Mário Lopes Pereira

Entrevista

Diogo Faro está "Na Boa" porque em Portugal "um gajo desenrasca"

"Na Boa" é o novo livro de Diogo Faro, o também conhecido como “sensivelmente idiota”. Um ano depois de "Somos todos idiotas", o comediante fala de "portugoptimisto". "Se as pessoas se rirem com este livro, óptimo. Se chorarem, óptimo também", disse ao P3

Texto de Sara Lopes • 27/07/2017 - 08:38

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Já estudou clarinete, Marketing e Publicidade. Mas largou tudo pela comédia, há quatro anos. Com mais de um milhão de seguidores na página de Facebook Sensivelmente Idiota, Diogo Faro entra agora no mundo dos livros sobre felicidade e auto-ajuda. O ponto de viragem foi uma viagem de voluntariado na Índia.

 

Está-se na boa?

Está! Isto veio precisamente porque é uma expressão bastante enraizada na cultura portuguesa. “Na boa”, “Nós resolvemos isto”, “Um gajo desenrasca”.

 

“Venham aprender a ser felizes comigo”. É essa a ideia das dez dicas no livro?

Todo o livro é um processo em que tento transmitir a minha sabedoria, enquanto presidente do Instituto Português dos Altos Estudos para a Felicidade. Quem quiser aprender e absorver as coisas que eu digo ali, óptimo. Como em qualquer outro livro de busca de felicidade e de auto-ajuda, quem quiser aprende, quem quiser acha que é a gozar. O importante é que comprem o livro.

 

Instituto Português dos Altos Estudos para a Felicidade. Isso existe?

Sim, na minha cabeça. Porquê? Porque quando tu acreditas muito numa coisa, essa coisa passa a existir. Há um grande pensador dos nossos tempos que diz que a mente se chama mente porque nos mente (frase do Gustavo Santos). As pessoas já me têm acusado de ser um instituto fictício, mas não é. Eu acredito tanto nele que ele existe.

 

Porquê felicidade?

Desde que fiz voluntariado na Índia, vinha com vontade de fazer este interregno na minha carreira enquanto comediante, e transmitir a felicidade às pessoas. Nasceu uma luz em mim. O universo escolheu-me e eu, como um especialista em felicidade, quis transmitir isso às pessoas. Inspirei-me no livro “Hygge, segredo dinamarquês para a felicidade”. Descobri que os dinamarqueses são muito felizes, mas isso é fácil. Eles têm “altas” condições de vida, “altos” salários e uma escola pública excelente. Aqui em Portugal, é preciso um grande espírito de felicidade para estar feliz. Há coisas difíceis, como a crise. Há coisas que nos envergonham, como o Durão Barroso na Goldman Sachs e, às vezes, o cabelo do Cristiano Ronaldo. É preciso uma grande dose de felicidade e optimismo, ao que eu chamo de portugoptimisto para ultrapassar isso. E eu resolvi transpor isso num livro.

 

Então o livro não se relaciona de nenhuma forma à comédia e à sátira?

Quem quiser achar graça, pode achar. Agora, quem quiser levar a sério, igualmente. Podes-me perguntar se a brincar se fala a sério. A sério também se fala a brincar e vice-versa e o contrário de ambos. Portanto, quem quiser encarar isto como uma mera brincadeira e rir-se um bocado, excelente. Não quero desvendar o conteúdo do livro e moldar a interpretação das pessoas ao meu livro. Quero que descubram. Se acharem que é uma sátira, óptimo. Se acharem que é realmente só um retracto real e que estou a dizer coisas muito novas e a ajudar as pessoas, óptimo.

 

Não tens medo que ninguém te leve a sério?

Eu sou comediante, é verdade. Mas um comediante também chora. Um comediante não tem de estar sempre a fazer rir. Eu posso fazer coisas diferentes. Se as pessoas se rirem com este livro, óptimo. Se chorarem, óptimo também.

 

O que mudou na verdade na Índia?

Muitas pessoas viajam para países mais pobres para se sentirem melhor. Assim vêem “ah, se calhar, eu não estou assim tão mal”. E isso é importante. Temos de olhar para o lado e ver que há sempre gente pior do que nós. É por isso que muita gente vai fazer voluntariado, para sítios onde considero que é muito difícil fazer voluntariado — como o Rio de Janeiro, Tailândia ou Bali. São sítios muito difíceis porque são lindíssimos. Têm praias incríveis e uma noite muito divertida. Então, fica complicado as pessoas focarem-se no voluntariado em si. Queres estar na praia, queres tirar fotografias com meninos pobrezinhos para teres likes no Instagram, queres telefonar aos pais para dizer que estás a fazer um voluntariado excelente. Depois acaba por sobrar pouco tempo para fazer voluntariado efectivamente. E a culpa não é das pessoas, claro. É dos sítios que são lindíssimos.

 

Entre talkshows, vox pop’s, post’s no Facebook e livros, o que preferes?

Neste momento, o livro. Estou focado nisto e logo se vê o que virá a seguir. Quem sabe, se este correr bem, pode vir um Na Boa fase dois.

 

Mas o talk-show ainda só tem três episódios…

Tem e tem três para sair. Fiz esta pausa por causa do livro e agora estou mais focado nesta questão da felicidade. Fiz muitos estudos. São coisas comprovadas pelo meu Instituto e pelos meus colaboradores que trabalham todos comigo, na minha cabeça. Portanto, agora estamos focados nisso, eu e a minha equipa e depois logo se vê o que vem a seguir.

 

Então já não és sensivelmente idiota?

Eu não deixo de ser o Diogo Faro, o sensivelmente idiota, comediante. É um desvio da minha carreira. Não sei quanto tempo é que dura. Se calhar, chega ao final do Verão e eu já dei o meu contributo. Já fui um guru, já fui um especialista da felicidade, já ajudei as pessoas e vou voltar a ser comediante. Ou então pode tornar-se a minha carreira e eu começo a dar palestras pelo mundo todo, sobre felicidade.

 

Como o Gustavo Santos, personalidade que costumas criticar?

Não quero estar aqui a fazer a referência, mas há vários exemplos para mim, no mundo todo, que são de facto inspirações para mim. E isso era antes. Agora somos mais colegas do que outra coisa.

 

Não foi preciso chegar ao fim do verão para Diogo Faro voltar a ser o comediante. Bastou o fim da entrevista. Fora da formalidade da conversa, o comediante despiu a personagem de presidente do Instituto Português dos Altos Estudos para a Felicidade e falou abertamente do livro. Tal como na maior parte do trabalho anterior à publicação do livro, Diogo traça um retracto satírico e cómico do povo português, numa linguagem irónica e directa. Há tremoços e minis, redes sociais, família e amigos, e os três F’s: Fátima, Futebol e Festival da canção (em vez do tradicional Fado).

 

O desafio para escrever o livro partiu da editora Esfera dos Livros, que lhe deu dois meses para escrever e o comediante aceitou. Apesar de não poder confirmar oficialmente que Na Boa é uma crítica aos livros de Gustavo Santos, porque ambos publicam na mesma editora, Diogo não esconde que isso é verdade. Eles ganham dinheiro a constatar o óbvio, afirma. Mas… Na Boa!

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