Faixa de Gaza: crescer mulher em território cercado

autoria Ana Marques Maia

// data 31/07/2017 - 15:05

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Crescer na Faixa de Gaza pode ser, no mínimo, desafiante. "É uma terra conturbada. São 116 quilómetros quadrados isolados por um muro de betão e arame farpado que é guardado por soldados estrangeiros", explica a fotógrafa Monique Jacques na página da campanha de crowdfunding do fotolivro "Gaza Girls: Growing Up In The Gaza Strip", ao qual pertencem as imagens que partilha com o P3. "São anos de bloqueios e de restrições à mobilidade; o território tem a porta fechada para o mundo. À noite, ouve-se o ruído dos drones que monitorizam o local enquanto dormes. Da praia vêem-se as luzes de Israel — um território que será sempre inacessível. Limites e vigilância definem a existência em Gaza, motivo por que crescer no local é difícil." Segundo Monique, as famílias são muito próximas e unidas, muito vigilantes sobre as raparigas. "Privacidade e mobilidade escasseiam. Muitas mulheres dizem que num local tão pequeno como Gaza é impossível ser verdadeiramente livre." Todos os olhos monitorizam todas as pessoas — irmãos, primos, vizinhos. Doaa Abu Abdo, de 27 anos, confessou à fotógrafa: "Quem me dera sair daqui, mesmo que fosse por um dia, para poder ir para um lugar onde ninguém me conhecesse." Hadeel Fawzy Abushar tem 25 anos e actua em concertos que promovem a paz na região. O seu sonho é cantar em Ramallah, uma cidade na Cisjordânia. Sabah Abu Ghanem e a sua irmã, ambas adolescentes, acordam todos os dias cedo para surfar antes do horário escolar. As irmãs nunca sairam da Faixa de Gaza para competir, apesar da vasta experiência e troféus em competições internas. É difícil sair do país por ser necessário um visto do país de destino, o que é, geralmente, difícil de obter. "Apesar de todas as dificuldades, Gaza tem um dos melhores sistemas de saúde do Médio Oriente e apresenta níveis de literacia quase universais", refere a fotógrafa. "Muitas jovens mulheres frequentam a universidade e, depois de se formarem, tornam-se escritoras, engenheiras, médicas. Muitas sonham abandonar a Faixa de Gaza e explorar o mundo, estarem por sua conta, mas falam sempre em regressar. 'É a minha casa', dizem. 'Eu amo a Faixa de Gaza'." Monique considera a publicação do fotolivro importante para que se crie uma percepção mais "tridimensional" da região. "Histórias de momentos mais calmos como os que registei são normalmente ignorados, embora ofereçam um olhar poderoso sobre uma região que é desconhecida da maioria das pessoas", explica na página da campanha do Kickstarter. "Este trabalho amplifica os momentos quotidianos de alegria e esperança." O projecto da fotógrafa remete para 2014, ano em que foi publicado pelo New York Times; a situação tem vindo a deterior-se, entretanto, como é reportado pela Reuters. "A maioria das famílias tem duas horas de electricidade por dia", o Público explica. Monique é fotojornalista e vive em Istambul. O seu trabalho já foi publicado também pelo Wall Street Journal, pela National Geographic, TIME, The Economist, entre outros.

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