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Mário Rufino é licenciado em Língua e Cultura Portuguesa

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“Coração de Cão” (Alêtheia), de Mikhail Bulgakov

O excerto

"Estamos em 1924, sete anos após a Revolução Russa, quando Filipe Filipovitch, consagrado cientista, e o Dr. Bormental, seu adjunto, conduzem uma série de experiências grotescas no interior do apartamento, utilizado também como consultório, do Dr. Filipovitch."

Rafael Marchante/ Reuters

Crónica

"Coração de Cão", de Mikhail Bulgakov

Ora através de monólogos interiores, ora através de narração numa 3ª pessoa ou por antropomorfização, a narrativa de “Coração de Cão” é um forte ataque à ditadura do proletariado, então vigente

Texto de Mário Rufino • 13/05/2014 - 15:17

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Satírico, provocador, polémico. Eis “Coração de Cão” (Alêtheia), de Mikhail Bulgakov (n. Kiev; 1891-1940).

 

Estamos em 1924, sete anos após a Revolução Russa, quando Filipe Filipovitch, consagrado cientista, e o Dr. Bormental, seu adjunto, conduzem uma série de experiências grotescas no interior do apartamento, utilizado também como consultório, do Dr. Filipovitch.

 

A experiência mais radical viria a ser concretizada quando os dois médicos procedem à transferência dos testículos e da hipófise de um ser humano para Charik, um cão vadio.

 

Ora através de monólogos interiores, ora através de narração numa 3ª pessoa ou por antropomorfização, a narrativa de “Coração de Cão” é um forte ataque à ditadura do proletariado, então vigente. Dr. Filipovitch, personagem central, é um desobediente reaccionário contra a organização social implementada com a Revolução Russa de 1917:

 

“Mas um dia, quando tiver tempo hei-de estudar o cérebro e vou demonstrar que toda esta balbúrdia é simplesmente um delírio doentio…”

 

Bulgakov, cirurgião profissional, confronta duas correntes de pensamento pretensamente antagónicas: O determinismo biológico e o determinismo sociológico de índole marxista.

 

As influências do hipotálamo transplantado parecem determinar, em Charik, a aquisição de características de Klim Tchugunkin, homem de onde veio o órgão transplantado.

 

Tchugunkin era alcoólico, um condenado, e menos digno do que o cão vadio. Por outro lado, a envolvência social em que Poligraf Poligrafovitch Charikov, nome adoptado pelo cão quando já é homem, tem influência na conduta do cidadão. Charikov rompe com a ordem estabelecida no apartamento do Dr. Filipovitch. O ser humano em “fase revolucionária” está num estado primitivo na escala evolutiva. O homem Charikov é um ser imperfeito, mal formado, e, em muitos aspectos, menos digno do que o seu anterior estado de rafeiro vadio. O cão amansado, comendo na mão do dono, era mais cómodo do que o revolucionário. Em paralelo ao desrespeito pelas mais básicas regras de higiene e alimentação, Charikov adopta um primitivo (assim considerado pelo médico) raciocínio revolucionário, muito devido a Chvonder, recém-nomeado administrador do prédio. Chvonder e restantes elementos da administração determinam o espaço a que cada habitante tem direito.

 

O apartamento do abastado Filipovitch dentro do prédio administrado pelo proletariado parece ser usado como uma metáfora da sociedade então vigente. O médico resiste e reage. Se querem dividir as suas posses (burguesia) pelos habitantes do prédio (proletariado), então devem dividir todos os prejuízos causados pelos estragos no apartamento e pelo cancelamento das consultas. Charikov, continuamente bem alimentado por Filipovitch, engasga-se.

 

.

 

Escrito em 1925, mas somente publicado em 1987 — após estar apreendido por décadas — “Coração de Cão” é uma brilhante sátira à sociedade da então embrionária URSS. Bulgakov consegue aliar o drama à comédia num romance rico em simbolismos e típicas estratégias de fuga à censura.

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