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Crónica

O antropoólico e o bibliólico

A propósito do Dia Internacional do Livro, 23 de Abril, ficam os depoimentos de um livro e de um leitor compulsivo

Texto de Luís Coelho • 21/04/2017 - 16:51

Luís Coelho
Luís Coelho é fisioterapeuta e escritor

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1.º Olá, chamo-me livro e sou antropoólico, dependente do "humano". Só consigo "ser" a partir do homem que me faz e lê, para mais, falo sobretudo sobre ele. Nas minhas páginas já se viu de tudo, tudo por mim se defende, e, sem que possua culpa alguma, por mim se fazem guerras, genocídios e holocaustos. Podia, até, importar-me especialmente com isso, mas nem sequer sei o que é certo ou errado, vero ou falso, porque, no meu corpo já se gravaram verdades inúmeras e culpas tremendas. Por isso mesmo, não conheço identidade, individualidade, ouvi dizer que pode ser este o caminho, o de não "ser", o de estar no "fim" para que fui feito: a salvação, a nadificação. Mas até isso pode ser caminho, bem me parece que, enquanto viver, serei sempre um "meio" de ser "fim", e jamais um "fim" de ser "meio". Talvez isto explique as minhas recentes tentativas de suicídio. Não ajuda nada que me tenham transformado numa coisa "vulgar", agora qualquer um me pode fazer, quando tantos nem me sabem ler, ou me lêem com os olhos de quem já escreve por dentro (e acabará por escrever-me, tentando substituir-se-me por outra coisa mais coeva). Por fim, já me arrancam as folhas, o cheiro, a aridez, qualquer dia nem servirei para substituir a jarra de flores na prateleira do esquecimento. Enfim, terei sido/tido "fim" de ser culpado da existência.

 

2.º Olá, já nem sei como me chamo e sou bibliólico. Cresci com livros, vivia neles e com eles, sublinhando-os, cortando-lhes as pontas, mirando os caracteres amarelecidos e suavizando as rugas da utilização. Um dia descobri que os livros diziam coisas antagónicas, comecei a coçar a falta do unívoco. No princípio era o verbo, mas o verbo já não estava com Deus. Estava, ademais, com os anjos quedos da diabolização dos significados. Também eu me tornei diabo e me perdi enquanto homem. Substituí os homens pelos livros e a identidade pelo relativismo. E o pensamento rapidamente se caotizou. A febre bibliófila trouxe-me o dissabor da leitura jamais satisfeita, da biblioteca insuficientemente (des)arrumada ou completa, do livro sempre remetendo a novas possibilidades de leitura ou interpretação. Nenhum tempo será suficiente para tamanho exercício de desbravamento das entrelinhas. As verdades avultam, os livros amontoam-se, as livrarias e bibliotecas passam a lugares simultaneamente deificados e supliciados. O livro chegou a ser deus e o autor já foi um herói. Até que os deuses caíram, e passei eu mesmo a ser autor. Mas os autores já não valem o mesmo, nem as verdades. Houve quem me recomendasse procurar a minha verdade, a genuína possibilidade, onde ler tamanha simplicidade? Daí, mantenho-me sóbrio há algum tempo, evitando ler senão o que escrevo. Passei a ter uma espécie de bibliofobia, e já pensei que talvez importe mais o que transcende o livro, mas isto não é para se dizer ou escrever em parte alguma. Entretanto, escrevo muito, e vou confundindo os livros, faria o mesmo aos leitores se fosse lido. É justo, não é para eles que escrevo, se bem que os meus fantasmas se agradam de ver o produto final. Um outro "eu" se agradaria de suprimir esse produto, de ser caminho perfeito onde as páginas já se esgotaram.

 

3.º Os depoimentos respeitam a duas perigosas formas de dependência. O homem, o livro ou qualquer outro "paraíso artificial" implicam uma terapia de evitamento, para além das reuniões de grupo de apoio. Na minha clínica, os livros reúnem-se em dias alternados com os homens. A minha terapia é inovadora e não possui efeitos secundários. O paciente também poderá realizar terapia de conversação. A terapia conjugal é uma possibilidade, para isso deverá o livro trazer o seu homem ou o humano trazer o seu livro. Para mais informações, é favor ler os meus livros.

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