João Rebelo
"Balneário a Norte"

Ilustração

Cravo é uma revista com portas mais largas do que as das galerias

Nasceu como uma revista colaborativa de ilustração, mas agora quer ser mais. Digital e irreverente, o zine portuense Cravo quer dar-te a conhecer “sangue novo”. Em Dezembro sai a terceira edição

Texto de Beatriz Silva Pinto • 03/11/2017 - 19:05

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Não foi por acaso que a revista colaborativa foi baptizada com o nome da flor do 25 de Abril. Ser um espaço de liberdade de expressão, fugir às elites das galerias e divulgar o trabalho de artistas emergentes são as bandeiras do zine digital, fundada pela ilustradora e tatuadora Patricia Shim.

 

Como tantos outros projectos, também este nasceu da inquietação. “Criei-o porque achava que não tinha coisas suficientes para fazer", conta Patricia. "Estava a acabar o curso de Design de Moda e apetecia-me fazer algo mais relacionado com a ilustração.” Pouco depois, João Rebelo, estudante de Design de Comunicação e (também) ilustrador, juntou-se à aventura, primeiro como participante no número um da revista e depois como coordenador. Agora, os dois jovens de 23 e 19 anos, respectivamente, preparam-se para lançar a terceira edição.

 

Este “zine de formato híbrido”, como descreve João, está à vista de todos os que o queiram ver. A cada dois meses —porque um mês é dedicado à divulgação de um tema para as ilustrações e à open call de trabalhos — a revista é publicada, desconstruída, no Facebook e no Instagram. E para os que gostam mais das cores do papel do que das do ecrã, há bom remédio — cada edição tem uma exposição física. Para já, é o segundo número que está a preencher as paredes da entrada do café-galeria Duas de Letra, no Porto.

 

Esta fuga ao que é tradicional é uma das características que torna o projecto único no género. “A primeira coisa que diferencia a Cravo é que é uma revista que não é impressa em formato de revista”, explica Patricia. Estava “fora de questão” fazer uma revista com publicidade e os custos de um zine em formato físico eram “demasiado elevados” para os coordenadores.

 

Combinar o mundo digital com a exposição física foi a melhor solução. Porque chega a mais gente e porque os ilustradores saem a ganhar: “Nas feiras de ilustração, o pessoal compra pouco zines, mesmo os que são de autor. Preferem comprar postais, impressões, para colar na parede. Fazer uma exposição é mais interessante para os artistas — que ganham dinheiro porque as suas ilustrações estão à venda individualmente.” Cada ilustração da Cravo custa 12 euros, sendo que 10 vão para o bolso do artista e os outros dois ficam para os custos de logística e impressão.

 

Aberta a todos os estilos e feitios

Mas não é só no formato que a Cravo se quer diferenciar. “Parecendo que não, há sempre um grupo muito definido de quem produz ilustração e de quem está constantemente a ser publicado, a ser exposto na cidade. Até já existe um ‘estilo do Porto’ e ‘os ilustradores do Porto’”, argumentam Patricia e João, que vão completando as frases um do outro. Para os artistas de “sangue novo” que estão fora dessa “elite”, “conseguir oportunidades para subir um pouco é complicado”, acrescenta João.

 

Dão o exemplo de artistas como Mariana A Miserável, Dolbeth. “Eles são brutais, mas as galerias acabam por se limitar a eles. E não têm abertura para receber coisas novas, de estilos diferentes”, explica o coordenador. Uma das prioridades de Patricia foi mesmo essa — lutar para que dentro das páginas da revista não se contassem os estilos pelos dedos.

 

Mariana Malhão foi uma das desafiadas a participar no número dois da revista. A designer e ilustradora portuense de 22 anos não está segura de que haja uma elite artística definida, mas reconhece que a qualidade não é o único factor que as galerias têm em conta. “Os donos das galerias fazem a sua própria curadoria e, se calhar, querem ter um projecto coerente com a sua ideia de estética. Muitas vezes podem recusar alguém não pelo trabalho não ser bom, mas porque pode não se enquadrar.”

 

Unir forças na criatividade

Apesar de ter nascido no Porto, este é um zine sem fronteiras. Dos cerca de 20 artistas que já foram publicados na Cravo, dois são internacionais: um ilustrador da Malásia — Nadhir Nor — e uma do nosso país-vizinho — Ainize Santos. A ilustradora espanhola de 25 anos, que participou na primeira edição, acredita que estar exposta num país que não é o seu pode ajudar a espalhar a palavra sobre a sua arte. “Acho que é sempre bom quando artistas desconhecidos se unem e criam uma força comum. É mais fácil ser-se reconhecido quando estás rodeada de pessoas que partilham a mesma paixão que tu e que se apoiam mutuamente.”

 

Ter pelo menos uma colaboração internacional em cada edição é outra das metas. E no número três da revista, a ser publicado em Dezembro, há uma ilustração que vem directa da Grécia, a de Natalie Mavrota.

 

Para já, são pelo menos 13 as colaborações garantidas para a nova edição que, desta vez, vai ser feita de mais do que ilustração — fotografia, bordado e serigrafia são algumas das técnicas com destaque. Mas o número de artistas ainda pode subir. Tudo depende da quantidade de trabalhos que receberem nesta open call, que se estende até 25 de Novembro. O único limite, dizem os coordenadores, são o tamanho das paredes destinadas à exposição.

 

A Berriblue e o Godmess já são presenças confirmadas. A Espirro, que esteve à conversa com o P3, também. Foi o sentido comunitário da Cravo que conquistou a artista multifacetada de 27 anos. “Sinto que temos de combater esta lacuna existente no interesse pela cultura em Portugal. É também através de projectos como este que trabalhamos a educação visual da comunidade. Por isso, fico sempre muito contente de fazer parte deste tipo de iniciativas, em que se juntam artistas e se dá a conhecer trabalhos criativos.” Sobre a sua colaboração, pouco adianta. Mas revela que este tipo de desafios “com um conteúdo simples e concreto, e ao mesmo tempo vago”, a estimulam imenso. “Gosto de levar um tema à exaustão. Estou curiosa para ver no que isto vai dar.”

 

Um zine com casas-de-banho e camas dentro

Tanto a Espirro como todos os outros participantes vão ter de trabalhar sobre a “cama”, o tema definido por Patricia para esta edição.

 

O primeiro zine, que saiu ao longo do mês de Agosto, girou à volta das “casas-de-banho” e o segundo fez-se à “estrada”. O critério de escolha dos temas, conta, é serem “o mais aleatório possível”. “Queremos pôr as pessoas a fazer algo com coisas que são difíceis de representar. Para não serem demasiado literais, fugirem um bocado da caixa.”

 

A terceira edição chega a público a 1 de Dezembro, com uma mini-inauguração no primeiro piso do café-galeria Duas de Letra. Depois, no início de 2018, vai em viagem até Lisboa.

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