Orienta-te Redes Sociais

A citação

"Já não está aqui apenas a matéria contemplativa romântica, não são exatamente paisagens o que estas fotografias revelam mas o seu ventre violado por uma força, humana sem humano, uma mistura de desolação, destruição e reconstrução (fruto da vontade da destruição). Revela-se toda a perversidade da técnica: a natureza é violada e desfigurada, mas a técnica reproduz e repõe todos os seus anteriores elementos contemplativos num teatro onde falso e verdadeiro se indistinguem – um simulacro ordenado pelo trabalho e a vontade económica. Está aqui tudo o que existia antes numa paisagem “virgem”: escarpas, vegetação nas ravinas - estas estranhamente redesenhadas num inédito “mundo fechado” - e lagos que aqui são de sais de cobre mas iludem paraísos, não artificiais mas naturais. Mas convém recordar que a fotografia não faz aqui, ou não se destina, a juízos de valor ou morais; a fotografia (como o filme), pelo seu aparato e equipamento, como diz Stanley Cavell, regista. Mas não regista passivamente: ela recompõe o mundo numa nova ordem natural."
Carlos Vidal

DR

Entrevista

Tito Mouraz e um Portugal industrial que "passa despercebido a quem passa"

O fotógrafo prémio Emergente DST 2013 dos Encontros da Imagem acaba de lançar o livro "Open Space Office", que podia ser um roteiro turístico alternativo de Portugal

Texto de Luís Octávio Costa • 29/01/2014 - 20:33

Distribuir

Imprimir

//

A A

Começou numa pedreira de granito da Beira-Alta. Deslumbrou-se em Borba, Vila Viçosa e Estremoz. O terreno que pisou "era assustador e belo ao mesmo tempo", contou ao P3 o fotógrafo Tito Mouraz (1977), prémio Emergente DST 2013 dos Encontros da Imagem. O autor acaba de lançar uma edição de autor do livro "Open Space Office" (500 cópias da edição normal e 25 numa edição especial com caixa de madeira), cheio de paisagens industriais que "passam despercebidas a quem passa".

 

Por onde andaste durante os três anos deste projecto?

Esta série foi iniciada no meu último ano de faculdade, onde apresentei um projecto com umas imagens de uma pedreira de granito da Beira-Alta. Decidi regressar a ele mais tarde e estender a série a todo o território, do Norte ao Sul, com o intuito de procurar outros materiais, cores, texturas... É certo que, na sua maioria, são imagens captadas no Alentejo, mais propriamente na zona de Borba, Vila Viçosa e Estremoz. Foi aqui que mais me deslumbrei. Era assustador e belo ao mesmo tempo. O desafio era passar exactamente isso para a película.

 

Poderia ser um roteiro turístico alternativo?

São paisagens industriais que, neste caso, crescem no sentido inverso ao habitual. Passam despercebidas a quem passa. A melhor experiência que tive durante este projecto foi mesmo o contacto com os locais. Nas minhas imagens, e com o meu olhar, apenas dou a oportunidade ao espectador de os reconstruir, de os imaginar. Exploro um lado menos assustador, colorido, iluminado, cidades, edifícios e piscinas com escadas infinitas. Torna-se apetecível. Há fantasia neste meu trabalho. Acredito que tudo muda estando lá, têm-se uma visão mais global. Cada um será livre de criar e sentir. É difícil transpor para a película a experiência pessoal de tudo o que se sente e de tudo o que se observa nestes locais rasgados e imensos, onde o silêncio é sentido de uma forma anormal e intimidatória. É sabido que a imagem não substitui o real. Acho que na sua maioria as imagens passam esse desejo de estar lá, de tudo isto ser presenciado ao vivo.

 

Porque "Open Space Office"?

São espaços gigantes, como os grandes edifícios citadinos de escritórios e de trabalho. Visualmente não há acesso, apenas se imagina a quantidade de pessoas que lá trabalha e a confusão diária. Aqui, isso é trocado pelas máquinas que parecem de brincar em buracos arquitectónicos, com paredes desenhadas e projectadas a céu aberto. É preciso entrar para assistir.

 

"Leitura(s)" era sobre objectos que ocupam espaços. Porque esta evolução para paisagens amplas e desocupadas?

Na verdade, são espaços amplos, mas não sei se os considero desocupados. É uma realidade que diariamente sofre um processo de transformação, não só pelo homem, mas também pela natureza, que se vai adaptando às formas e à própria matéria. Às vezes parecem quase jardins pensados de propósito para o lugar.

 

Venceste, a par da fotógrafa belga Sanne de Wilde, o prémio Emergente DST 2013 dos Encontros da Imagem de Braga com este trabalho...

A série distinguida com Prémio Emergente DST é um “work in progress” iniciado em finais de 2010. Continuo a trabalhar nesse projecto. Neste caso, também vai ao encontro da transformação do lugar, mas num espaço meu, onde vivi muitos anos e acompanhei toda a sua transformação humana e natural. Há um lado mais afectivo que torna tudo mais desafiador. A responsabilidade aumenta quando se trabalha num território familiar. Constantemente sinto o local e vejo novas imagens. É mais difícil sentir o fim.

 

O livro tem a cor da terra barrenta e a textura da pedra. É esse Portugal em transmutação que procurarás nos próximos trabalhos?

Este é um projecto menos colorido, com um olhar mais protector. Isso faz com que seja mais distante de projectos anteriores meus e ao mesmo tempo faz com que fortaleça toda a relação que tenho com o lugar. Enquanto autor gosto dessa liberdade de trabalho, é importante. De momento é aqui que me situo, exemplo disso é a série "Rua da Cabine", realizada em 2013, também com uma forte característica familiar e de aproximação emotiva.

 

Há mercado para livros de fotografia?

Nunca vi tantos livros de fotografia como nos últimos anos. Há uma vontade enorme por parte dos autores em verem o seu trabalho em forma de livro. Obviamente que a procura, na sua maioria, é feita por pessoas do meio, que acaba por não ser extensa, o que dificulta o seu escoamento. Além disso, fazer um livro de fotografia não é barato, o que faz com que o preço de venda não seja acessível a todas as pessoas que o desejariam ter. Em Portugal, tudo isto ainda é mais difícil face à pouca procura e à própria economia. No meu caso, o livro acaba por nunca ser só meu. O resultado final é um conjunto de ideias minhas e do designer (e amigo pessoal) Sérgio Couto. É um trajecto feito a dois. Acima de tudo, este livro encerra um capítulo. Além de uma satisfação pessoal, permite que as imagens circulem e sejam lidas noutros locais, por outras pessoas e de uma outra forma.

Eu acho que

Pub

Videoclipe.pt
Videoclipe.pt

Audio

Laura quer que as pessoas entrem no atelier dos artistas "com um clique"

Vídeo

Desde 2000, estima-se que dez mil crianças palestinianas tenham sido detidas pelo exército israelita. A cada 12 horas, uma será detida, interrogada, processada...

O que une e separa todos os irmãos do...

Fotografia // Quando falamos de irmãos, a palavra partilhar torna-se praticamente obrigatória...