Mário Macilau

Entrevista

"Fui menino de rua e isso serve-me como lição de vida"

À semelhança das crianças que fotografou para o projecto "Growing in Darkness", Mário Macilau foi um menino de rua em Maputo. Hoje, a sua casa é um palco da fotografia contemporânea, onde conquistou um lugar cativo

Texto de Ana Marques Maia • 28/02/2017 - 13:21

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Aos oito anos de idade, em 1992, Mário Macilau já trabalhava num supermercado em Maputo, numa zona privilegiada da cidade, ajudando os clientes a transportar as suas compras e a lavar os seus automóveis. Tinha a seu cargo a subsistência da sua mãe e irmãs, que não via todos os dias. Terminado o seu turno, deixava-se ficar na companhia dos amigos, que viviam nas ruas da capital e que se dedicavam à pequena criminalidade como forma de subsistência.

 

O projecto fotográfico “Growing in Darkness”, a que se dedica ininterruptamente desde 2012, faz o retrato actual de uma realidade que já viveu. “Em Moçambique, os rapazes e as raparigas menores de idade pertencem, muitas das vezes, à classe trabalhadora, a lares monoparentais ou a agregados cujo sustento depende das próprias crianças”, explicou ao P3, em entrevista. “As circunstâncias forçam estas crianças a sair de casa e a viver na rua. Estão [por isso] frequentemente sujeitas a abusos, negligência, exploração ou, em casos extremos, a trabalho em fábricas e em mercados formais e informais.” Macilau entrou no espaço privado destas crianças, visitou as pontes e os prédios abandonados onde vivem e dormem. “São lugares muito escuros, húmidos e perigosos”, descreve. “Não existe água nem electricidade nem qualquer tipo de comodidade ou apoio doméstico. São lugares eternamente provisórios.”

 

Nas ruas de Maputo, a sobrevivência é Lei

O abuso de droga aparece, neste contexto, como um escape à dura realidade em que estão imersas. “As crianças refugiam-se no uso de drogas altamente prejudiciais e viciantes e ficam num estado de saúde debilitado, subnutrido”, explica o fotógrafo. “Alguns dos riscos que enfrentam incluem doenças, lesões corporais resultantes de acidentes rodoviários, lutas de rua, assédio por parte de extorsionários e da polícia, exploração sexual por pedófilos e proxenetas, exposição ao abuso de substâncias e a doenças sexualmente transmissíveis.” São os inalantes e os solventes – entre eles o rugby, uma cola à base de tolueno – as drogas preferenciais dos meninos de rua de Maputo. O xarope para a tosse e a marijuana são também drogas de uso comum, que chegam a ser consumidas três vezes por dia. A violência e a pequena criminalidade fazem parte do seu quotidiano; nas ruas de Maputo, a sobrevivência é Lei.

 

Embora não tivesse capacidade económica para frequentar a escola, Mário conta que durante a adolescência lia com regularidade e se envolvia, como voluntário, em actividades promovidas por organizações não-governamentais de Maputo. Foi assim que aprendeu a falar inglês – uma ferramenta que se tornou essencial no desenvolvimento da sua carreira. Apenas um ano após a sua profissionalização, em 2009, Mário seria finalista do concurso a “Fotógrafo do Ano da UNICEF” e veria o seu trabalho exposto na África do Sul e no Zimbabué. No ano seguinte, o seu trabalho viajou pela Nigéria, Bélgica e Espanha. Em 2011, a distinção no prémio BES Photo fez com que a sua obra integrasse o espólio do Museu Colecção Berardo e, no mesmo ano, somou exposições em Lisboa, Londres, Nova Iorque e Berlim. Em 2012, a exposição do seu trabalho no Festival Les Rencontres d’Arles, em França, consagrou a sua presença no palco da Fotografa mundial.

 

"Estou aqui, seguindo em frente"

“É bom lembrar que o que é uma desvantagem hoje pode ser uma vantagem no futuro – e vice-versa. Eu sou uma pessoa que não vive agarrada ao passado, o que de certa forma é bom; afinal foi assim que alcancei a minha liberdade. Sou uma pessoa muito persistente e por isso sofro muito no presente. Sei que este é o momento em que tenho de cumprir a minha parte. Com isto eu quero dizer que fui menino de rua durante muitos anos, sofri muito, tive escola em atraso – ou melhor, não estudei – mas para mim, isso serve-me como lição de vida. Eu percorri muitos caminhos, tropecei muitas vezes, todos meus amigos de rua morreram devido a problemas de saúde, mas eu estou aqui seguindo em frente."

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