Nelson Garrido

Documentário

Porque o rap também conta a história do Porto

Catarina David e Francisco Noronha são os autores de “Não consegues criar o mundo duas vezes”. Não é apenas um documentário — é um testemunho movido pelas vivências e pelo amor às ritmas e batidas com sotaque do Porto. Estreia-se a 30 de Novembro no festival Porto/Post/Doc

Texto de Nuno Rafael Gomes • 20/11/2017 - 00:04

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Finais da década de 80. Há um movimento a borbulhar em cada rua e ruela do Porto, percorrendo as suas esquinas em palavras cantadas. Os putos espalham-se por zonas distintas: uns encontram um spot em frente à Câmara de Matosinhos, outros soltam rimas em Vila Nova de Gaia e muitos vão parar à rua “vazia” de Cedofeita, “onde tudo começou”, no extinto bar Comix, a meca para aqueles que querem ouvir mais do que o que as rádios dão. Já há rap português a ser feito no Cacém, na Amadora ou na Margem Sul. No Norte, fala-se no rap do Porto, só do Porto, porque os beats, as rimas e o flow atravessam continuamente a Ponte Luís I e estabelecem elos de ligação entre os vários grupos e rappers ao longo de toda a década de 90. Um movimento que cresce unido ainda que com diferentes raízes, como resumiam os Mind Da Gap em Todos Gordos (2000): “1, 2 pa Matosas, 3, 4 para Gaia, 5, 6 Porto inteiro". 

 

Essa é a história que Francisco Noronha, de 29 anos, e Catarina David, 27, querem contar com Não consegues criar o mundo duas vezes, que se estreia a 30 de Novembro no cinema Passos Manuel, em mais uma edição do Porto/Post/Doc. Um documentário sobre um passado recente, construído sobre arquivos, memórias e vivências dos próprios e de todos aqueles que tornaram o rap desta cidade um “caso peculiar”. A forma como a realização do filme se desenrolou foi por acaso ao encontro da premissa da 4.ª edição do festival de cinema, dedicada ao arquivo e ao pós-memória. Algo “não planeado” por Francisco e Catarina. Aliás, o documentário é fruto de “muitas conversas sobre rap” dos dois amigos, que não partilham apenas o gosto pelo género musical — ela é formada em cinema; ele, crítico de cinema e colaborador do PÚBLICO. Ambos concordam: o filme surge “de forma natural”. 

 

É mais do que imagem e som em movimento para se passar um bom tempo a ver; é também um acervo, “não só para os mais novos, também para os mais velhos, que sabem o que é o rap, mas que não têm noção que há um rap do Porto”, explica Francisco. Para todas as faixas etárias, as perspectivas serão diferentes, mas o olhar acompanhará o mesmo: a evolução da cidade do Porto (e da periferia), com a banda sonora a reflectir o passar do tempo.

 

Um filme para todos, como o rap do Porto

Mais de 20 anos depois, os cenários foram mudando: já não há Comix, a Rua de Cedofeita já não é deserta depois das 18h e a na Baixa há luz, muita, vê-se gente em todo o lado pela noite fora. O Porto mudou, mas o ADN do rap da cidade mantém-se intacto, independentemente de “fases de amor ou de desatenção”. Francisco e Catarina não assistiram ao nascimento do movimento no Porto e preferem considerar-se “irmãos mais novos” dos primeiros, que testemunharam as primeiras rimas de grupos como Reunião das Raças. Foi com os impulsionadores e pioneiros do rap made in Porto que falaram, justamente naqueles sítios “para onde ninguém ia, onde se reuniam as tribos”.

