicar bandas desenhadas sobre as questões que lhe interessam: identidade, género, migração e outros tantos “assuntos espinhosos” que muitas vezes vê serem tratados de “forma dura ou ambígua” (ou não serem abordados de todo). Procurou editores, mas não encontrava ninguém com interesse — ou “coragem” — para o fazer. Excepto ela, que foi em frente e não teve medo de chamar a coisa pelo nome: nascia assim a Sapata Press.

 

Até 2015, a artista de 34 anos, natural de Minas Gerais, no Brasil, só tinha trabalhos publicados numa revista online, a Geni, de São Paulo. Em 2016, enquanto frequentava o curso aplicado de ilustração e banda desenhada do Ar.Co, em Lisboa, recebeu um “convite da editora Dor de Cotovelo para publicar o seu primeiro fanzine em Portugal”: GO, uma banda desenhada (BD) que “narra um breve momento da história de travessia marítima de uma refugiada que vem para a Europa”, conta ao P3.

 

Foi durante este projecto que conheceu “as pessoas e os processos de produção independente em Lisboa”, que lhe deixaram “umas luzes” sobre o que seria ter uma editora. "Pouco tempo depois" chegou uma nova proposta, desta vez de Filipa Valladares, fundadora da livraria STET. "Já me tinha convidado para expor uma BD autobiográfica durante o festival de cinema Queer Lisboa, em 2015”, continua Cecília, “e perguntou se eu não tinha algo para lançar durante a edição de 2016”.

 

Ter algo, “até tinha”, só lhe faltava quem o editasse. A solução? A Sapata. Desenhou um logo, fez a paginação, foi a uma gráfica e mandou fazer 13 cópias de Madrugada, uma banda desenhada erótica.

 

Já este ano decidiu que “a Sapata Press não poderia ser só um selo de auto-edição”. Transformou-a antes num "projecto editorial vocacionado a publicar autores que, por questões estruturais, têm menos meios de produção, baixa representatividade ou um material quase ‘impublicável’”, decretou. Chamou-lhe Sapata, em alusão a "sapatão", um "termo usado para se referir de forma pejorativa a uma mulher que se relaciona sexual e emocionalmente com outra mulher”, explica. “Tive de aprender a impor-me e a respeitar-me como sou” e isso, diz, significa aprender também a “gostar de ser sapata”.

 

Falta igualdade de oportunidades

O manifesto da editora independente e sem fins lucrativos é claro: abrir portas a “mulheres e pessoas não-binárias, sejam elas transexuais ou cisgénero, independentemente da raça e da orientação sexual”. Pessoas “maravilhosas” que não têm a oportunidade de publicar o seu trabalho, "enquanto os seus colegas rapazes, igualmente jovens, já publicam regularmente e entram no mercado de trabalho com mais fluidez”.

 

Quando confrontada com uma possível discriminação inversa, Cecília já traz os argumentos na ponta da língua. “Não concordo”, desvaloriza, “não acredito que as mulheres e as pessoas não binárias têm baixa representatividade, quer em trabalho científico, artístico ou em cargos elevados, por serem menos capazes”. A artista não nega que hoje há “muitas mais oportunidades” para estes grupos, mas sublinha que “ainda é preciso criar as bases e fomentar um sistema de quotas para que haja mais igualdade”, como o que viu ser instaurado nas universidades públicas do Brasil.

 

Além disso, o “público-alvo da Sapata não é apenas as mulheres, LGBT, queer”, defende. Os trabalhos dirigem-se a “todos aqueles que têm interesse por banda desenhada ou que um dia se questionaram sobre as questões de género e representatividade”.

 

O que importa é a representatividade (e o talento)

O projecto “transnacional” alberga autoras de países de língua portuguesa que tentam “inverter a secundarização” das mulheres e pessoas não-binárias nas histórias, elevando-as a protagonistas. Quer trazer para praça pública temas como resistência, comunidade LGBTQI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgénero, Queer e Intersexo), feminismo, visibilidade, transexualidade, parentalidade, “masculinidade não tóxica”, entre outros.

 

Os primeiros dois fanzines, apresentados a 21 de Setembro na STET, mostram-no. Lado Bê, de Aline Lemos, natural de Belo Horizonte, discorre sobre a liberdade de se ser quem é, enquanto Sensui, de Dois Vês , uma ilustradora de Leiria, "tão rapidamente explora o mundo místico e erótico", como retrata "o banal e quotidiano", lê-se na descrição do projecto.

 

O lançamento correu "tão bem" que Cecília já se prepara para lançar uma “segunda edição dos dois títulos publicados”, inclusive uma edição a cores de Sensui, que esgotou no final da apresentação. As tiragens são pequenas, geralmente variam entre os 30 e os 80 exemplares; com preços entre os seis e os dez euros. 

Desde o início de Julho que a Sapata Press tem uma convocatória aberta, o que significa que está sempre aberta a receber propostas, posteriormente sujeitas a uma avaliação editorial e passíveis de serem publicadas a “custo zero” (a editora cobre os gastos de produção e impressão). As obras, que são geralmente a preto e preto e branco, são vendidas em Portugal e no Brasil. Num primeiro momento, “os ganhos com a venda cobrem os custos de produção das cópias”; depois são partilhados, a meias, entre a autora e a editora. Todo o lucro é investido em novas publicações, garante Cecília.

 

O lançamento do próximo título tem data marcada para a primeira semana de Outubro, aquando a feira de edições EDIT, na Galeria Monumental (Lisboa). Cecília não quer “perder tempo” e em Dezembro leva o projecto ao Brasil com “mais duas publicações inéditas”.

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