MAAT

Crónica

“Bónus”, o nome que desdiz

Em "Bónus" temos acesso à resposta que Ana Jotta tem vindo a dar ao longo do seu percurso: a transformação do banal e quotidiano em preciosidades.

Texto de Laura Sequeira Falé • 26/01/2018 - 18:24

Laura é a autora do blogue Duplo Espaço e investigadora em Estética na FCSH-UNL

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A exposição Bónus, de Ana Jotta, patente no MAAT - Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, mas, por opção da artista, não no edifício principal, acontece por Jotta ter ganho o Grande Prémio Fundação EDP Arte em 2013.

 

O título da exposição indicia que este prémio não é recebido pela artista como um prémio, mas como um extra que não sendo decisivo é agradável. A curadora Ana Anacleto chama a atenção para a complexidade sugerida pela escolha do título quando inicia o texto da folha de sala dizendo que bónus “é sinónimo de ‘prémio’, que é sinónimo de ‘condecoração’, mas também de ‘constatação’, ‘admissão’ ou ‘confissão’, que é sinónimo de ‘revelação’, que é sinónimo de ‘segredo’, que é sinónimo de ‘mistério’, que é sinónimo de ‘enigma’ mas também de ‘incógnita’ ou ‘problema’(...)”. Adília Lopes diria que não há sinónimos [1], portanto não confundamos os termos que parecem equivaler entre si. Bónus desdiz prémio para dizer bónus.

 

O espaço despojado, na Rua do Embaixador 30B, divide-se em rés-de-chão, por onde entramos, e cave. No piso de entrada, Jotta apresenta nove trabalhos em papel realizados no atelier de gravura MEEL Press, em Lisboa. Chamados Ricochete e numerados de #1 a #9, são gravuras sobre alvos para tiro com armas de fogo que lembram as primeiras manifestações modernistas do séc. XX. Para além disso, o título avisa-nos: estes alvos estão imbuídos da capacidade mágica de virar a bala contra o atirador.

 

A cave é o verdadeiro bónus para o espectador. Ampla, com luz vermelha e sem janelas, dá a impressão de estarmos a invadir um segredo, para o qual é preciso obter autorização para entrar. Numa mesa ao alcance de todos estão objectos que podiam ser da vida de qualquer pessoa, reproduzidos em bronze polido: cacos de uma bilha partida, um livro, duas baquetas de tambor e um conjunto de pedras. São pequenos tesouros que estabelecem a ponte entre a vida e a arte e que antes de terem sido transformados em objectos artísticos, foram recolhidos pela própria e existiam como parte do recheio da sua casa-atelier. Estas riquezas são feitas a partir dessa enorme colecção de onde sai o seu trabalho.

 

Num canto ao fundo, sob um foco de luz circular com os limites bem definidos, existe igualmente em bronze a reprodução de uma bengala com a forma da letra J, como se se tratasse da assinatura da exposição. Este trabalho é resultado de dupla apropriação: por um lado, de uma bengala que deixa de servir para apoio para ser transformada em “J-precioso”, e por outro, a apropriação do símbolo “©”, em que o C de copyright é substituído por J e é a forma como a artista assina todos os seus trabalhos desde 1986.

 

Aos trabalhos expostos na cave, Ana Jotta chamou Entrevista Perpétua. Este título já tinha sido dado um outro trabalho de 2002, composto por uma lista de respostas lacónicas a perguntas não reveladas ao espectador. Por vezes a resposta de Ana Jotta indicia a natureza da pergunta. Outras, não: afirma ou nega sem que saibamos a que responde. Em Bónus temos acesso à resposta que Ana Jotta tem vindo a dar ao longo do seu percurso: a transformação do banal e quotidiano em preciosidades. A questão que a move não nos é revelada. Para ver até 5 de Fevereiro.

 

(A expressão "nome que desdiz" utilizada como título é uma apropriação da expressão usada por Gaëtan Lampo. O assunto está explorado em “Gaëtan Lampo, 'Ana Jotta: Uma Biografia Alternativa'in Ana Jotta, Nuno Vale Cardoso (concep.) Rua Ana Jotta: Retrospectiva, Porto: Fundação de Serralves, 2005, p. 40)

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