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Mário Rufino

Mário Rufino é licenciado em Língua e Cultura Portuguesa

O excerto

A viagem, em que tanto temos insistido, é sinónimo de interrogação sobre a sedentarização do ser humano e “fossilização” do pensamento. É essencial à filosofia, à literatura e, em consequência, ao desenvolvimento do Homem.

Mo Riza/FLICKR

Crónica

Diderot

As interpelações do narrador a quem o lê demonstram o seu inconformismo com as regras preestabelecidas e a sua desconfiança sobre o determinismo

Texto de Mário Rufino • 18/09/2014 - 14:04

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Denis Diderot (n.Langres, 1713-1784) promove a dialéctica como a forma mais adequada no exercício filosófico sobre assuntos como a liberdade individual, o fatalismo, a construção do Mal e do Bem e o livre arbítrio. Segundo Jacques, “Tudo o que acontece de bem e de mal cá em baixo está escrito lá em cima”.

 

Em “Jacques, o fatalista” (Tinta-da-China), é notória a importância da corrente iluminista assim como a presença de Rousseau, de Spinoza e, sublinhe-se, de Platão. A influência do filósofo grego reflecte-se tanto na estrutura narrativa como nas directrizes filosóficas.

 

Sob o jugo do determinismo, Jacques e o seu amo não têm pressa nem sabem para onde vão. Viajam ligando pouco à velocidade e ao destino. É o oposto da contemporaneidade. Hoje, temos um destino certo, útil, aonde queremos chegar o mais rápido possível. A distância temporal é diminuída pela velocidade. Esse espaço é cada vez mais reduzido, menos preenchido pela contemplação e composto cada vez menos pela “inutilidade” da arte de contar e ouvir histórias. Os dois amigos, que se esquecem da subalternidade na sua relação, não se regem por estes termos. O conceito de viagem é diferente, e isso dá tempo para a construção de uma teia de histórias numa obra de difícil catalogação.

 

Os episódios de amores, desamores, violência, roubos, guerra e zangas vão decorrendo pelas vozes das personagens e interrompidos pela rabugice e omnisciência do narrador, que bastas vezes se revolta contra as “exigências” do leitor e ironiza com o fatalismo das personagens.

 

O hipotético “fio condutor” da narrativa, ou seja os amores de Jacques, é secundário. As constantes interrupções inviabilizam a sua narração e permitem ao autor desobedecer à determinação de um tempo linear. Assim, esta obra é, também, uma reflexão sobre as muitas possibilidades da narrativa e, em consequência, da hibridez de géneros. Diderot experimenta novos caminhos na arte de narrar. As interpelações do narrador a quem o lê demonstram o seu inconformismo com as regras preestabelecidas e a sua desconfiança sobre o determinismo.

 

Diderot não se inibe de tentar envolver o leitor no seu processo criativo. Afinal, quando há uma história, há também o contador e há o ouvinte. A ligação entre uns e outros é de interdependência.

 

“Jacques- Tendes um furioso gosto pelas histórias!

 

O Amo – É verdade; com elas me instruo e me divirto. Um bom contador de histórias é um homem raro.

 

Jacques – E aí está exactamente a razão pela qual não gosto de histórias, a não ser que seja eu a fazê-las”.

 

Como Cervantes, em “Dom Quixote”, e Sterne, em “A Vida e as Opiniões do Gentil-Homem Tristam Shandy”, Diderot promove a viagem como mais do que uma deslocação física. A viagem, em que tanto temos insistido, é sinónimo de interrogação sobre a sedentarização do ser humano e “fossilização” do pensamento. É essencial à filosofia, à literatura e, em consequência, ao desenvolvimento do Homem.

Eu acho que

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