Os últimos caçadores de cabeças da tribo Konyak

autoria Ana Marques Maia

// data 10/06/2018 - 19:14

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Nas remotas montanhas indianas de Nagaland, junto à fronteira entre a Índia e a Birmânia, está assente a aldeia de Longwa, lar da tribo guerreira Konyak, famosa pela prática ancestral de caçar cabeças humanas. Os Konyak decapitavam os seus inimigos, habitantes de aldeias vizinhas, e regressavam a casa com o troféu que seria, posteriormente, exibido no interior da casa do vencedor, juntamente com ossos de outros animais de caça. O fotógrafo indiano Fanil Pandya visitou Longwa para retratar os últimos sobreviventes desta tribo e o resultado pode ser visto no Porto até 28 de Junho, na Galeria Espiga.

 

Acompanhado de um tradutor, o fotógrafo visitou a aldeia por duas vezes, em 2015 e 2016. "No princípio, tive medo; os Konyak têm uma reputação feroz", explicou, em entrevista ao Times of India. À medida que os dias passaram, Pandya percebeu que os Konyak são, afinal, "pessoas extremamente sociáveis" e que a última decapitação teve lugar há mais de 30 anos, nos anos 80 (década na qual a prática foi proibida). O último caçador de cabeças tem hoje 83 anos e chama-se Chinkhum. "Fui o último homem a cortar uma cabeça inimiga e a trazê-la para casa", contou o guerreiro ao fotógrafo. A maioria dos ex-caçadores tem, hoje, mais de 75 anos. As tatuagens faciais e os adereços tribais — entre eles, o "colar de crânios", cujas contas correspondem ao número de cabeças decapitadas — não lhes permitem ocultar a sua identidade. "Eles têm noção do seu passado brutal, mas não sentem vergonha", contou ao mesmo jornal. "Acreditam que caçar cabeças continua a ser melhor do que aquilo que fazem os exércitos de tantos países nos dias de hoje."

 

As novas gerações da aldeia de Longwa vivem afastadas das suas raízes culturais. Hoje existe, segundo Pandya, um fosso geracional difícil de fechar. O progresso — as motas, os telemóveis, a Internet — trouxe mudanças ao nível da identidade dos jovens, que "sentem que o seu passado está manchado de sangue e não querem relacionar-se com ele". Já os mais idosos sentem que o sucesso da linhagem advém, precisamente, desse mesmo banho de sangue. "Adoro os meus netos mais do que tudo no mundo", explicou um dos ex-caçadores de cabeças a Fanil Pandya. "Fico feliz por terem sido capazes de evoluir e viver num mundo diferente daquele onde cresci. Têm mais oportunidades. Mas é um facto que a nossa identidade — da qual temos muito orgulho — tem por base o nosso passado guerreiro. Esse passado transmitiu-nos lições importantes e heranças que eu não desejo que eles esqueçam. Esses valores são os nossos alicerces."

 

Fanyl Pandya tem como objectivo retratar todas as tribos em vias de extinção "antes que desapareçam". O projecto e exposição Head Hunters foi exibido em Lisboa em 2017 e está agora em exposição no Porto, até 28 de Junho, na Galeria Espiga, a convite da ethiCollective.

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