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Filipe Carvalho: um “motion designer” entre a HBO e a Marvel

Do lado de lá gabam-lhe o "olhar cinematográfico". Sem sair de Portugal, Filipe Carvalho colabora com alguns dos mais reputados estúdios norte-americanos, visualizando genéricos de séries como "Cosmos" e filmes como "Thor 2"

Texto de Amanda Ribeiro • 12/05/2015 - 13:17

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Há sete anos, o "webdesigner" Filipe Carvalho decidiu reinventar-se. Começava, a pouco e pouco, a estudar "motion design", a decair para as imagens em movimento na agência onde trabalhava, a seguir o percurso de autênticos gurus na área, a construir projectos que sabia que nunca saíram da gaveta. Enfim, a "fazer" portefólio. O esforço compensou: saltou então para a produtora Até ao Fim do Mundo como "motion designer", onde trabalha ainda hoje, mas decidiu sonhar mais alto.

 

Como ferveroso amante de cinema e de séries de televisão, enviou um simples e-mail ao estúdio Digital Kitchen, tão somente aquele que assina os icónicos genéricos de "True Blood", "Dexter", "Six Feet Under", entre outros. "Tentei a minha sorte", conta, em entrevista por Skype ao P3. Não lhe correu mal, dizemos nós. Três semanas depois vinha a resposta sob a forma de um trabalho para a Microsoft, proposto a vários designers de todo o mundo.

 

A partir daí nunca mais parou. Se durante o dia Filipe, de 34 anos, senta-se no escritório de Carnaxide, à noite — efabulemos — põe uma capa de super-herói, atravessa o Atlântico numa via digital e trabalha remotamente para a HBO, Fox ou Marvel, imaginando conceitos visuais para séries como "Game of Thrones" e "Cosmos" ou filmes como "Thor 2", para estúdios tão reputados como o próprio Digital Kitchen, Elastic, Blur, entre outras. No início recebia cerca de três trabalhos por mês, agora tem projectos todas as semanas. "Já tenho de rejeitar. Tem sido uma evolução."

 

"Olhar cinematográfico"

Autodidacta desde sempre (no final do 12.º começou logo a trabalhar), nos EUA gabam-lhe o "olhar cinematográfico". Já é, aliás, conhecido pela sua "visão europeia", e é por ela que o procuram, com a HBO e os canais FX à cabeça. Os próprios estúdios, com "tanta concorrência", querem distinguir-se. E ele pode ajudar.

 

No fundo, o que lhe costumam pedir é para "criar um conceito visual" que sirva de abertura para a série ou filme. Geralmente, os estúdios enviam um episódio piloto ou o guião aos vários "motion designers" espalhados pelo mundo com que colaboram; um deles é Filipe, que, depois de assinar um ou outro acordo de confidencialidade, tem então alguns dias para elaborar uma "ideia imagética". Por vezes, tem de ler o guião inteiro numa noite; depois procura sintetizar, visualmente, a proposta. "O que faço é criar um conceito visual. Tento arranjar as imagens para o genérico, ou o que eu acho que deve ser o genérico, que depois é construído a partir delas." Segue-se a segunda parte do trabalho: a apresentação. "Uma parte é a imagem, outra parte é o discurso, a comunicação do conceito. É uma parte que talvez não seja tão visível."

 

No final, o seu conceito visual até pode não ser o escolhido, mas é sempre pago. Também aqui o que importa é o "processo" — é isso que o move. No seu site, dá-nos um vislumbre de algumas propostas, como para "Game of Thrones", "Sons of Liberty" e "O Fantástico Homem-Aranha 2". Algumas viram a luz do dia, como o genérico de "Cosmos - A Spacetime Odissey", desenvolvido a partir do "ambiente e conceito" de Filipe, que chegou mesmo a ser nomeado para um Emmy em 2014. Ou a mudança de visual ("rebrand") do canal PBS Indies, uma das actividades a que também se dedica enquanto "motion designer".

 

Quem não arrisca...

Ao trabalhar com o gigantesco mercado norte-americano de entretenimento, Filipe Carvalho deparou-se com processos de trabalho "muito diferentes" — bem como os pagamentos. Os projectos são mais longos, mas também mais "ponderados". Por agora, concilia o emprego a tempo inteiro com a carreira "freelancer". Nas piores alturas, acaba por passar quatro dias a dormir três ou quatro horas por noite, aproveitando as madrugadas para trabalhar, em sintonia com o fuso horário americano. 

 

Costuma dizer que, se não fizesse o que faz, seria fotógrafo. Por isso, é natural que pense agora em passar para trás das câmaras. Nova reinvenção à vista? "Gostava de realizar filmes. As próprias imagens dos genéricos, filmes, curtas, publicidade." Sempre a piscar o olho ao "mercado internacional".

 

Já teve uma primeira experiência. Há dois anos, para conseguir entrar furtivamente no mercado de Hollywood, criou um genérico de um filme fictício. Chama-se "The Architect" e nele figuram nomes como Kevin Spacey, Bryan Cranston, Tilda Swinton, Philip Seymour Hoffman e Javier Bardem (ver vídeo à esquerda). A produção tem assinatura de George Clooney e Steven Soderbergh, Anton Corbijn é o director de fotografia, Gus Van Sant o argumentista, David Fincher o realizador. A lista continua, repleta de figuras que Filipe admira.

 

Durante quatro meses trabalhou neste vídeo, do "conceito à filmagem". Filmou, editou, montou; só não fez a música. "Quis distanciar-me do resto dos meus trabalhos. Mostrar que sei filmar, editar, que também sou muito fotográfico." O esforço compensou. Publicou-o online e o 'feedback' foi "muito bom". Depois, conta Filipe entre risos, decidiu enviá-lo para o Elastic, estúdio que trabalha com David Fincher. Angus Wall, editor dos filmes do realizador norte-americano, respondeu-lhe: "Gostei muito, mas nunca vais conseguir juntar essas pessoas todas num filme." A partir daí começou a trabalhar com esse e outros estúdios (como o Blur) e as portas escancaram-se para projectos como "Thor" e "O Fantástico Homem-Aranha 2".

 

Por tudo isto, já teve "várias respostas" à pergunta da praxe: "Pensas emigrar?" Se por um lado até consideraria cruzar o Atlântico para se aproximar mais do meio e acompanhar os processos de trabalho do início ao fim, por outro gosta deste emprego à distância. "Tenho 34 anos, já tenho outras questões familiares. Estou no meu país a trabalhar para fora onde pagam muito melhor. E o dinheiro cá tem mais importância porque o nível de vida é diferente."

 

Não é caso "único", assegura. Nos últimos meses tem marcado presença em diversas conferências em escolas e festivais (como o OFFF e o Get Set, que arranca na próxima semana), não só em Portugal, mas também em Espanha e na Holanda. Por vezes, em conversa com a audiência, apercebe-se de dois grandes problemas que impedem muitos de seguir as mesmas passadas: "Primeiro, o [domínio do] inglês nem sempre é muito bom e tem de ser para se conseguir trabalhar neste nível. Depois, as pessoas não acreditam em si próprias e quem não arrisca não petisca. O mercado é muito grande." Não se restringe a Portugal, mas sim ao mundo, sublinha. "Acho que se pode pensar globalmente."

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