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Mário Rufino é licenciado em Língua e Cultura Portuguesa

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O excerto

Desde os primórdios da história até hoje, a perspectiva social sobre a mulher divergiu entre polos opostos. Segundo Rosaline Miles, “no princípio, quando a Humanidade emergia das trevas da Pré-história, Deus era uma mulher”. Mas muito se foi alterando. A vagina havia de se tornar profana, no tempo de Platão, depois vergonhosa, segundo o pensamento judaico-cristão, odiosa para os “Padres da Igreja”, subjugada na época vitoriana, até se chegar à visão modernista e de emancipação. O leitor tem uma longa, lúdica e pedagógica viagem.

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Crónica

“Vagina - uma nova biografia”

O estudo descomplexado, provocador e bem fundamentado faz de “Vagina – uma nova biografia” uma obra importante (para todos) no conhecimento do Ventre da Humanidade

Texto de Mário Rufino • 27/08/2014 - 17:30

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Naomi Wolf (1962; EUA) promove com “Vagina – Uma Nova Biografia” (Nova Delphi) uma exegese sobre a construção social e biológica da Mulher.

 

A análise da autora de “O Mito da Beleza” não se resume às características físicas; a vertente científica, histórica e religiosa sobre a vagina espelha a posição da cultura, em toda a sua pluralidade, em relação à Mulher.

 

Um problema com o nervo pélvico motivou a autora a investigar e a esclarecer um tema desconfortável. A própria linguagem, segundo conclui, é um obstáculo ao debate sobre a complexidade do corpo feminino. Essa complexidade (e respectivo entendimento) está longe de se limitar ao aspecto sexual.

 

“Compreender a vagina correctamente significa perceber que não só ela é coextensiva ao cérebro feminino, mas também, e essencialmente, uma parte da alma feminina”. Nesta obra são estabelecidas ligações entre os aspectos bioquímicos, filosóficos e transcendentais.

 

No capítulo “Será a vagina dependente?”, Wolf menciona a dependência bioquímica de uma substância, produzida em conjunto com outras, durante o sexo: a dopamina.

 

De acordo com o neurocientista Simon LeVay, a dopamina é a base de todos os mecanismos de dependência. E refere-se ao jogo, à pornografia, à ânsia de poder, às compras compulsivas. A inexistente conjugação entre a parte física e a mística, que leva a autora a criticar o consumo de pornografia, impede o aparecimento dos estudados efeitos benéficos do sexo em áreas como a criatividade, o amor-próprio e o autoconhecimento. “Tais momentos de elevada sensibilidade sexual criam na mulher a sensação de uma espécie de perfeição, de estar em harmonia e conexão com o mundo”.

 

A aceitação desta “harmonia” e “conexão com o mundo” sempre foi muito controversa. A vagina tem sido objecto de violência, controlo e repúdio.

 

Desde os primórdios da história até hoje, a perspectiva social sobre a mulher divergiu entre polos opostos. Segundo Rosaline Miles, “no princípio, quando a Humanidade emergia das trevas da Pré-história, Deus era uma mulher”. Mas muito se foi alterando. A vagina havia de se tornar profana, no tempo de Platão, depois vergonhosa, segundo o pensamento judaico-cristão, odiosa para os “Padres da Igreja”, subjugada na época vitoriana, até se chegar à visão modernista e de emancipação. O leitor tem uma longa, lúdica e pedagógica viagem.

 

 

A obra da escritora norte-americana é ainda enriquecida com um louvável prefácio do Padre Anselmo Borges.

 

Anselmo Borges, também professor de filosofia, oferece uma perspectiva histórica sobre o conceito de género (categoria histórico-cultural) e sexo (determinação biológica). A sua visão religiosa é crítica perante o não reconhecimento da igualdade de direitos e consequente submissão da mulher. Não se entende, segundo o padre, “a luta da Igreja oficial contra o feminismo e o que chamam a ideologia do género”.

 

O estudo descomplexado, provocador e bem fundamentado faz de “Vagina – uma nova biografia” uma obra importante (para todos) no conhecimento do Ventre da Humanidade.

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