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Francisco Noronha vive no Porto e estuda Direito

Francisco Noronha vive no Porto e estuda Direito. É dos que acreditam que ainda há quem queira ler textos longos na Internet

Excerto

Será que é preciso bombardear o espectador durante quase três horas com posters do Tony Carreira a piscar o olho ao plano, música pimba ou relatos de futebol em voz "off"?

DR

Sangue do meu Sangue

Crónica

A portugalidade em “Sangue do Meu Sangue”

Ao forçar o retrato de uma realidade social degradada como o faz, Canijo já não está a falar (só) de Portugal. E colocar meia dúzia de “bandeiras” nacionais (música pimba, relatos de futebol, etc.) não altera essa evidência

Texto de Francisco Noronha • 20/12/2011 - 14:22

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Em “Sangue do Meu Sangue”, é notório (não o podia ser mais) o interesse de João Canijo em documentar a portugalidade séc. XXI – feia, porca e má. Nada contra isto, muito pelo contrário. A questão está na forma como isso pode ser feito.

 

A meu ver, Canijo fá-lo no formato mais "telenovesco" possível, o mesmo é dizer, do modo mais fácil, gratuito e imediatista. Será que é preciso bombardear o espectador durante quase três horas com posters do Tony Carreira a piscar o olho ao plano, música pimba ou relatos de futebol em voz "off"? Não é, e fazê-lo só demonstra uma certa dificuldade em retratar um determinado tema com algo mais para além do superficial e do folhetinesco. Basta pensarmos em Teresa Villaverde ("Mutantes", uma obra que também incide sobre a juventude, a marginalidade e a falta de rumos), Manuel Mozos (o fabuloso “Xavier”, filme-fronteira do Portugal pré e pós União Europeia) ou César Monteiro (a trilogia de João de Deus) para se encontrar essa mesma portugalidade filmada, mas, desta feita, sem o recurso a estereótipos cristalizados. É que não o fazendo, o que ressalta é uma incomparavelmente maior genuinidade do objecto que se retrata, das suas idiossincrasias, seus tiques e vícios.

 

Esses filmes de Villaverde, Mozos e César Monteiro captam, na perfeição, o nosso país e o que é "ser português" – ou alguém tem dúvidas? Está tudo lá, mas agora introduzido de forma sóbria, subtil, dando ao espectador menos a "ver" (como faz flagrantemente Canijo, que nos espeta pelos olhos adentro todas as marcas imagéticas da portugalidade) e mais a procurar, a reflectir, a (re) descobrir. O que acaba também por constituir, está bom de ver, um maior campo de liberdade (e de interesse, et por cause) para um espectador que não queira identificar tudo na primeira jogada.

 

Arrisco mesmo perguntar o seguinte: de tão exacerbado que é o retrato do nosso portuguesismo (o tal bombardeamento de "etiquetas"), não sairá a própria realidade falseada? Eu creio que sim. Por circunstâncias várias, tive e tenho contacto com muitas pessoas que podiam ser as deste filme, a viver ali, num bairro como aquele. E as coisas não são "tão" assim – a realidade portuguesa, a dos bairros sociais e das vidas que aí se cruzam, não é como João Canijo a descreve, ou, pelo menos, não é tão suja, tão porca e tão má. Isto poderá ser refutado – sim, existirão muitos lugares do país onde a vida é assim ou pior ainda. Só que esses lugares existirão não só em Portugal como em qualquer bairro social marginalizado de uma grande metrópole, pelo que, logo aí, se desvanece o suposto olhar genuíno e sociológico sobre a portugalidade que “Sangue do Meu Sangue” reclama.

 

Ao forçar um retrato de uma realidade social degradada como o faz, Canijo já não está a falar (só) de Portugal. E colocar meia dúzia de “bandeiras” nacionais (música pimba, relatos de futebol, etc.) não altera essa evidência.

 

Uma sugestão: é só ver o filme de Mozos e compreender como o cinema, por mais realista que pretenda ser, pode, com uma simplicidade desarmante, captar uma realidade, uma cultura, de um modo muito mais honesto e verosímil quando as deixa respirar, por si, em frente a uma câmara, ao invés de delas extrair, à força, quase as violentando, as suas marcas mais epidérmicas. Um povo é todo o iceberg, e não apenas as suas pontas.

Comentários

    Anónimo (não registado)

    14/01/2012 - 19:11

    Francisco, Belo texto, parabéns. Pessoalmente, achei o filme dicotómico: muitíssimo bem filmado e com uma direcção de actores excelente (comparar com Mike Leigh, um dos maiores génios do cinema, talvez seja ousado, ainda assim), mas com uma narrativa paupérrima. A expressão 'telenovelesca' talvez seja a expressão correcta. Acho estranho que nenhum crítico português o tenha dito. Há uma protecção cega ao cinema português por cá, o que é bom, e mau, a vários níveis. Um abraço, Guilherme

    Cláudia Chéu (não registado)

    23/12/2011 - 12:22

    Não concordo, Francisco. O último filme do Canijo está bem filmado, tem bons diálogos e sobretudo uma excelente direcção de actores. Não podemos confundir realidade com verosimilhança na Arte, contudo, garanto-lhe que aquele bairro e as pessoas que lá habitam (já lá dei aulas) estão bem retratadas, o Canijo não as "clichetizou". O filme tem densidade, não é uma caricatura. Não entendo as comparações ao Mozos ou ao César Monteiro (adoro a obra deste último). De que vale comparar autores? Acha que o Portugal de Lobo Antunes é mais autêntico do que o de Saramago ou o do Gonçalo M. Tavares? É injusto confundir gosto com qualidade, não acha?

    Manuel Alves

    20/12/2011 - 22:10

    Todos os nacionalismos são exacerbados, frequentemente mal transmitidos e, consequentemente, mal interpretados. Não vi o filme em questão e provavelmente não vou ver. Mas não é condição necessária para dar opinião acerca do tema do texto. A portugalidade (não gosto da palavra, tal como não gosto de quaisquer outros espartilhos linguísticos usados para circunscrever conceitos humanos demasiado amplos) é o que for para quem queira classificá-la de alguma coisa. Se for retratada num filme, é a visão do realizador. Se é um retrato mais ou menos fiel, isso já pertence à opinião de quem entende concordar ou discordar da interpretação cinematográfica. Não vou aqui considerar o papel da realidade como bitola para determinar quem está certo ou errado porque a realidade, como já se sabe (saberá quem não tiver palas nos olhos), não segue um padrão absolutamente rígido nem a sua norma é linear. A realidade é tridimensional e a sua interpretação depende da dimensão pessoal de quem a experimenta. Se é válido dizer que determinado filme, que pretendia fazer um retrato, não foi além da caricatura? É. Talvez tão válido como admitir que haverá quem fique mais satisfeito em ver-se representado por uma caricatura do que por um retrato.

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