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Que histórias povoam a imaginação das crianças refugiadas?

Livro de irmãs luso-brasileiras vai estar à venda online e as receitas servirão para ajudar a encontrar soluções de habitação dignas para refugiados que se encontram na Grécia

Texto de Patrícia Carvalho • 27/02/2017 - 11:18

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Era uma vez uma princesa, que não era bem como as outras princesas. Ela não gostava de ser bem comportada (preferia jogar à bola) e quando uma fada lhe concedeu um desejo, escolheu ser viajante. Nas suas viagens, a princesa Amira encontrou um pote de ouro, que ia distribuindo por quem precisava, até que chegou à Grécia e encontrou uma amálgama de viajantes como ela, alguns dos quais muito pobres. Amira partilhou o ouro com todos eles, que o usaram para chegar aos países para onde queriam ir ou para aguardarem, com todas as condições, o momento de poderem regressar à sua terra de origem.

 

A história aqui resumida chama-se A princesa viajante e foi criada por um grupo de dez crianças, com idades entre os 4 e os 14 anos, do campo de refugiados de Oreokastro, na Grécia. É apenas uma das histórias inventadas por crianças refugiadas e que estão compiladas no livro Contos Viajantes, nascido da imaginação e persistência de duas irmãs luso-brasileiras. Uma delas vive no Porto a outra está na Grécia, como voluntária independente, e entre cá e lá criou-se a obra, que já foi traduzida para onze línguas e que pretende ser um passo na ajuda à habitação digna para os refugiados.

 

Beatriz de Pina Castiglione, 27 anos, é arquitecta paisagista, mas desde pequena que confessa “uma paixão muito forte pela ilustração”. São dela muitos dos desenhos que animam o livro Contos Viajantes, nascido das muitas conversas que vai mantendo com a irmã Débora, de 29 anos, uma socióloga que no Verão do ano passado partiu para a Grécia, com o objectivo de ajudar os refugiados que ali estão, a aguardar a possibilidade de partir para outros pontos do globo. É ainda na Grécia que está, por isso as suas respostas chegam por escrito. “Queríamos construir juntas um projecto que tivesse a contribuição das duas e no qual ambas pudéssemos participar, ainda que estivesse cada uma em pontas diferentes da União Europeia. Quando eu já cá estava há cerca de um mês e depois de termos conversado sobre a minha experiência cá, com tudo o que ela tinha de dolorosa (por ver situações tão chocantes) e bela (na força, na esperança e da luta das pessoas, tanto dos refugiados como de quem os apoia) surgiu a ideia de fazer um livro”, explica Débora.

 

Meninos dos campos militares

Beatriz fala do projecto quase como uma inevitabilidade. Os contos de fadas sempre alimentaram a imaginação das duas irmãs e propor às crianças dos campos da Tessalónica, muitas das quais afastadas de actividades tão normais quanto ir à escola, que criassem histórias, foi uma ideia que cativou as duas de imediato. E que não foi difícil de incutir às crianças, garante Débora – ainda que todas tenham reagido de forma diferente.

 

Foram escolhidas crianças com diferentes realidades de acolhimento na Grécia – meninos dos campos militares, que a voluntária descreve como “uma afronta à dignidade humana” e outros que foram recebidos por famílias gregas ou por redes de solidariedade. “A única situação que não consegui incluir no livro é a das crianças que estão desacompanhadas, pois é difícil aceder a elas”, diz. Sobretudo, explica, o projecto deveria mostrar a quem o lesse que os refugiados não devem ser olhados apenas como vítimas. “São certamente vítimas da guerra e de políticas que negam o acesso a direitos humanos básicos, e é essencial não esquecer isso. Mas, acima de tudo, são pessoas, com tudo o que implica ser uma pessoa – os seus sonhos, os seus desejos e ideias, a sua criatividade e a sua esperança”, escreve Débora.

 

As crianças contam, entre outras, histórias de princesas que viajam e escolhem viver com migrantes pobres “porque foi com eles que Amira encontrou a felicidade”, de um cãozinho abandonado que finalmente encontra uma família, de coelhos que conseguem ultrapassar medos e problemas para ganharem uma casa ou de um bando de galinhas que enfrenta uma nave alienígena que lhe tinha roubado todos os ovos. “Sinto que há nas histórias parte da experiência delas e também reminiscências de histórias que conheciam. Uma coisa que me parece muito relacionada com a sua experiência como refugiados é o facto de que muitas históricas tocam o tema do acolhimento e estão também repletas de movimento”, diz Débora.

 

Livro estará à venda online

Beatriz teve exactamente a mesma sensação. E não é de estranhar que as duas irmãs escolham a história da princesa Amira como aquela que mais as tocou. Para a ilustradora, contudo, o projecto teve outros desafios aliciantes. Como fazer a personagem da história A menina da flor à semelhança da sua criadora, Rama, de 14 anos, porque a jovem o pediu. “A minha irmã enviou-me uma fotografia dela e foi com essa base que criei o desenho”, diz. Ou pegar nos desenhos com que Amanda, de 8 anos, construiu o enredo de Mamã pata e a casa de chocolate e transformá-los nas ilustrações que hoje preenchem o livro. Ou ainda pesquisar aspectos da cultura das meninas sírias, incluindo de hijabs, “para que não tivessem um ar muito antiquado”.

 

Por enquanto, apenas a versão italiana do livro está à venda, precisamente em Itália, mas as duas irmãs e as várias pessoas que, entretanto, se associaram ao projecto, estão a ultimar os aspectos burocráticos para que, brevemente, ele esteja disponível também em português para venda online. As receitas serão utilizadas para ajudar a encontrar soluções de acolhimento alternativas para os refugiados que permanecem na Grécia.

 

E Beatriz e Débora pensam já na possibilidade de fazerem uma segunda versão do livro, com novas histórias de outras crianças.

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