Fotojornalismo de guerra: Gilles Caron e a dependência do horror

autoria Ana Marques Maia

// data 03/11/2017 - 13:00

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Curta foi a vida do fotojornalista Gilles Caron e longa a sua lista de méritos; Henri Cartier-Bresson apelidou-o de "Robert Capa francês" pela "nova vida" que trouxe ao fotojornalismo da época. A Leica Gallery, no Porto, expõe uma retrospectiva do seu trabalho de 4 de Novembro a 10 de Janeiro de 2018.

 

O percurso pessoal de Gilles Caron foi profundamente marcado pelos 22 meses de serviço militar que cumpriu, entre 1959 e 1961, no corpo do regimento de paraquedistas de infantaria francês em território argelino; a sua convicção pacifista fez com que se recusasse a combater — um acto de rebelião que lhe valeu dois meses de prisão militar e que fez com que dedicasse o resto da sua vida à exposição dos terrores da guerra. Cobriu todos os grandes conflitos que decorreram entre 1967 e 1970: a Guerra dos Seis Dias, em Israel, a guerra civil do Chade, a Guerra do Vietname, a guerra civil da Nigéria (também conhecida por Guerra do Biafra), o célebre Maio de 68, em França, o sangrento drama independentista da Irlanda do Norte, a Primavera de Praga e, por fim, o golpe de estado no Cambodja, que ocorreu a 18 de Março de 1970.

 

A sua marca histórica, enquanto fotógrafo, deve-se à sua abordagem cerebral aos cenários de guerra. Gilles Caron foi dos primeiros a isolar o indivíduo, a humanizá-lo em detrimento da colectividade, da artilharia e da maquinaria, que eram tantas vezes protagonistas nas narrativas fotográficas da época. Caron voltou a lente para o soldado-indivíduo, para a população civil e para o próprio fotojornalista, questionando o papel de todos no contexto em questão.

 

Uma das desventuras que viveu no teatro de guerra foi determinante no questionamento do seu papel enquanto fotógrafo, como explica neste vídeo Michel Poivert, comissário da exposição The Conflict Within, patente no Musée de l'Elysée em 2013. No Chade, em plena guerra civil, Caron e os seus companheiros Michel Honorin e Raymond Depardon, cineastas, deram por si cercados pelas forças governamentais chadianas na companhia de um grupo de rebeldes. As balas atingiam as paredes da escola onde se abrigavam, fazendo prever um desfecho desfavorável a todos os que se encontravam no interior. A pressão sobre o grupo aumentava e Caron decidiu tentar a negociação. O exército chadiano era apoiado pelo governo francês, motivo por que, à partida, os documentaristas deveriam sair ilesos. Caron e os companheiros aceitariam abandonar o edifício sob uma condição: o exército chadiano não atirar sobre os rebeldes.

 

Apesar da garantia, apenas os três jornalistas escaparam com vida; os rebeldes foram assassinados no local. A aliança franco-chadiana não impediu Caron e os companheiros de serem capturados e mantidos em cativeiro durante duas semanas. Ironicamente, foi a prisão dos repórteres de imagem franceses que chegou às manchetes dos jornais, e não o massacre que a antecedeu. Por esse motivo, Caron decidiu documentar a própria profissão e colocar a nu alguns dos seus paradoxos e vicissitudes. Uma das mais icónicas imagens que fez foi a de Raymond Depardon a filmar uma criança que sucumbia à fome, na Nigéria. Através dessa imagem, Gilles questiona o papel do documentarista de guerra: a impotência e a dependência sórdida que se estabelece, unilateralmente, entre o fotógrafo e a missão de observar o horror são elementos presentes no seu trabalho que não tinham, até então, expressão em França.

 

Gilles Caron desapareceu aos 30 anos na estrada que liga o Cambodja ao Vietname no dia 5 de Abril de 1970, apenas quatro anos após o início da sua carreira fotográfica.

Eu acho que