 

Mergulharam neste pequeno, mas profundo, mundo do hip-hop nos finais da década de 1990. Na escola, tinham começado "a circular, de forma algo obscura”, músicas de gente que, como eles, vivia a cidade. A partir daí, passaram a identificar-se com “as vivências, o amor à cidade, a transformação do Porto” de que as canções falavam. Era “o mistério da noite” imbuído naqueles beats, como “a experiência de passar a Ponte Luís I à noite”, conta Catarina. E todos os rappers, MC e grupos debruçavam-se sobre temas transversais que “preenchem a alma de qualquer habitante do Porto” — ainda que através de linguagens diferentes. Músicas “onde moram sentimentos de saudade, de culpa, de remorsos, da defesa do seu território, das próprias raízes e até de Deus”, sempre com as expressões e calões próprios da região. Tudo isto “orgulhosamente tripeiro”, sem amarras, sem sotaque para esconder. E, "o mais importante", a sensação de pertença a uma "zona mágica", epitomada pelos Dealema, o pentágono do rap portuense que colou Vila Nova de Gaia e Porto. Contudo, naquela altura, "ouvir rap até era visto como algo subversivo", conta Francisco, e hoje o género vive dias diferentes. 

 

O P3 encontrou-se com a dupla num café que se reveste de tons claros, onde as xícaras de chá deixam no ar aromas diversos, que vão escalando pelas paredes enquanto os vidros se embaciam. A banda sonora é diversa — ouvem-se os sucessos habituais das rádios, mas, pelo meio, há Sam The Kid ou canções com beats de Gramatik. "Há uns anos, era impensável ouvir-se hip-hop ou rap num sítio destes", conta Catarina, explicando que estes géneros "sobreviviam nos sítios mais underground" da cidade. Nos tempos da adolescência, Catarina e Francisco eram vistos como "os que ouviam hip-hop" — era tempo do Sem Cerimónias dos Mind da Gap, que há pouco fez 20 anos, e dos Tempos Conturbados dos L.C.R.. Era a altura de "mostrar aos pais que, afinal, as letras daquelas músicas tinham conteúdo, como versos inspirados em Almada Negreiros".

 

O boom do hip-hop, que "há muito luta para deixar de ser visto como 'música menor'", permitiu esta abertura das produtoras, das rádios e da própria sociedade a um estilo que, não raramente, era estereotipado e visto quase como "marginal". O esforço, "iniciado especialmente nos Estados Unidos", começou com Timbaland e Pharrell Williams a infiltrarem-se no mainstream. Agora, há rappers a encher festivais — por cá e por lá. Veja-se o caso de Kendrick Lamar a pôr meio mundo a cantar “we gon' be alright” ou o de Cardi B a rappar sobre sapatos Louboutin, e com isso a chegar ao primeiro lugar da Billboard. Os DJ passam Drake para uma multidão nas discotecas, cheias de jovens que dizem não querer uma boa vida, mas uma Vida Boa, o sucesso de Slow J. No Norte, há pacotes de açúcar a voar em cada concerto dos Conjunto Corona, há retratos do quotidiano em forma de rimas por Deau. As rádios abrem-se para Capicua, que vem acompanhada pela ferocidade de M7. Se há bares que fecham e ruas que se enchem, o amor à cidade mantém-se e é vísivel nos trabalhos dos rappers portuenses — da Invicta dos Mind da Gap em 2002 às Margens do Douro de Mundo Segundo (com Maze e Macaia) em 2017, onde até se sente um "cheiro inesquecível como noites de São João".

 

Foi a fase perfeita para se filmar algo sobre o rap do Porto — será ousado dizer-se que é um subgénero? —, numa altura em que grande parte dos pioneiros ainda está em actividade. Este é um documentário feito “de memórias frescas, com 20 anos”, explica Catarina, “mas ainda há mais para contar”, porque “isto ainda está no início”. Ainda assim, esta não é uma obra só para quem é do Porto ou só para quem viveu este movimento: “O filme não se pode fechar em si mesmo, não é um filme de nicho”, explicam. É para todos, tal como o rap do Porto.

 

Não consegues criar o mundo duas vezes tem estreia marcada para o festival Porto/Post/Doc, que decorre de 27 de Novembro a 3 de Dezembro, dividindo-se entre o Rivoli, o Passos Manuel, a Faculdade de Belas Artes e o Maus Hábitos. Quanto a outras datas de exibição, a dupla promete: “Há outra data marcada em Portugal, mas não podemos revelar qual.”

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