Berlim

Oli guarda o único museu de autocolantes do mundo

Nega ser um “sticker nerd”. Abriu o Hatch Museum em 2008, em Berlim, e já perdeu a conta a quantos autocolantes tem expostos. Não rejeita nenhum donativo e aceitas trocas com Portugal

Texto de Ana Maria Henriques • 28/08/2012 - 09:56

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Oliver Baudach colecciona autocolantes desde os 13 anos. Hoje, com 41, dá para imaginar a quantidade de pequenas obras de arte que devem andar lá por casa. E pelo Hatch Museum, em Berlim, a sua maior realização profissional – e pessoal, claro.

 

No primeiro (e único) museu do mundo dedicado a autocolantes, Oliver não cobra entrada aos visitantes. Turistas e artistas são convidados a conhecer o espaço no bairro Mitte, no centro da capital alemã, e a apreciar a colecção que deve rondar as 25 mil peças, espalhadas em várias divisões.

 

Em entrevista ao P3 via e-mail, Oli, como prefere ser tratado, contou a história do espaço. Ao aperceber-se do crescimento de exposições temporárias e concursos de design de autocolantes, bem como de livros e sites para trocas, concluiu que não era um “sticker nerd” no meio de um “pequeno planeta de ‘stickers nerds’”. Havia mais pessoas (muitas mais) a apreciar as pequenas obras de arte. Uma breve pesquisa online, no Verão de 2007, confirmou a sua ideia inicial: não havia nenhum sítio que celebrasse apenas esta cultura.

 

Oli, que cedo começou a andar de skate, chegou a ter uma skateshop e a trabalhar como director de marketing para uma grande empresa do meio, estava “mais do que impressionado com a grande e incrível cultura de ‘stickers’ das ruas de Berlim”. A vontade de preservar os autocolantes que o clima estraga e de ter informação sobre os autores levou-o a consolidar a ideia antes que alguém tivesse a mesma ideia ao mesmo tempo.

 

Com o apoio financeiro dos seus pais – no banco, todos o viam como um louco assim que mencionava o projecto – e de um programa estatal que incentivava a criação do próprio emprego, apressou-se a fazer obras no local escolhido e abriu ao público em Abril de 2008. Aí se manteve até Dezembro de 2010, quando o contrato acabou e teve de recomeçar do zero. Aproveitou e decidiu “pensar em grande, o que significou mudar para uma área mais cara mas, também, mas visitável por turistas”, onde se mantém até hoje.

 

No início, valeu-se da sua própria colecção, “maioritariamente de skateboard, streetwear, música, lojas, revistas e um pouco de street art”. Só ao longo dos primeiros meses, quando o projecto começou a ser divulgado, passou a receber donativos de artistas e visitantes.

 

Trocas em Portugal

Oli, que nasceu em Barcelona, recebe e envia, pelo correio, autocolantes de e para toda a Europa e colabora com 150 marcas. É o envio de “stickers” através da pequena loja do Hatch que garante a sobrevivência do mesmo. Graças a este projecto, os miúdos que gostam desta arte “sabem sempre quando são lançados novos autocolantes e têm imediamente a hipótese de escolher aqueles que querem”. É por isso que o museu lembra a Oli a sua infância, quando “corria as lojas de skate e graffiti a perguntar por autocolantes”.

 

Também pede aos visitantes que lhe enviem autocolantes dos seus países de origem, para que a colecção se diversifique. Foi isso que aconteceu com Ana Carolina, uma portuguesa que, numa viagem a Berlim, se deparou com o museu e logo se prontificou a partilhar com Oli algum espólio nacional, uma vez que o dono "tinha interesse em ter alguns autocolantes portugueses".

 

"Encontrámos o museu por acaso e como gostamos muito de 'street art' entrámos. Vimos uma colecção fabulosa, com artistas muito conhecidos", contou Ana Carolina ao P3. Regressou a Portugal com vários autocolantes oferecidos e, de momento, está a recolher, entre alguns amigos e conhecidos, material para enviar para a Alemanha. Há, até, artistas portugueses a produzir “stickers” especiais para o Hatch Museum.

 

Como qualquer coleccionador que se preze, Oli tem vários autocolantes repetidos. Divide-os em caixas e, sempre que pode, deixa que os visitantes do seu museu levem algum para casa, como recordação. E esta é uma das coisas de que mais gostam, a par das bebidas orgânicas grátis que preenchem um cantinho do espaço e da hipótese de “receber informação de contexto sobre alguns artistas ou autocolantes”.

 

A cada artista, Oliver Baudach garante a presença no museu, “porque a exposição é como parte da rua, onde toda a gente pode deixar os seus autocolantes e ninguém os selecciona”. “A única coisa que faço é criar, por vezes, molduras individuais de ‘stickers’, dependendo da sua relevância, da quantidade ou da qualidade criativa dos mesmo”, explica. “Mas nunca recuso um donativo e nunca tirei um autocolante da exposição, pelo que a colecção do museu cresce permanentemente.”

 

De Berlim, cidade para onde se mudou em 2000 vindo de uma pequena cidade do Sul da Alemanha, Oli esperava maior apoio, sendo o primeiro museu dedicado a “stickers”. “Ainda há quem trate os autocolantes como o enteado da arte contemporânea.”

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