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Sónia Balacó é actriz, membro da companhia Há.Que.Dizê.Lo

Sónia Balacó é actriz, membro da companhia Há.Que.Dizê.Lo e vive entre Londres e Lisboa

Excerto

"Dercon relembra que Sokurov lhe disse que a pintura acabou no século XIX, que toda a arte contemporânea é odiável, e que a seu ver a pintura contemporânea é o cinema. Parece-me evidente que a arte de Sokurov procura um espaço de irmandade entre as suas obras e as que admira, num diálogo atravessando os séculos e as formas"

DR

Aleksandr Sokurov, cineasta

Crónica

Sokurov e o museu como espaço de direito do cinema

Para Chris Dercon, director da Tate Modern, o papel dos museus é este: dar voz a artistas que, devido à especificidade das suas obras, não teriam outra maneira de as realizar

Texto de Sónia Balacó • 30/12/2011 - 14:22

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O British Film Institute em Londres fez em Novembro e Dezembro de 2011 uma retrospectiva da obra completa de Aleksandr Sokurov, o cineasta russo responsável por "A Arca Russa" (2002) e que ganhou em 2011 o Leão de Ouro no Festival de Veneza com "Fausto".

 

Dividida em duas partes, "Aleksandr Sokurov: A Spiritual Voice, em Novembro", e "Alekandr Sokurov: St Petersburg to the World", em Dezembro, a retrospectiva contou na sua abertura com a presença do próprio e teve vários convidados ao longo dos dois meses. A sessão dupla de "Elegia de uma Viagem" (2001) e "Dolce" (2000) no dia 7 de Dezembro foi apresentada por Chris Dercon, director da Tate Modern desde Abril de 2011.

 

Enquanto director do Museu Boijmans, em Roterdão, Dercon convidou vários artistas, entre os quais Sokurov e Jeff Wall, a fazerem projectos "site-specific" para o museu a partir de obras patentes no mesmo. É em jeito de anedota que conta o conturbado processo de pré-produção de "Elegia de uma Viagem", filme que esteve quase para não ser devido ao encontro de Sokurov com Dead Troops Talk, fotografia de Jeff Wall em exibição no Boijmans. Para o cineasta russo esta obra era um ataque à honra da sua nação, e decidiu, por isso recusar a proposta. Depois de intensa correspondência, Sokurov lá acedeu a integrar o projecto, desconhecendo que Wall também fazia parte da lista de artistas convidados.

 

Assim surge "Elegia de Uma Viagem", no qual vemos um protagonista deambular noite fora até ao Museu Boijmans, e aí por entre quadros de Brueghel e Saenredam. É o próprio realizador que nos narra a viagem mental de um homem que atravessa perdido a noite enquanto discorre sobre a relação entre arte e experiência e sobre a necessidade de a arte resistir ao tempo. É fácil associar o deslumbramento do protagonista, que se apropria dos motivos e das datas nas obras e os transforma em memória, ao deslumbramento do cineasta, que se apropria do movimento e da luz para registar o próprio tempo, que usa como forma e tema.

 

Dercon relembra que Sokurov lhe disse que a pintura acabou no século XIX, que toda a arte contemporânea é odiável, e que a seu ver a pintura contemporânea é o cinema. Parece-me evidente que a arte de Sokurov procura um espaço de irmandade entre as suas obras e as que admira, num diálogo atravessando os séculos e as formas. O cinema que faz sabe que é descendente da pintura, e quer nada menos do que conquistar o seu espaço de direito no museu. Daí que, ao exibir "Elegia de uma Viagem" no Boijmans, tenha composto numa das paredes adjacentes à do filme uma instalação de duas pinturas clássicas retro-iluminadas, que se deveriam apagar quando o filme estivesse a ser projectado, e iluminar-se quando este acabasse. O espaço da parede do museu é tomado de assalto pelo cinema, mas não sem a devida vénia à pintura, com que, ainda assim, não pode coexistir. Um e outro são tempos diferentes, inconciliáveis.

 

Dercon terminou a sua introdução afirmando que também ele acredita numa ideia de proximidade entre o cinema e o museu - enquanto director do Haus der Kunst, em Munique, ajudou a financiar "O Tio Boonmee Que Se Lembra das Suas Vidas Anteriores", filme de Apitchapong Weerasethakul que ganhou a Palma de Ouro em 2010. Nas suas palavras, é esse o papel do museu contemporâneo, o de dar voz a artistas que, devido à especificidade das suas obras, não teriam outra maneira de as realizar. E convida: “se tiverem um guião para o qual não conseguem financiamento, mandem-mo”.

 

Estas palavras provocaram alguns movimentos de cabeça na sala semi-cheia do British Film Institute. Numa altura em que aumentam os cortes nos apoios e em que os discursos do impossível se multiplicam, é inspirador ver tanta paixão e tanta vontade de fazer. Fica a curiosidade de ver como se desenvolverá o ainda curto percurso de Chris Dercon à frente da Tate Modern.

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