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Nelson Nunes

Nelson é escritor disfarçado de jornalista armado em investigador

O excerto

Enfiei-me numa livraria e só de lá saí quando me vi com todas as obras do escritor debaixo do braço. Li-as de um fôlego, em poucas semanas. Durante uma dessas leituras, a epifania: também eu quero escrever assim, também eu quero contar histórias desta maneira

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Crónica

Bill Bryson: este escritor já salvou vidas

Bill Bryson, um norte-americano anafado e com um pendor para a escrita jornalístico-humorística, mudou a vida de um rapazola português

Texto de Nelson Nunes • 26/05/2015 - 14:12

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O exercício da escrita é, de longe, o mais complexo acto da existência humana. Não se trata simplesmente de derramar tinta sobre uma folha de papel ou digitar uns caracteres num teclado de computador. Há mais – muito mais. Há um pensamento, um transbordar de emoções e uma estranha dose de inexplicável numa acção que tem tanta dose de consciente quanto de subconsciente. Muitos foram os homens e mulheres que me demonstraram isto ao longo dos últimos quase-trinta-anos. Contudo, não poderia deixar de destacar um em particular. Um homem que nunca conheci pessoalmente – para gigante pena minha – mas que me deu um empurrão escada abaixo nesta coisa das letras. Um escritor que, como tantos outros, me salvou a vida.

 

Quando li Bill Bryson pela primeira vez, encontrava-me sentado num banco de corredor do Instituto Superior de Economia e Gestão. Nessa altura, nos idos de 2005, julgava que os números seriam o meu shangri-la – quão enganado estava. A primeira frase que li deste artista foi a seguinte: “Bem-vindo. E parabéns. É com muito agrado que registo que cá esteja. Chegar aqui não foi fácil, bem sei. Na verdade, suspeito que tenha sido mais duro do que julga”. O livro chamava-se “Breve História de Quase Tudo” e tinha-me sido oferecido por um bom amigo. Li-o em poucos dias, quaisquer lugares serviam para sacar do livro e avançar mais umas páginas: a mesa de um café, o banco de um comboio, a espera pela namorada, um passeio no Jardim da Estrela. Maravilhei-me de tal forma com as histórias, o humor e a distribuição de informação, que quis de imediato recolher todos os trabalhos de Bryson.

 

Enfiei-me numa livraria e só de lá saí quando me vi com todas as obras do escritor debaixo do braço. Li-as de um fôlego, em poucas semanas. Durante uma dessas leituras, a epifania: também eu quero escrever assim, também eu quero contar histórias desta maneira. Algum tempo depois, cancelava a minha matrícula em Gestão e inaugurava o meu percurso no Jornalismo. Nunca negarei a minha dívida de gratidão para Bill Bryson – sem o saber, um norte-americano anafado e com um pendor para a escrita jornalístico-humorística mudou a vida de um rapazola português.

 

Desde então, sou ávido coleccionador dos livros deste homem. Sejam edições em português ou inglês, elas aqui estão, na biblioteca, religiosamente dispostas numa estante cimeira. O mais recentemente traduzido chama-se “Aquele Verão” e não desaponta. Aqui, Bryson entrega-nos de bandeja os eventos ocorridos em pouquíssimos meses e que determinaram, em muito, os motivos pelos quais os Estados Unidos são, ainda hoje, vistos pelo ocidente como um modelo a seguir – como tão bem demonstraram (e criticaram) Michael Hardt e Antonio Negri, no seu “Império”.

 

O Verão de 1927 foi o advento de feitos inexcedíveis como o primeiro voo transatlântico ininterrupto de Lindbergh, a produção da primeira obra cinematográfica em que podiam ouvir-se as vozes dos actores (“The Jazz Singer”), a ascensão meteórica do jogador de basebol Babe Ruth (basicamente o CR7 lá do sítio e da época), entre outros. É um documento extraordinário para compreender boa parte dos motivos pelos quais a nossa cultura é tão americanizada, sempre com o sumo adocicado da linguagem brysoniana. Espera-se que, em breve, a Bertrand complete a reedição do espólio praticamente esgotado da Quetzal, com a publicação de “O Diário Africano”, “Na Terra dos Cangurus” e “Notas Sobre um País Grande”.

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