A guerra civil de Angola num filme de animação

autoria Amílcar Correia

// data 15/05/2018 - 16:45

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Mais um dia de vida – Angola 1975 é um dos relatos mais poderosos sobre a guerra civil naquela antiga colónia portuguesa e um dos textos mais fascinantes de Ryszard Kapuscinski. Na introdução da primeira edição portuguesa (Campo das Letras, 1997), escreve o repórter de guerra polaco: “Este é um livro muito pessoal, sobre a experiência de estar sozinho e perdido”. A experiência do jornalista, que fez a cobertura da declaração de independência de vários países africanos desde o Gana, em 1957, foi transposta para as salas de cinema.

 

Un dia más con vida, de Raúl de la Fuente e Damian Nenow, é a adaptação animada daquele texto, cuja estreia terá lugar na secção oficial fora do concurso do Festival de Cannes, que está a decorrer naquela cidade francesa. Trata-se de uma co-produção entre a Kanaki Films, que assegura a direcção artísitica do projecto em Espanha, e o estúdio polaco Platige Image, a cargo de quem ficou a animação. De resto, Kapuscinski sempre foi um autor popular em Espanha, onde os seus livros foram publicados décadas antes de serem lançados no mercado português, beneficiando de traduções a partir do polaco, e onde recebeu o prestigiado prémio Príncipe de Asturias 2003.

 

O filme animado reveste-se de particular interesse para o público português, sobretudo para quem conheceu Luanda naquele período histórico, na medida em que relata como nenhuma outra obra o processo de saída de milhares de retornados, como eram referidos os cidadãos nacionais que deixaram as antigas colónias rumo a Portugal. Kapuscinski descreve a transferência do “conteúdo da cidade de pedra para o interior da cidade de madeira”, que atracaria com os seus proprietários nas gares fluviais de Alcântara, em Lisboa.

 

“Nunca vira uma cidade assim em nenhuma parte do mundo, e talvez não volte a ver nada que se assemelhe”, observou. “Existiu durante meses e, de súbito, começou a desaparecer. Ou melhor, bairro após bairro, foi levada de camião para o porto!". Quatrocentos anos de colónia acabavam, inapelavelmente, encaixotados. Kapuscinski seguiu o trilho da guerra, que envolvia três exércitos de guerrilha. Kapuscinski sobreviveu, a guerra acabou e Mais um dia de vida eterniza-se! Para já, não é conhecida ainda qualquer distribuição do filme agendada para Portugal.

 

Eu acho que