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<b>Ana Marques Maia</b>

Ana Marques Maia

A frase

“Há uma coisa que me assusta, que é a edição e divulgação do texto sem passar por um crivo. Quando uma pessoa manda um livro para uma editora, tem pelo menos a marca da aceitação dessa editora, que o considerou digno de publicação", diz Maria do Rosário Pedreira, editora para novos autores da Leya

Livros

Os jovens querem publicar "cada vez mais cedo" e isso nem sempre é bom

As novas ferramentas de publicação podem ajudar os jovens a publicar, mas essa relativa facilidade pode reflectir-se em livros que não passaram por qualquer crivo. Maria do Rosário Pedreira fala numa geração "formada pela televisão"

Texto de Ana Maria Henriques • 23/12/2013 - 10:47

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“As pessoas estão a querer publicar cada vez mais cedo.” Quem o diz é Maria do Rosário Pedreira, editora da Leya para novos autores portugueses que, em média, anualmente, recebe 150 manuscritos para avaliação. “Muitas vezes percebe-se que nem sequer leram nada”, diz. Há até quem envie livros por e-mail, assumindo que nem gosta de ler. “Acham que a escrita é independente da leitura, o que é de facto mau.”

 

O processo de escrita e publicação de livros está a mudar: as novas tecnologias permitem que se publiquem manuscritos na Internet, em pouco tempo. E isso nem sempre é bom. “Vê-se muita coisa má do ponto de vista da escrita e da ortografia e muita gente a bater palmas”, considera Maria do Rosário. Mas também há o outro lado da moeda, “os que o fazem por não terem dinheiro para edições de autor de livros físicos” e que olham para este sistema como uma forma de democratização do processo.

 

Na grande parte das vezes, a editora não sabe a idade de quem escreve os textos que lê. Mas há características que apontam para jovens. “Vê-se muito que há uma geração já formada com a televisão, porque muitos livros que me chegam são escritos no presente indicativo, em diálogo e sem discurso indirecto.” Suspeita que sejam de “gente mais nova”, que apenas faz “conversas entre personagens”, tudo dito em tempo real e quase como um guião. “Há alguns que nascem com talento e outros não, como para tudo.”

 

João Tordo tem uma opinião semelhante: “A escrita não pode ser a vocação de toda a gente”. “Para cada mil candidatos, há um que se revela um autêntico escritor. O que não significa que os outros não possam escrever: não custa dinheiro e é das actividades mais enriquecedoras que existe. Mas não temos todos de publicar livros”, considera, em entrevista ao P3 via e-mail.

 

A falta de um crivo pode ser “um risco”

De tempos a tempos, aparecem coisas de moda, explica a também editora de Tordo — “independentemente dos estilos”. “Quando foi a moda da fantasia, aparecia aqui um sem número de mundos mágicos — e com os vampiros a mesma coisa. Agora já começaram a aparecer manuscritos de temática erótico-pornográfica, inspirados pelas ‘Cinquenta Sombras de Grey’. Pensam que se fizerem alguma coisa da moda são facilmente publicáveis”.

 

Nos últimos quatro anos, a Bubok editou mais de sete mil livros em Portugal. Alexandre Lemos, “country manager” da plataforma de auto-publicação, não consegue tipificar, com precisão, quem os procura. “Se falarmos de investimento na carreira, de assumir a publicação de um livro como uma actividade profissional, aí sim, encontramos cada vez mais gente a fazer percursos ambiciosos e muito sólidos, cada vez mais cedo e sem esperarem por ninguém", refere.

 

Esta é, aliás, outra das preocupações de Maria do Rosário Pedreira. “Há uma coisa que me assusta, que é a edição e divulgação do texto sem passar por um crivo. Quando uma pessoa manda um livro para uma editora, tem pelo menos a marca da aceitação dessa editora, que o considerou digno de publicação”, reflecte. E nos casos em que esse “crivo” não existe é mais provável encontrar erros. “É um risco.”

 

“A auto-publicação é agora um chão que todos parecem estar dispostos a pisar: conhecidos, desconhecidos, novos, velhos, homens e mulheres”, resume Alexandre.

 

Oficinas de escrita não oferecem “fórmulas”

Raquel Caldevilla e Filipa Fonseca Silva nunca participaram em “workshops” ou oficinas de escrita criativa ou de romances, mas reconhecem, tal como Maria do Rosário Pedreira, que este tipo de actividades pode ser uma ajuda na hora de estruturar um livro. “Pode aprender-se a escrever melhor, a organizar ideias e várias maneiras de estruturar uma narrativa”, crê a editora, sempre com a reserva de que “não se ensina ninguém a escrever”. “Podem ser perniciosos”, julga.

 

Além de escritor, João Tordo é também formador em oficinas deste tipo. “Um curso de escrita criativa não visa formar escritores nem oferecer fórmulas e, muito menos, angariar novos talentos. Eu não sou professor e os meus formandos não são alunos”, defende. “Somos pessoas interessadas numa actividade específica — a escrita — e o que tento fazer é passar alguma da minha experiência ou tentar corrigir alguns preconceitos.”

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