Numa cidade sem rosto, “à procura das entranhas da vida”

autoria P3

// data 05/04/2018 - 17:54

// 5685 leituras

É noite e Flávio Andrade percorre as ruas de uma cidade imaginária "à procura das entranhas da vida". As imagens que nos traz dessa "viagem" são fragmentos de memórias construídas, onde reina o conflito entre a transparência bruta dos objectos e pessoas registadas e a opacidade do significado desses encontros. A embriaguez, a desorientação, o sexo, o sofrimento, o abandono são personagens centrais neste conjunto de imagens intitulado The city in my mind or the fear of my sky, assim como "a pressão, o desgaste, a alienação, a contaminação, as proibições, a perda de tempo e a falta de espaço, a solidão, o stress". São fruto de "tarefas marcadas pela pulsão do desejo", esclarece o fotógrafo, em entrevista ao P3.

 

O projecto fotográfico não é de cariz documental e a "viagem" é o fio condutor de uma narrativa subjectiva e elástica, que deixa ao espectador espaço para a sua própria interpretação. Flávio, no entanto, deixa escapar que "há muita contaminação do real" naquio que produz. No processo de criação artística, procura "que esse real seja traduzido por algo ambíguo, difuso e enigmático". Aprecia a subjectividade, em oposição à frieza do fotojornalismo ou fotodocumentarismo, que já exerceu no passado profissional. O ambiente nocturno é, por isso, propositado. "A noite traz-me sempre algo de mágico e misterioso; daí a escolha do flash, que serve para enfatizar a sensação de ausência, solidão, medo e sonho." Além das supramencionadas, a cidade é também uma personagem desta narrativa — e talvez a mais importante —, não sendo por isso surpreendente que Flávio tenha baseado a sua criação na obra de Jacques Le Gofff, Por Amor Às Cidades: Conversações com Jean Lebrun, que propõe uma reflexão sobre o papel e função das cidades ao longo dos séculos.

 

A maioria das fotografias foram tiradas em Lisboa, no Barreiro e em Almada, entre 2016 e 2018. A série estará patente n'A Pequena Galeria, em Lisboa, de 6 a 28 de Abril.

Eu acho que