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Mário Rufino

Mário Rufino é licenciado em Língua e Cultura Portuguesa

O excerto

Se a mensagem é medíocre, é o mercado que a pede com essa qualidade. O culto pela facilidade é terreno fértil para a banalidade. É aqui que se situa o consumidor que toma “Prometo Falhar” como literatura. É a sua capacidade de descodificação que está posta em causa. Deve, então, interrogar-se sobre a origem da mediocridade e quem, afinal, é que a reflecte.

Chris/Flicrk

Crónica

"Prometo Falhar": um livro escrito em interacção com o público

A origem de “Prometo Falhar” foi um conjunto de sugestões deixadas pelos fãs no Facebook. A partir daí, Chagas Freitas obrigou-se a escrever uma crónica com base na sugestão mais votada: o Amor.

Texto de Mário Rufino • 17/12/2014 - 16:37

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Pedro Chagas Freitas (n. Guimarães; 1979) gere com muita competência as expectativas de quem o segue. A sua destreza na construção de um discurso encontra paralelo em Paulo Portas na política, ou Gustavo Santos na auto-ajuda.

 

Uma das muitas actividades deste dinâmico produtor de conteúdos é a escrita. Dos muitos textos já produzidos, uma pequena parte foi publicada. Dessa parte, há um livro que se tem destacado pelas vendas e permanência nos tops: “Prometo Falhar” (Marcador).

 

Apesar de todo este sucesso, a crítica literária hesita (ou recusa-se) a falar muito sobre o livro. A razão parece simples:

 

Analisar “Prometo Falhar” através da hermenêutica literária é um erro.

 

É um livro, mas este formato não vincula a literatura. Não estamos perante um texto literário dotado de literariedade (a “literaturnost” formalista) e construído por um escritor. Estamos perante um produto recreativo… que é muito bem vendido pelo seu produtor.

 

“Prometo Falhar” tem características interessantes: constrói e aproveita a relação entre as expectativas do leitor e o texto. Este livro, já com 16 edições, foi escrito em interacção com o público presente na página do facebook do seu autor. Os seguidores (cerca de 235.000) acumulam-se e transformam-se, como no caso da formação do PCF Movement (com cerca de 8.400), parte integrante da estratégia de "marketing".

 

A génese das múltiplas narrações de “Prometo Falhar” foi um conjunto de sugestões deixadas pelos fãs nessa página. A partir daí, Chagas Freitas obrigou-se a escrever uma crónica com base na sugestão mais votada. A temática – bem vendável - manteve-se inalterada: o Amor.

 

O papel de recriador de sentido, que pertence ao leitor de um texto, foi desvirtuado. O produto criado, ainda antes de existir no formato livro, já despertava a atenção do consumidor; foi feito “pronto-a-vestir”.

 

A cultura de massas, industrial, baseia-se neste princípio de “plug-and-play”. O produtor de conteúdos foi hábil na construção do produto e exímio na elaboração de um "marketing" que está na base da sua “personal brand”.

 

A mediocridade, a existir, não começa em Chagas Freitas; começa no leitor se ler “Prometo Falhar” como se fosse literatura. De outra forma, está simplesmente a exercer a sua saudável liberdade de gastar o seu dinheiro e matar o seu tempo como quer.

 

O consumidor não se iluda: esta marca pessoal ocupou, com muita habilidade, um espaço num mercado sedento de retórica e imagem. Pedro Chagas Freitas tem esse mérito. Muitos tentam, mas poucos conseguem.

 

Se a mensagem é medíocre, é o mercado que a pede com essa qualidade.

 

O culto pela facilidade é terreno fértil para a banalidade. É aqui que se situa o consumidor que toma “Prometo Falhar” como literatura. É a sua capacidade de descodificação que está posta em causa. Deve, então, interrogar-se sobre a origem da mediocridade e quem, afinal, é que a reflecte.

Eu acho que
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