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Filipa Oliveira: "a curadoria não tem nação"

Jimmy Robert no projecto "Satellite" no Museu Jeu de Paume, em Paris

Jimmy Robert é um dos quatro artistas propostos para o projecto "Satellite" no Museu Jeu de Paume, em Paris

Jimmy Robert, "Langue matérielle"

Arte

Filipa Oliveira, um rosto português por detrás de exposições em Paris

Trabalha em Paris como curadora - ou seja, organiza exposições e acompanha o percurso das obras e dos seus criadores. Filipa Oliveira é uma portuguesa "freelancer" no circuito internacional da arte, colaborando hoje com o Museu Jeu de Paume

Texto de Marta Portocarrero/JPN • 26/04/2012 - 09:38

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Quem é que já reparou na luz que incide sobre uma obra de arte, questionou a sequência com que as pinturas nos são apresentadas ou, ainda,  reparou na cor e textura das etiquetas que as acompanham? Este é o trabalho dos curadores. Bem-vindo, pois, ao mundo da curadoria.

 

"Não nasci a achar que ia estudar arte contemporânea", afirma Filipa Oliveira. Mas foi o que acabou por acontecer, embora tardiamente. A lisboeta, de 38 anos, abandonou a paixão de criança pela biologia marinha e licenciou-se em Comunicação Social e Cultural pela Universidade Católica, seguido de uma pós-graduação em Gestão das Artes.

 

Mas só mais tarde, num estágio no Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles, é que se rendeu à curadoria. "Percebi que queria trabalhar com artistas vivos e fazer com que o seu trabalho fosse possível", explica. Decidiu ser "freelancer".

 

Actualmente, está a colaborar com o museu Jeu de Paume, em Paris, tendo sido convidada para programar o projecto Satellite. Entre Lisboa, onde continua a viver, e Paris, onde vai uma vez por mês, Filipa organiza, durante um ano, quatro exposições a decorrer nas salas alternativas do museu. "Propus um tema - 'Presente é uma terra estrangeira' -, apresentei quatro artistas e eles gostaram."

 

Cada vez mais adeptos portugueses

Há mais de dez anos a trabalhar como curadora, Filipa já não tem dificuldade em descrever uma profissão alvo de muita curiosidade. "Um curador é alguém que pensa e organiza exposições, acompanha artistas e faz projectos positivos", explica.

 

Apesar de ainda ser um mundo pequeno, a curadoria tem vindo a ganhar cada vez mais adeptos em Portugal. Apostando na formação, existe um mestrado em Estudos Curatorias na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e outro em Estudos Artísticos na Faculdade de Belas-Artes do Porto, este com uma vertente direccionada para a Museologia e a Curadoria.

 

Mas, para Filipa, a formação não é o mais importante, sendo que pessoas de várias áreas podem exercer a profissão. O essencial é "ver arte". "Ver, ver, ver e ver outra vez", afirma a curadora. "Estar muito a par do que se faz e do que se mostra e perceber qual o pensamento que roda à volta da criação contemporânea", acrescenta.

 

Tal como Filipa, grande parte dos curadores portugueses trabalham em museus ou noutras instituições no estrangeiro. Tal facto acontece porque "a curadoria não tem nação" e as  condições para se ser curador em Portugal não são as mais fáceis, embora não seja impossível, esclarece. Para Filipa, não faz sentido trabalhar exclusivamente com artistas portugueses. "Acho que seria algo completamente redutor, porque a arte é cada vez menos uma coisa nacionalista", justifica. 

 

Trabalhar em Paris está a ser uma experiência positiva que, em muito, se aproxima da exigência e competitividade características da curadoria. "É muito fácil trabalhar no Jeu de Paume, a equipa é de um profissionalismo incrível", refere. "É uma área apetecível mas implica muito trabalho e muito esforço", acrescenta.

 

Uma relação estreita com a arte

"Faço todo o acompanhamento, desde a angariação de fundos para cada projecto, passando pela parte técnica de instalação de cada peça, até à parte conceptual", onde se debatem ideias com os artistas, explica Filipa. E neste processo de produção artística, o diálogo com os artistas é fundamental para que tudo funcione como planeado. "É uma relação de constante diálogo que implica cedências dos dois lados", refere. "Normalmente, eu sigo-os, porque não gosto de impor a minha vontade acima da vontade dos artistas, porque a voz mais importante numa exposição é a deles", acrescenta.

 

Com uma relação tão estreita com a arte, de cada vez que entra num museu, Filipa ainda é capaz de ser surpreendida, embora mantenha sempre uma visão técnica que escapa ao público em geral. "Não consigo ir a um museu e não reparar como a luz está feita, ou como o curador utiliza o espaço, mas também vou para desfrutar da arte", esclarece. Neste sentido, não tem dificuldade em relacionar-se com pessoas exteriores ao panorama artístico, considerando desafiante explicar a arte aos outros. "Tenho muitos amigos que não percebem nada de arte e dizem-no declaradamente, mas continuam a ser meus amigos", afirma. "Há mundo para além da arte, mas alguns dizem que têm uma visão diferente quando vão comigo a um museu", acrescenta.

 

Filipa nunca traçou objectivos demasiado específicos, foi aproveitando as oportunidades que surgiam. Quando decidiu dedicar-se à arte contemporânea, a família e os amigos "não percebiam muito bem o que estava a fazer, nem por que não queria algo mais lucrativo". Mas Filipa sente-se feliz como 'freelancer' e com o futuro completamente em aberto. "A liberdade de pensamento e movimento enquanto 'freelancer' é muito interessante, mas estamos sempre a pensar no que vamos fazer a seguir", esclarece.

 

Durante os dois próximos anos, Filipa vai participar num projecto com o museu Gulbenkian em Paris, trabalhar com a artista Katie Paterson, numa exposição a decorrer em Lisboa, Madrid e Inglaterra, e com Patrícia Garrido, na EDP, no Porto, e na Casa das Histórias, em Cascais. Um dia, gostava de trabalhar num museu mas, por enquanto, prefere manter o ritmo agitado de "freelancer". Gosta de viver em Portugal mas não se imagina a trabalhar num só país. "Acho que a minha vida passará por viver metade do tempo em Portugal e metade num avião a andar de um lado para o outro", remata.

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